HOJE NA VICELAND

COMO PARECER UM OTÁRIO NA NOITE EM 10 POSES FOTOGRÁFICAS


Não sei se já perceberam, mas aqui o pessoal da VICE vai a muuuuitas festas. Aliás, todas as entrevistas de emprego que fazemos são em dark rooms berlinenses, ao pôr-do-sol numa festa em Dalston ou através de glory holes. Assim, e graças à nossa experiência, acabamos por ficar especialistas em reacções que as pessoas costumam ter quando uma câmara se aproxima para as imortalizar nesses momentos festivos. Fiquem com as nossas dez poses de festa mais tonas e cliché.



A BURCA

O que tu achas: És tímida! És um enigma! És a bela misteriosa do baile dos Capuletos! Os teus olhos são lagos profundos que só podem ser nadados por outros anjos caídos e esses lagos são infinitamente profundos como… (blablablá).

O que os outros acham: Tens um reflexo fotofóbico e o flash fez-te espirrar a coca toda pelo nariz.


O MAUZÃO

O que tu achas: És o James Dean se ele tocasse nos Sex Pistols (mas ainda com mais pinta).

O que os outros estão a ver: És a minha avó a jogar sopa de letras e estás a ilustrar a palavra “adolescente”.


O SINALEIRO

O que tu achas: Para ser honesto, não sei o que é que este sinal quer dizer. Talvez seja algum tipo de alusão à street cred e perigo. Portanto, és basicamente alguém que costuma andar por ruas meio perigosas. Hmm, parabéns.

O que os outros acham: És a Ke$ha, és o MySpace.com e a “99 Problems (versão censurada)”. (PS: Se algum de vocês for mesmo de um gangue por favor não me façam a cama).


A LÉSBICA IRÓNICA

O que tu achas: És linda, confiante, adoras o Andy Warhol e estás perfeitamente confortável com tua sexualidade, por isso és capaz de beijar qualquer pessoa e estás-te a cagar para quem estiver a ver (ou a fotografar, não é?).

O que os outros acham: Vibrações perturbadoras de tristeza emanam de qualquer coisa sexual feita sem vontade. As mesmas vibrações que me impedem de assistir à maioria dos pornos lésbicos ou que fazem do abuso infantil uma coisa tão triste…


O DEDO À BRAD PITT

O que tu achas: Ups, um espertinho curioso foi apanhado em flagrante! Mas alguém quer mesmo saber? Já foste fotografado tantas vezes que o teu espaço pessoal já é praticamente até à Polónia. O teu escritório é um sítio mágico para onde os melhores fotógrafos de festas vão trabalhar. Bebés de outras pessoas já foram concebidos lá. És um multiverso social e o resto das pessoas são apenas desperdícios de espaço presos na tua órbita.

O que os outros acham: Olha o Brad Pitt, mas ainda mais chunga.


A CABEÇA-ÍMAN

O que tu achas: És uma pessoa confiante e 100% confortável com manifestações de contacto humano em público. Toda a gente era capaz de levar uma bala por ti (e tu levarias uma por eles). Vocês são, tipo, unha e carne.

O que os outros acham: Alguém que não sabe como uma câmara funciona. O fotógrafo está a uns três metros de distância! Não precisam de se juntar tanto. Sei lá que vibe é essa: bebés, viajantes do tempo? Alguém que não sabe nada do mundo moderno?


O HIPSTER DESDENHOSO

O que tu achas: Estás tão lá em cima na hierarquia da cena que não consegues conter aquele sentimento “queres tirar uma foto minha?”, quando vês uma câmara. A própria festa está abaixo de ti. O mundo inteiro está abaixo de ti. A diversão está abaixo de ti.

O que os outros acham: HAHAHAHAHA! Porquê essa cara de cu? Toda a gente se está a divertir milhões (à custa de se rirem da tua “dor”).


O TRONCO AO LÉU

O que tu achas: Vocês são irmãos! Masculinos! Sem medo! Selvagens! Sensuais…

O que os outros acham: Da-da-da-da-da-da-DA-DA-DA-DA-da-da-da (transcrição fonética da “Chelsea Dagger” do The Fratellis).


