A FINAL DA POESIA VIOLENTA FOI SANGRENTA



Vou escrever sobre a Poesia Violenta, por isso o artigo é a rimar, vamos ver quem aguenta.

Foi em pleno ringue de boxe, para o espírito de batalha incentivar, que, no sábado, a final da 3.ª edição teve lugar. Ao contrário das batalhas normais, não eram os golpes de força mas as capacidades verbais que levavam as equipas às finais. Na Arena de Matosinhos eram doze as duplas que com rimas múltiplas tentaram chegar ao primeiro lugar e ganhar os 200 euros que a Project Store tinha para dar — mas já lá vamos. Antes é preciso explicar como é que isto começou e como é que esta edição chegou.


Foi há um ano que o Rey, numa conversa de café, se questionava se a cena do rap do Porto estava em pé. Havia cada vez mais concertos de artistas internacionais na cidade e os CDs que se lançavam tinham cada vez mais qualidade. Ainda assim, o Rey não estava satisfeito porque no Porto o improviso — “o rap na sua forma pura”, segundo ele — ainda estava meio morto. “O rap hoje em dia é muito mais liricista e tu como MC ganhas muito respeito através da tua inteligência, da maneira como escreves, das tuas métricas, do teu flow, mas nunca se deve descurar esta fase inicial que é o improviso”, conclui. Assim, e para incentivar esse movimento, falou com a marca RINGDINGDONG e a produtora 2º Piso e criaram a Poesia Violenta. “Num mundo em que as pessoas vivem muito afastadas virtualmente, queremos que o pessoal venha de volta para a rua, aí é que se vê verdadeiramente quem é que cada um é. Em casa podes ser quem tu quiseres, mas aqui fora não. Aqui toda a gente te tira a máscara.”


O parto foi o mais complexo, depois o boca em boca fez o resto: no espaço de um ano já vende camisolas e conta com três edições. Na última, a de sábado passado, havia doze pares escolhidos pelos likes do Facebook, sem contar com a dupla que se borrou e acabou por não aparecer, forçando o Rey a chamar substitutos como deve ser. Cada participante tinha rondas de um minuto para mostrar o que valia e um júri de peso para avaliar a poesia: o Auge, o D-One e o Ace.

Cuspiram-se rimas sobre quem comeu a mãe de quem, insultos às caras feias, referências a roupa datada e a piada que toda a gente esperava: “ainda levas um tiro como o NTS”. A noite acabou por se prolongar e só uma hora depois do previsto é que a Arena conseguiu fechar. A culpa foi do combate muito renhido e da necessidade de desempate, para não falar da birrinha do Keso, o convidado que acabou por chantagear o público: só actuava se o pessoal fosse mesmo para a beirinha do ringue — o que não aconteceu causando a seguinte comparação indecifrável com um concerto que não o seu: “como o Tony Carreira nos anos 70 no Texas”.


O público só animou quando, perto das três da manhã, um grito de guerra foi lançado: “põe a sopa na mortalha, traz skill p’ra batalha!”. Era a chamada para o último round que foi então disputado: não sem muita guerra, o par P1 (que, se não me falha a memória, já tinha uma vitória) e Bulli 2B deixaram o inimigo por terra.


Quanto à Poesia, o Rey confessou que o resultado foi cumprido e a cena do improviso já melhorou. “Isto já alcançou muita gente e as pessoas gostam do conceito e querem vir e participar, seja para terem os seus cinco minutos de fama, seja porque realmente sentem e gostam do que estão a fazer.” Enfim, diz o ditado assim: era doce, mas acabou-se. Se a Poesia perdura, pode ser que faça cobertura. Quem sabe, não esquece: aparece.


TEXTO E FOTOGRAFIA POR REBECA BONJOUR





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