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por andrew earles
foto alex behr




Eu vou apostar aqui que existe uma linha cronológica amplamente aceita que divide o catálogo da Matador Records, estipulando um “Antes” do Slanted and Enchanted—com o furacão de terror financeiro em que a gravadora se encontrava—e um “Depois”, quando a calmaria predominou. É estranho imaginar que discos foram lançados pela Matador antes do selo encontrar a galinha dos ovos de ouro com o primeiro disco do Pavement, mas, sim, eles lançaram discos, e tem um que faz Slanted and Enchanted, e especialmente Crooked Rain, Crooked Rain, desse ano, soar como aquela merda do John Cafferty and the Beaver Brown Band. O nome do disco é Lovelyville (1991), e é o trabalho de cinco personalidades fortes que se chamam de Thinking Fellers Union Local 282. Talvez você tenha escutado esse nome sussurrado por aí. Na verdade, eu não tinha escutado Lovelyville até um ano depois de seu lançamento, quando saiu o disco seguinte do TFUL282, o épico—e duplo—Mother of All Saints, de 1992. Eu tive aquele tipo de epifania que a maioria das pessoas associa com discos mais conhecidos (leia-se: superestimados) como Loveless, Daydream Nation, You’re Living All Over Me e, se sua data de validade já expirou há algum tempo, Entertainment! ou, pelamordedeus, o primeiro do Ramones. Mother of All Saints colocou o TFUL282 na linha de frente de um microgênero (mais específico até que “lo-fi”) muito rarefeito e até então sem nome, identificável apenas por interpretações de indie pop completamente desencanadas. O Thinking Fellers, junto com Trumans Water, Fly Ashtray, Wingtip Sloat, Uncle Wiggly, Furtips, Supreme Dicks e Strapping Fieldhands, encontrou novas e arrepiantes maneiras de aplicar refrões pop a todas as formas inexploradas de dissonâncias, volumes e ritmos.

Às vezes entram na categoria o Sebadoh e o Guided by Voices, desde que os grupos estejam nesse clima. Mother of All Saints foi a primeira música “difícil” a invadir o meu cérebro, e isso aconteceu de um jeito tão arrebatador que tive que sair falando pra todo mundo. Free jazz e noise estavam falhando na missão (não por falta de tentativas ou gastos monetários da minha parte), mas Mother of All Saints foi motivo de inspiração, otimismo e de uma busca por qualquer coisa que soasse vagamente parecido. Vindos de São Francisco (alguns via Iowa), os cinco membros do Thinking Fellers Union Local 282—Mark Davies, Anne Eickelberg, Brian Hageman, Jay Paget e Hugh Swarts—estão agora curtindo o nascimento de sua obra-prima No. 2: o relativamente acessível Strangers From the Universe (lançado esse ano pela Matador). O álbum tem, na verdade, músicas que qualquer mãe pode suportar. “The Piston and the Shaft” é um lounge pop virado do avesso, “My Pal Tortoise” é uma das coisas mais pegajosas que eles já fizeram, e a mesma coisa vale para “Cup of Dreams”.

Há sem dúvida menos encheção de lingüiça da banda e pelo menos uma obra-prima épica que vai te fazer sair correndo pela rua abordando desconhecidos pra contar a respeito do que é “Four Hundred Years”. A música é barulho pop que, bom, você tem que ouvir para entender. Sem pagar uma consulta com um historiador musical, você pode ter muita mão-de-obra para apontar as influências na música do Thinking Fellers. E isso me leva a uma viagem para assistir o TFUL282 tocar para um público magro e desinteressado. Dentro do Howlin’ Wolf (péssimo nome) em Nova Orleans, eu fiquei na frente de dois caras de uns trinta e poucos anos (a noite teria sido uma merda se eles ficassem na minha frente) que ficavam apontando uma banda diferente para cada música ou pedaço de música, tipo: “Aquela parte ali soa como The Residents”, ou “essa aqui sempre me lembrou do Beefheart”. E eles concordavam um com o outro enquanto a música continuava. Sem conhecer nenhuma das bandas, e sem as 20 arrobas e os 75 ou 80 anos que eles tinham juntos, eu não estava em posição de ligar para as opiniões musicais daqueles dois corcundas repelentes de vagina. Eu estava muito ocupado pagando um pau pra grandeza do Thinking Fellers ao vivo. Desde então eu vi a banda várias vezes no ano passado. Recentemente meu empenho me garantiu uma honra de não só escolher como também influenciar o conteúdo de um bis (acho que tocaram um entre as mais ou menos 30 músicas sugeridas). Os clichês têm que ser deixados de lado para descrever o que é o TFUL282 ao vivo.

A banda usa alguns truques para chegar num modo transcendente de execução. O primeiro é a dinâmica. Algumas músicas do repertório da banda não são só construídas para o ambiente ao vivo como especialmente desenhadas para abrir os shows. “Undertaker” (do EP Admonishing the Bishops, que saiu antes de Strangers) é uma dessas canções, como o “Catcher” (de MoAS) e, se parar pra pensar, dois terços do song-book da banda. Aqueles familiarizados com a produção da banda sabem o quão inconsistente a fidelidade pode ser de música para música. Um ótimo show do Thinking Fellers é a versão rock experimental de uma audição caseira que alterna entre clareza do Steely Dan, a porrada dissonante dos melhores momentos do Sonic Youth e a beleza sem esforço do Feelies ou do disco 154 do Wire. Em segundo lugar, nós temos o dom. Essa é uma banda experimental com a habilidade de ser abrasiva e desestruturada se a vontade bater. A espinha dorsal intocável que sustenta tudo isso é o fato de que o TFUL282 toca noise pop doidão com a capacidade de comunicação interna de um grupo de jazz ou, no mínimo, uma banda de rock progressivo. Que o TFUL282 consiga fazer isso permanecendo a antítese do Phish, Béla Fleck e Medeski Martin & Wood é óbvio. Os fãs do TFUL282 terem coleções de discos parecidas com a de neo-hippies?

Água e óleo. O verdadeiro feito não é o Thinking Fellers evitar jogar limpo com os narizes empinados, é a perfeição do ecletismo sem um pingo daquela bagagem detestável associada com os loucos embaixadores de música esperta pra gente burra: Zappa, Mr. Bungle e Primus. Ao contrário de 99% das bandas de indie rock em turnê, essas cinco pessoas conversam entre si enquanto tocam num grau tão importante quanto quando eles conversam dentro da van. TFUL282 virou um casamento suave entre entrosamento musical de acordo com o estilo de pop que eles mesmos inventaram e a inclusão discreta de improvisação. Duas bandas mais ou menos do mesmo tipo, Sun City Girls e Dead C, misturam estruturas de canção baseadas no rock e no pop e improvisação livre estridente com uma variedade de resultados. A diferença é que o TFUL282 esbanja carisma, ao contrário dos dois exemplos mencionados anteriormente e, pra ser mais preciso, ao contrário de qualquer outra banda que exista atualmente.

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Don’t be scared to take a shit on fucking assholes that think they know it all. Literally, take a shit on them.
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