MOSTRA-A-MAMA

O que tu achas: Olha ali o Andy Warhol se ele fosse uma nina parecida com a Paz de la Huerta depois de tomar ecstasy numa rave para comemorar a queda do Muro de Berlim.

O que os outros acham: Problemas emocionais em geral/complexo de Electra.


FIM DE NOITE FOREVER ALONE

O que tu achas: Sabes que mais? O Morrissey tinha razão: foda-se para o mundo, estou melhor sozinho. A genialidade só prospera no isolamento.

O que os outros acham: Já procuraste na zona de fumadores, na fila do WC e em todas as salas adjacentes, mas a miúda que ficaste a micar a noite inteira já foi embora. Restam-te um total de quatro gajas, mas estão todas cercadas por um bando de marmanjos que até em estado catatónico são mais bonitos e mais charmosos do que tu alguma vez vais ser (mesmo sóbrio). Passas a sala a pente fino para encontrar algum amigo, mas toda a gente bazou e já ninguém atende o telemóvel. “Lá vamos nós de novo, velho amigo”, sussurras para a tua pila entupida de cocaína enquanto te preparas mentalmente para as três horas de um porno horroroso que vais ter de assistir até conseguires acalmar o teu corpo para finalmente adormeceres.


TEXTO POR JAMIE LEE CURTIS


HALFWAY HOUSE


FOTOGRAFIA POR IGOR TERMENON
STYLING POR KATHERINE WHYTE
MAQUILHAGEM POR DEBBIE SLATTER


T-shirt vintage.

Blusa e saia Beaten Crimson, sapatos Underground, brinco Topshop, collants vintage.

Top vintage, calções MR BEN, sapatilhas Converse, brinco e collants Topshop.

Casaco BADLANDS777 vintage, top e calças ASOS, colar vintage.

Macacão YAYER, t-shirt American Apparel, sapatos Underground, boné Urban Outfitters, brinco Topshop, meias vintage; casaco de malha e jeans MR BEN, t-shirt Topman, sapatos Lee Cooper, meias Hi-Tek.

Casaco vintage, t-shirt Veronica Fever, sapatos Underground, meias House of Holland for Pretty Polly.

Polo Fred Perry, jeans Icon Clothing, sapatos Dr Martens, meias vintage; casaco e camisa White Pepper, t-shirt Lazy Oaf, jeans MR BENS, sapatos Lee Cooper, meias Hi-Tek.


MULAS PORTUGUESAS NUMA PENITENCIÁRIA BRASILEIRA


Portugal é o segundo país da Europa com maior número de cidadãos presos no Brasil, sendo que a muitos foram de cana por serem mulas que não conseguiram embarcar com drogas do Brasil para o estrangeiro. Quando são detidos no estado de São Paulo, estas pessoas são levadas para a Penitenciária de Itaí, a cerca de 300 quilómetros de distância da capital, que desde 2006 só abriga cidadãos estrangeiros. São 1443 distribuídos por quatro pavilhões. Mais de 84 países de origem, de Portugal à Eritreia. Mais de dois terços cumpre pena por tráfico de droga. Todos os presos são separados por convivência e não por países ou continentes, para evitar maiores problemas. Os jornalistas adoram chamar-lhe a prisão de Babel.

No final do ano passado, quando visitei o complexo, os lusitanos eram em 48. Depois de toda a burocracia, dez deles aceitaram dar entrevistas — sem benefícios para as suas penas. Era uma sexta-feira de Agosto, véspera do fim-de-semana do dia dos pais, e por isso não conheci as celas já que a reclusão acontece mais cedo. O clima era pacífico, mas o calor era quase alentejano dentro da biblioteca onde foram montadas as entrevistas. Tudo foi supervisionado por agentes penitenciários ou pelo director em pessoa. Os tugas compareceram um por um para conversar, mas nem todos aceitaram posar para fotografias, por isso aqui ficam cinco das conversas, todas gentis ainda que deprimentes. Espero que tenham recebido os cigarros que levei de agradecimento.


Luis Carlos Ferreira Gomes, 24 anos. De “perto de Sintra”. Preso em 30 de Outubro de 2010 com um quilo de cocaína escondido nas pernas.

