A capa do último álbum de B Fachada (2011, distribuição Mbari)
Se a música nacional tivesse o seu próprio código de estrada, B Fachada estaria enterrado até ao pescoço com multas por pagar. Ninguém o pára. Assim tem sido nos últimos três anos, desde que o escritor de canções chamou para si a pressão dos “dois discos por ano”, com um verso bem metido no balanço de “Zappa Português”. Foi desse modo que B Fachada determinou o seu ritmo criativo, mesmo antes que o público ou uma label se lembrassem de impor o que fosse. Como se sabe, é ele que se auto-constrói e não os outros por ele.
Mas lançar um disco por cada Verão e Inverno, alternando entre conceitos e manifestos bem distintos (da música infantil à política), parece muito mais um acumular de transgressões do que uma forma segura de gerir a carreira. Embora nenhuma mudança tenha sido violenta ao ponto de o deixar irreconhecível, B Fachada renovou-se a cada seis meses e foi assim que cavou o contraste face a quem, neste país, não mexe uma palha (estética) em seis anos. Não admira, portanto, que cada novo disco venha acompanhado por testemunhos que o colocam num patamar à parte do seu tempo. B Fachada merece caminhar sozinho pelo seu atalho porque foi ele que o calcetou com a sua criatividade, timing e muito trabalho (“dois discos por ano”, meu deus).
“Sozinho no róque”, o tema que abre o mais recente homónimo, confirma esse mesmo isolamento artístico, ao mesmo tempo que sugere uma série de possibilidades que podem ser mito ou realidade no universo B Fachada. “Sozinho no róque” embala-nos num ritmo meigo, que parece querer arrastar-nos para um sonho, e fica novamente instalado o álibi fachadense: “todos os dados biográficos aqui revelados podem deixar de ser certezas, assim que o presente disco acordar e der lugar ao próximo”. B Fachada sabe bem como gerir essas verdades temporárias e utilizá-las em benefício da sua narrativa. Os aficionados, que adoram decifrar o enigma escrito na fronteira entre o personagem e a pessoa, têm muito com que se entreter neste disco (o mais rico e complexo a nível lírico). O pessoal do ódio mal resolvido terá de ir bater a outra porta, porque o assunto desta vez é família (a última palavra no título do disco anterior), e só um hooligan sem coração gosta de perturbar um homem dedicado aos seus.
E é realmente isso: o disco-rosa encontra B Fachada muito mais interessado em descobrir o seu papel como pai em casa do que em cantar bem alto sobre o seu lugar nessa enorme família disfuncional que é Lisboa (para isso já tivemos “Lá na selva” e todo o desfile triunfal de Há Festa na Moradia). O zoom familiar acontece finalmente, num momento decisivo da saga, e foca a careca do futuro pai, enquanto este reflecte sobre uma série de aspectos a afinar na vida. Sensível a isso, B Fachada é certamente o disco que mais transparece a vontade de arrumar os males que ficaram para trás (“aquele verso horrível sobre a atmosfera”) e fazer melhor a partir daqui. Entretanto, a preparação para ser pai vai acontecendo pela voz do tio professor que, ao longo de “Está na hora da passa”, convoca as palmas dos miúdos da Cafetra e aproveita para lhes deixar uns quantos incentivos e conselhos de quem sabe.
Percebe-se que a tensão do Fachada conquistador deu lugar à moderação de um gajo que está evidentemente enternecido. O jogo deixou então de ser o confronto entre pessoas (egos lisboetas tantas vezes) e passou a ser a luta de B Fachada contra a sua própria falta de inspiração. Por enquanto, a vitória do primeiro fica assegurada em dois fabulosos rounds deste homónimo: o já mencionado “Está na hora da passa” e “Os 2 no polibã”, temas cheios de vitalidade e respectivamente comparáveis ao melhor que Randy Newman e Arthur Russell fizeram pela instituição-canção. A restante vitória de B Fachada (2011) incide na classe que demonstra enquanto processa mais uma renovação do seu autor. Ele que parece aproveitar alguns versos de “Roupa de Estrada” — “Nunca um tema foi eterno / tudo volta a ser moderno” — para dizer adeus à tradição portuguesa e abraçar de novo os recursos da canção anglo-saxónica (como acontecia nos primeiros curtos da Merzbau). E este, sim, parece ser o grande disco de manifesto assinado por B Fachada.
TEXTO POR MIGUEL ARSÉNIO




