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NA SAGA DA BEIRADA

A Redescoberta do Cinema Marginal

TEXTO ANDRÉ MALERONKA
FOTOS CORTESIA HECO PRODUÇÕES

O Bandido da Luz Vermelha (1968), Rogério Sganzerla
A Mulher de Todos (1969), Rogério Sganzerla

Quando assisti O Bandido da Luz Vermelha pela primeira vez, eu tinha 17 anos. Estava meio chapado, de madrugada, assistindo TV e peguei o filme já no meio num canal de TV estatal. Não entendi da onde vinha aquilo tudo. Episódios barulhentos e encadeados que contavam a história de um ladrão estuprador, com narrações e diálogos sarcásticos que são quase palavras de ordem: “O Terceiro Mundo vai explodir! Quem tiver de sapato não sobra!”. Um filme policial de humor desgraçado, cruel, crítico pra cacete, as atuações alegóricas na cara dura.

Claro, como bom adolescente, eu já conhecia os filmes da Pornochanchada que passavam na Sala Especial da TV Record, e alguns deles até tinham um pouco da tonitruância, nudez e escracho que eu via ali, mas aquilo eram outros quinhentos. Não subestimava quem assistia em troca de ereções nem abusava do frasismo entusiasmado atrás de risadas. Era único. Achei o diretor do filme, o tal do Rogério Sganzerla, um gênio. “Filme legal é isso, O Bandido” virou um lugar-comum em rodas de amigos e mesas de bar.

Bang Bang (1971), Andrea Tonacci
Orgia, ou O Homem que Deu Cria (1970), João Silvério Trevisan

Demorou anos, mas descobri que O Bandido era só a cabecinha—tá bom, uma cabeçorra—de uma jeba que mede quase 70 filmes de comprimento, entre curtas, médias e longas que tentou ficar ereta durante uns dez anos na má intenção de arrebentar as pregas da sociedade, que na época eram bem apertadinhas. Eram os anos de chumbo do governo militar e muitos desses filmes, que eram coitos em público, foram interrompidos através da censura e dos boicotes feitos pelos usurpadores fascistas que tentavam fazer papel do pai protetor nos lares brasileiros.

Isso que acabei de comparar com um penis gigantesco foi, como muitas das boas coisas, um estado de espírito que as pessoas tendem a ver como movimento, e que para o desgosto da maioria de seus diretores foi agrupado sob a pecha de “cinema marginal”. Tudo bem que um dos filmes considerados marco inicial do “movimento” se chame a A Margem, realizado pelo ex-caminhoneiro de bigode cabuloso Ozualdo Candeias em 1967, que o próprio Sganzerla tenha feito publicar o seu manifesto Cinema Fora da Lei em 1968, e que, principalmente, esses tais filmes tivessem uma predileção pelas pessoas à margem da sociedade e buscassem formas de contar as histórias que optassem pela deriva do personagens, câmeras e roteiros. Tudo bem que o epicentro dessa produção tenha sido a Boca do Lixo no centro de São Paulo. Mas a verdade é que essa denominação pegou por conta de uma enxurrada de preconceito e estereotipia da imprensa—não é de hoje que a mídia está coalhada de sicofantas. “Essa coisa de marginal nasce com força em matéria da Manchete que vem com uma foto do Orgia, ou O Homem que Deu Cria, do João Silvério Trevisan. ‘Ah, o que é isso?’ ‘Ah, isso é cinema de marginal, cinema marginal’. Já é 70. Em 70 que esse nome estoura. Já tinha sido usado, as pessoas já falavam, mas não tinha ainda sido tão popularizado.” Quem me contou essa e a maioria das coisas que divido aqui com vocês foi o Eugênio Puppo, pesquisador à frente da Heco Produções que organizou a Mostra Marginal em 2001 com 40 filmes em São Paulo, 61 no Rio e 35 em Brasília.

O Bandido da Luz Vermelha (1968), Rogério Sganzerla
As Libertinas (1968), Carlos Reichenbach, Antonio Lima e João Callegaro

Fui atrás do Puppo porque a produtora dele está com um projeto, junto com a Lume Filmes, do Maranhão, de colocar na rua 12 DVDs com filmes marginais, todos com livretos supercompletos e extras inacreditáveis. Até agora já saíram quatro: Bang Bang de Andrea Tonacci, Sem essa Aranha do Sganzerla, Meteorango Kid, O Herói Intergalático de André Luiz Oliveira e Os Monstros de Babaloo de Elyseu Visconti. O Puppo estava irritado com os lançamentos de selos brasileiros: “Eles lançam e põem lá um longa e um curta, ou um longa e dois curtas, ou galeria de posteres, sabe? Parece coisa de internet e não é, não é nem interativo... É pior! Aí não tem condição. Do Tonacci, por exemplo, a gente fez o Ismail Xavier analisando Bang Bang”. Ele também contou que o único registro de um curta de Oliveira, O Doce Amargo, é no DVD, porque o negativo estragou, foi pro lixo e não tem cópia. A única cópia que existia eles deram um play já copiando pro Mac. Depois de salvo, “demos um play na fita de novo e a fita fodeu, foi pro lixo. Então nesse Doce Amargo demos um trato, e a gente colocou os curtas que ele fez com o Mário Cravo—o fotógrafo, que acabou de morrer, fez curtas, coisas muito loucas...”. Tem uma entrevista inédita de duas horas do Rogério Sganzerla feita nos anos 90 que é realmente fantástica. Há dois anos seu filme de maior projeção, O Bandido, foi relançado em DVD pela produtora Versátil. O Puppo fez questão de lançar logo o Meteorango Kid, do diretor baiano André Luiz Oliveira, pra provar que esse jeito livre de fazer cinema não era uma coisa restrita a São Paulo e à Boca do Lixo.

A Margem (1967), Ozualdo R. Candeias
O Pornógrafo (1970), João Callegaro







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