VICE: Como e onde te pegaram?
Luis Carlos:
Na revista normal do aeroporto. Eu tinha uma fita-cola dentro da minha mochila e eles suspeitaram.

E por que resolveu transportar drogas?
Fui criado pelos meus avós e uma tia, além da minha irmã. Precisava de dinheiro, então decidi arriscar… E agora estou aqui.

Acha que foi azar ou o quê?
Acho que era para ter sido mesmo. Para mim tudo tem um sentido, está predestinado.

Mas você estava desempregado em Portugal?
Eu trabalhava com jardinagem, só que não dava. Era pouco. Me pagavam mais que insuficientemente.

Era você quem sustentava sua família?
Sim, se é que pode dizer sustentar. Mas, pronto, ao menos tinha para mim, para ajudar com alguma coisa minha irmã nos estudos. Como não pude estudar, arrisquei.

Pretendia ser o quê da vida?
O que eu gostava de ser era veterinário. Mas não tive cabeças para o estudo, nem possibilidades. Só tenho até o sexto ano. Mas penso em tirar um curso de jardinagem quando voltar.

Terminada a pena, você pode ser expulso do país…
Espero que sim.

… E talvez fique impedido de voltar ao país. Isso te chateia por algum motivo?
Não tenho intenções de voltar mais.

Vai perder os melhores carnavais que existem. E a Copa do Mundo.
Vejo na televisão. Isso se já estiver fora, que minha condenação é até 2015.


Luis Filipe Francisco Gomes, 27, Setúbal. Preso, em Abril de 2009, no aeroporto de Guarulhos quando embarcava para Portugal com 560 gramas de cocaína no fundo falso de uma mala. Condenado a sete anos e sete meses de prisão.

Por que você está na Penitenciária de Itaí?
Luis:
É a crise, né? Meu pai morreu de cancro em 2003, agora minha mãe foi diagnosticada com cancro também e não pode trabalhar. Então, decidi fazer. Ia ganhar cinco mil euros. Fui caço quando estava já na porta de embarque para entrar no avião. Veio um federal e falou “mostra o passaporte”. Mostrei, ele pediu meu bilhete de embarque. “Você é dono de uma mala castanha, marca tal?” Eu disse: “Sim, sou”. Perguntei se tinha alguma coisa errada. “Não, não. Notámos uma coisa estranha, é só rotina”. Aí acompanhei eles e pegaram na mala.

Como se envolveu com isso? Nigerianos?
Não, não tem nada a ver com nigerianos. Eu andava a procurar trabalho lá em Portugal. Encontrei-me com um amigo que estava com outro grupo de amigos e aconteceu na conversa de eu falar que estava precisando. Um brasileiro que estava lá falou: “Vamos arrumar uma coisa p’ra você”. Eu pensava que seria trabalho normal. Duas semanas depois ele me chamou, fui ter com ele e me falou: “Ah, tem isso e isso e isso, você quer? É grana fácil”.

E aí?
Assim, já há muitos anos que eu falava que queria vir para cá pro Brasil. Vinha só para fazer isso mesmo, só para deixar um dinheiro para minha mãe — não para mim, que quase nunca estou em casa. Daí caí preso. Cheguei em Janeiro e caí em Abril.

Achava que era mais tranquilo fazer isso no Brasil?
Ele falou para mim que nunca caiu ninguém aqui. Mas pode ser conversa para todo mundo igual, entendeu? Para entrar é tranquilo: como nós somos portugueses, falamos a mesma língua, não tem tanto controlo.

Você já consumiu drogas?
Não. Nem bebo, nem nada. Só comecei a fumar cigarro aqui na cadeia. E a beber café, também. Por nervosismo. Comecei lá no aeroporto, quando me pegaram. Aí foi cigarro, cigarro, cigarro… Até agora.

O que sonhava em fazer quando era pequeno?
Tenho o décimo segundo completo em Portugal e curso de técnico de eletrónica. A minha base em Portugal foi sempre estudar. Nunca deixei de estudar. Não tenho cadastro lá. Queria jogar bola, mas aí quebrei a perna e tive que abandonar. Jogava no Vitória de Setúbal, não sei se você conhece.

Já tem algum plano para quando sair?
Não sei. Só estando fora para saber. Mesmo assim é migrar, acho.

Vai ser deportado?
Não sei como funciona. Acho que quem não tem ligação direta [com o país] tem que sair e não pode voltar mais. Isso me chateia. Gosto desse país, sinceramente. Mas, se não puder voltar, não posso fazer nada para reverter a situação. Então seja o que Deus quiser.

Você se sente um criminoso?
Não. Sei que cometi um erro que é condenado pela Justiça. Mas não me sinto criminoso porque nunca tive uma relação com organizações criminosas, nunca fiz nada disso antes. Considero que cometi um erro, sim, e estou pagando por ele, mas não tem nada a ver com crime.


Pedro Gonçalves, 30, Leiria. Foi preso em 2008, no aeroporto de Guarulhos, na posse de seis quilos de cocaína em toalhas.

Como te descobriram?
Pedro:
Dizem que foi através de raio-X, mas não sei. É uma história um bocado esquisita, porque eu desconhecia aquele conteúdo. Então, quando me pegaram, eu estava na internet — estava tranquilo, pronto para ir viajar. Foi uma prisão tranquila.

Você não sabia que transportava drogas?
Não. Eram toalhas que me deram para entregar como uma encomenda. Me informaram que era outra coisa e que não tinha problemas. Disseram que era um líquido que não tinha nada a ver, para lavar notas falsas, e que se a polícia encontrasse aquilo não tinha nenhum problema para mim. A polícia também teve dificuldade em descobrir que aquilo ali tinha drogas. Não sei como é que fizeram [para colocar a droga nas toalhas]. Só sei que depois fizeram o teste e disseram que tinha cocaína.

Quem te passou isso?
Foram nigerianos. Era para pegar aqui, ir para Portugal, Zurique e terminava em Londres.

Você foi aliciado na sua cidade mesmo?
Não, actualmente estou a residir em França. Já tenho dois anos na França. Então fui lá na França e… Porque não era eu que deveria ter feito esta viagem, mas sim uma amiga. Só que como ela não tinha passaporte — ela, para pegar o visto, tinha que esperar quinze dias e perguntaram se eu poderia vir. Disse que não havia problema, que eu tinha o passaporte.

Quanto iam te pagar por isso?
É assim… Porque aquela minha amiga que ia viajar tinha o contato com eles e eles eram amigos, eu vim numa coisa para, tipo, desenrascar mesmo. Não falaram quantia nem nada. Era só mesmo vir aqui, pegar e ir embora.

E por que você levou uma coisa estranha que nem sabia de quem era?
Porque era uma encomenda. Tinham várias toalhas. Não dava para desconfiar de nada.
E se você for expulso do Brasil?
Não tem problema. Vejo muita coisa aqui na televisão, não me incomoda. Era um sonho que eu tinha desde criança, conhecer o Brasil, mas estando aqui e estando a ver a realidade que tem aí fora.

Mas você mal viu o Brasil.
Sim, nós vemos aqui na televisão, acompanhamos na televisão. Vários casos que chegam aqui e a gente escuta.

Bom, aqui chamamos de “mula” os traficantes internacionais de drogas. Só que a palavra também tem outro significado, que é “burro”. Você se sente esse tipo de mula?
[Risos] Sim, me sinto um burro porque fui enganado, certo? Assim me sinto um burro. Mas é a vida, não posso fazer nada.


Vitor Manuel Botelho de Carvalho, 45, Lisboa. Preso em Setembro de 2009, embarcando para Budapeste pelo aeroporto de Guarulhos. Carregava dois quilos de cocaína escondidos num colete por baixo da roupa.

Em que hora foi pego?
Vitor: Já tava mostrando o passaporte. E aí chegou a Polícia Federal.

E como acha que descobriram?
Sobre?

Sobre a droga.
Não sei.

Você estava nervoso?
Não, normal. Nervoso estou agora, senhor, mas pode perguntar que eu respondo.

Já tinha feito isso antes?
Não, a primeira vez. Estava cá há três semanas.

De quem era a droga e para onde ia?
Ah, não sei de onde era. Só vi a pessoa duas três vezes e já era. Ia ganhar lá pros cinco mil euros.

E tinha emprego lá em Lisboa?
Não, estava desempregado. Era pintor da construção civil. Depois me meti na heroína por onze anos. E desde que comecei a usar heroína nunca mais trabalhei. É como o crack, ainda pior. Aí recebi o convite e aceitei, tava um bocadinho com falta de “grana”, como dizem os brasileiros…

Foi sua primeira vez no Brasil? Já queria ter vindo?
Vir cá para quê, para cair? O Brasil não é tão belo quanto a gente escuta em Portugal. O que a gente escuta aqui na televisão é muita corrupção, muita… De lá só conhecia novela, só. A Globo é uma… Uma cagada. Não presta. Só novela, novela, novela,…

Se considera um criminoso?
Ah, não, não. Vim porque estava precisando de algum dinheiro. Mas também não estou arrependido de ter vindo. Deveria ter me arrependido antes de fazer, entende? Tá feito, tá feito… Nossa família era pobre, tinha que lutar o dia a dia para comer, tudo mais. Éramos sete irmãos, minha mãe vendia à praça, meu pai reformou-se aos 45 anos…

E o consulado, tem ajudado?
Nada, nada, nada. Só para o Natal, que mandam uma bolachinha, para atiçar a alma. De água e sal.

Saindo daqui pretende fazer o quê?
Eu? Só Deus sabe quando chegar à rua. De resto não sei. Quero voltar para o meu Portugal. Não troco Portugal por país nenhum. Mesmo na crise.

Do que sente mais falta de lá?
Dos meus filhos.

Eles sabiam que você se envolvia com drogas?
Não, mas minha mulher descobriu. Aconteceu quando estava me separando dela.

E como ela reagiu quando descobriu?
Ela não sabe que estou aqui, não.

Nem seus filhos?
Nada. Nem quero que eles saibam… Do bandido do pai que é.

Mas quando voltar vai falar o que ficou ausente por qual motivo?
Chegando lá invento alguma desculpa qualquer.


Hugo Ferreira, 26, Lisboa. Preso em 14 de Fevereiro de 2010 carregando um quilo de cocaína, no estômago, para a Holanda.

Você também foi pego em Guarulhos?
Hugo:
Não. Fui pego ainda no hotel, na Santa Cecília, às três da tarde do dia em que ia embarcar. Acho que fui chibado.

Isso quer dizer dedurado?
É. Estava aqui havia dez dias. Tão pouco tempo, por isso acho que fui dedurado. Depois me disseram que esse hotel trabalha com a polícia. Há mais pessoas que estão aqui que foram presas nesse hotel. E a polícia depois contou-me que esperaram que eu saísse do hotel, fosse a uma estação de metro buscar a droga, engolisse a droga para só depois me pegarem, se não davam-me só com o artigo 12 e ficava um ano ou dois preso. Disseram isso na minha cara, então já sabiam.

Ia entregar a droga pra quem? Trabalhava para quem?
Trabalhava para mim mesmo, ia levar para Holanda. Vim de Amsterdão, aí ia voltar para lá. Era uma viagem curta que acabou por ser uma viagem longa.

Desconfia de alguém que possa ter te dedurado?
Tenho as minhas suposições. Mas não posso fazer nada ainda, que estou preso. Mas quando sair é outra história.

Pretende fazer o quê?
Fazer o quê? Vou cobrar quem eu tenho que cobrar, né? É assim.

E como conseguiu as drogas?
Foi aqui em São Paulo mesmo. Há muita droga aqui em São Paulo, né? Havendo muita droga é fácil arrumar pessoas para poderes fazer negócio.

Quanto dinheiro ia ganhar?
Ia ganhar cinco mil e tal euros. Não é muito, mas dá para ajudar em qualquer coisa. Mais do que trabalhar como cozinheiro e receber 500 euros por mês. Chegava ao dia 20 e já não tinha mais dinheiro, só na renda ia metade. Cheguei a um ponto que já não dava para conseguir viver assim. E arrisquei.

Já tinha traficado drogas antes?
Não vou responder esta pergunta, né?

O que fazia em Portugal?
Sempre quis trabalhar com cozinha. Trabalho desde os meus 16 anos em bons hotéis. Já morei em outros países também. Em Espanha, França,… Falo quatro idiomas. Em França trabalhei em Cote D’Azur. São mil quilómetros de diferença, mas em França tirava dois mil euros por mês. Em Portugal, no mesmo tipo de hotel, tirava 400 ou 500. O nível de vida é mais caro, mas recebes mais dinheiro. Em Portugal o nível de vida é caro e recebes menos. O Estado português acho que se compara um bocado ao brasileiro nesse aspecto, né? Que é tudo para eles, o povo que se dane.

Como está sendo a estadia?
Estou a 15 mil quilómetros da minha casa, não tenho contacto com a minha família… As cartas que mandam, muitas não chegam. Já estou há quase nove meses sem receber resposta do meu pai. Não sei se ele está bem. Ele tem quase 80 anos e não sei se está vivo ou se está morto. A minha mãe tem estado muito mal de diabates, meu pai teve um AVC há coisa de… A última carta que me mandou falou que tinha tido um AVC, mas que estava bem. E eles moram juntos, isso é o que acho estranho. De três em três meses mandavam-me uma carta e de um dia pro outro deixaram de ter contacto. O consulado também não nos ajuda, a única coisa que fazem é mandar um Sedex na época do Natal com uma toalha, três pacotes de bolacha e dois ou três sabonetes. Do meu advogado, nem sei o nome. É da Defensoria Pública [Ministério Público] e só o vi uma vez. Mas, pronto, há coisas que a mim me transcendem. Acho que não cabe a mim julgar, mas também acho que há coisas que podiam estar melhores, né?

Tem namorada lá em Portugal?
Tenho. Quer dizer, agora devo ter é um grande par de chifres, né? Já estava com ela há quatro anos. Tanto que quando vim cá ela disse: “Não vás que vais ser preso. Não precisas disso”. Parece que as mulheres têm um sexto sentido.

Então ela sabia de tudo?
Acho que numa relação entre duas pessoas tem que se haver reciprocidade. Seria um bocado cruel mentir a dizer que ia de férias. Mas, pronto, ela tá a fazer a vida dela e eu estou a fazer a minha aqui. Vamos ver quando sair.

Acha que pode voltar a mexer com drogas saindo daqui?
Nunca digo nunca porque a vida às vezes prega-nos partidas. Há pessoas que estão presas aqui porque tinham dívidas com outras pessoas e acabaram por ser encostadas à parede. Também nunca pensei em levar drogas para a Europa. Eu próprio criticava as pessoas que faziam isso, mas acabei por embarcar neste barco.

É a favor da legalização das drogas?
Só drogas leves. Porque se existe muita criminalidade, a criminalidade ia subir mais. De haxixe e maconha, mas não as duras. Acho que se legalizarem as drogas isso vai virar um escambau. Não consumia drogas duras.

Não consumia, mas traficava.
Dinheiro. Muita gente fala que dinheiro não é tudo. Dinheiro é tudo, sim. O senhor sem dinheiro não é nada. Acho sim que o dinheiro fala mais alto. Mesmo porque a gente compra aqui a droga a cinco mil dólares e vende lá a 30 mil euros. Acaba por compensar o risco. Quando a pessoa vem, não vem naquela “ah, vou ser preso”. Vem numa de “vou conseguir”, as fazer o quê. Não adianta chorar sobre o leite derramado.

A palavra “mula” aqui no Brasil pode significar um correio de drogas ou alguém muito burro. Você se sente burro?
Se me sinto burro? Acho que burro é não ter mandado cá alguém por mim. Não vou estar a dizer aí que me arrependi, porque isto é só fachada. Devia ter ficado e arranjado alguém para vir cá ou para ir a outro sítio qualquer. Podia ter feito como quase toda a gente faz, que é agarrar um Zé Manel, dar-lhe 500 euros e “vai, arranca tu”. Mas pretendo nunca mais voltar ao Brasil. Nada contra o país, mas acho que vai me trazer muitas lembranças ruins. Quando sair daqui não vou recomendar para ninguém. Se me perguntarem, digo que o Brasil é chave de cadeia.

Entendi. E do Felipão, quando foi técnico da selecção portuguesa. O que achou?
Fiquei zangado com ele porque a gente perdeu para Grécia o Euro 2004, em Portugal. Mas acho que ele é bom técnico. Só não sei o que essa pergunta tem a ver.

É só para…
Para desanuviar, ok.


ENTREVISTA POR BRUNO B. SORAGGI
FOTOGRAFIA POR MATHEUS CHIARATTI


MÚSICA: JACK WILSON

Jack Wilson
Fluff and Gravy
Classificação: 3/10

A minha resposta a este álbum seria “se adoras assim tanto o Townes Van Zandt, casa-te com ele”, mas EU adoro o Townes Van Zandt e EU quero casar com ele. Mas não posso, claro, o gajo já morreu. Obrigadinho por me lembrares disso, Jack, com este teu álbum cheio de tentativas ridículas de fazer boas canções de outlaw country. Parabéns pela cara laroca, otário.

PAUL MCGINTY


WALLIFORNIA GIRLS


FOTOGRAFIA POR LARA GASPAROTTO
STYLING POR ALBANE PARRET


Casaco e brincos vintage.

T-shirt Grisl From Omsk, roupa interior Björn Borg, camisa H&M.

T-shirt Converse, casaco Levi’s, leggings Pepe Jeans, botas Dr Martens.

Top Humanoid, roupa interior Björn Borg; fato de banho Urban Outfitters; sutiã Urban Outfitters.

Sutiã Urban Outfitters, joalharia vintage, roupa interior Björn Borg.

Casaco H&M, saia Urban Outfitters, top COS, saia Filles à papa.

Casaco H&M, calças DrDenim, roupa interior Björn Borg.

Vestido Filles à papa.


SLUTEVER: POLIGAMIA, OK OU KO?



A Karley, a nossa especialista sexual residente, examina a complicada logística do amor plural. E quem melhor para entrevistar sobre poligamia do que o Crunc Tesla, um homem charmoso com mais de 250 esposas honorárias? Isso é que é ser um rapper!, já para não falar de um verdadeiro engenheiro social, que talento. Enfim, é um assunto complicado. Os defensores da poligamia parecem felizes, mas a sociedade só vê indecência e trocas de fluídos ao cubo. O que fazer, como pensar? O sexo é tãaaaaaaao complicado!


VICE TV


VEJAM AQUI O NOVO VÍDEO DOS OFF!




Sabem os OFF!, aquela banda com o Keith Morris (ex-Black Flag) que está na VICE Records? Têm um vídeo novo para uma música chamada “Wiped Out”, saída directamente do álbum homónimo da banda. Mas não é um vídeo qualquer, é um vídeo realizado pelo Richard Kern. Mas sem mamas ao léu, infelizmente. Ainda assim, é skate culture da costa Oeste no seu melhor.


NOISEY


MÚSICA: SOURPATCH

Stagger & Fade
HHBTM
Classificação: 7/10

Acabei de ir levar o lixo à rua e está feio e frio lá fora, mas, aqui há duas semanas, nos dias em que passei a ouvir este álbum, estava um tempo bonito. Ia de bicicleta até ao supermercado comprar vinho e ligava à minha miúda para saber onde é que ela estava. E lá íamos nós, para cima e para baixo. Depois dizia-lhe que gosto dela para sempre e que não há outra como ela.

NEST ROAST


NÃO HÁ NINGUÉM COMO A NOSSA AVÓ


FOTOGRAFIA POR ELLIS SCOTT
STYLING LULU WENTWORTH
MAQUILHAGEM POR ASA ENTIN
CABELOS POR KIKI
ASSISTÊNCIA POR GRACE GODDARD


Vestido Fred Perry, óculos e mala PRISM.

Casaco de malha Franklin & Marshall, óculos PRISM.

Casaco Barbour, óculos Prism, anéis Freedom, cuecas vintage, meias FALKE.

Vestido Paul Smith, collants FALKE, sapatos Pointer.

Vestido I Dream Of Wires, casaco de malha Original Penguin, óculos PRISM, anéis Impulse, sapatos Pointer; casaco da malha Chronicles of Never, óculos PRISM, pulseiras e anéis Impulse, meias vintage.

Sweater Ksubi, saia Fred Perry, óculos PRISM, meias FALKE, sapatos Pointer; top Original Penguin, saia American Apparel, lenço Barbour, meias Wolford, sapatos Rokit.

Chapéu I Dream Of Wires.

Anéis e pulseira Freedom, cuecas American Apparel, meias FALKE.


A SEGUNDA PARTE DO KONY 2012 ATRASOU-SE PORQUE A INVISIBLE CHILDREN ANDOU A BRINCAR AOS ESPIÕES



É idiota tentar analisar o Kony 2012 Part II: Beyond Famous como um filme? Isto conta sequer como uma obra cinematográfica ou analisar isto pertence ao mesmo campeonato da propaganda ou dos relatórios de guerra?

Na semana passada estava à espera do lançamento do Beyond Famous. A Invisible Children tinha prometido que o vídeo saíria em breve e a internet aguardava ansiosamente. Pessoas como eu, que têm blogues para manter e que viram as visitas multiplicadas da última vez que eles lançaram um vídeo, também esperavam ansiosamente, claro, mas parece que os milhões de pessoas que assistiram ao primeiro Kony já superaram o assunto. Neste momento, os trending topics mundiais do Twitter — que eram a causa e o efeito do sucesso do Kony 2012 — estão a ser monopolizados por outras coisas (#worsttimestogetaboner ou #i’msinglebecause) que, aliás, sugerem que a internet não anda com o melhor humor de sempre.

Então o que se pode esperar do Kony 2012 Part II: Beyond Famous? Bem, é um momento difícil para a Invisible Children. Por um lado, grande parte do planeta olha para eles como evangelistas autómatos e homofóbicos cuja loucura fica evidente no estilo manipulador e piegas do vídeo original, Kony 2012. Por outro, o estilo manipulador e piegas do Kony 2012 foi o que fez dele um sucesso: é um filme claramente feito por pessoas que acham o Forrest Gump um tudo nada elitista. E agora a IC ficou com um dilema: abandonar o populismo bizarro ou continuar sua transformação em ícones da cultura pop?

Acreditava que eles iam tentar ficar fora do filme o máximo possível numa de “tudo bem que nos odeiem, só não deixem que isso afecte as doações para uma boa causa” — é um ponto válido. Claro que os mais críticos podem responder #se querias fazer um filme para as pessoas falarem do Uganda, por que é que acabaste a fazer um filme sobre ti e sobre o teu filho, seu maluco?”.




Entretanto, lá saiu a sequela, mas bem atrasada. E por que é que a Invisible Children não conseguiu lançar o filme a tempo? Porque — agarrem-se às vossas cadeiras — estavam demasiado ocupados a espiar. É o que a Wikileaks diz. Já sabíamos que o Jason Russel e os seus amigos emo-cristãos esquisitos andavam ocupados a ajudar os objectivos do exército ugandês (resumindo: “ei, America, por favor dêem-nos umas super-armas para nós podermos derreter os nossos inimigos com uma catarata de balas ardentes!), mas aparentemente não ficaram por aí.

De acordo com o Black Star News, os gajos da Wikileaks descobriram provas de que algumas crianças-soldado utilizadas pela Invisible Children deram pistas às forças de segurança do Uganda, que por sua vez deram origem ao aprisionamento de inimigos do regime.

A malta da caridade faz este género de coisa? Não me parece muito correcto, mas se calhar é apenas a minha ingenuidade galopante a falar. Talvez as ONGs modernas sejam basicamente como a CIA nos anos 60, voando pelo mundo fora para armar e ajudar um grupo de otários a eliminar outro grupo de otários. Bem, é difícil imaginar que as coisas possam ficar mais negras em termos de RP para a Invisible Children. São vistos como um culto neo-colonial, cripto-evangelista de agents provocateurs liderados por um flasher satânico.

Ei, e chegaram a ver o Kony 2012: Part Two? Aquilo foi publicitado como a resposta aos críticos que defendiam que a Invisible Children não sabia do que estava a falar, mas mais parece aquele episódio do The Office em que o David Brent finge que sabe muito sobre Dostoievski, quando na verdade só fez uma busca rápida no Google para repetir o que leu de forma pomposa.


TEXTO POR ALEX MILLER