
Ninguém curte muito soundchecks. Apanhar seca à espera que comece o concerto enquanto um gajo ou dois dão uns acordes e afinam as guitarras? Só tem mesmo piada para quem está a fazer o soundcheck e, mesmo assim, está longe de ser a cena mais interessante do mundo — mas tem que se começar por algum lado (alguns de nós começaram a entregar piza).
Agora que temos a vossa atenção (e ódio): não é desses soundchecks que estamos a falar. Soundcheck 1.0 é a exposição dos trabalhos dos alunos do 1.º ano da Licenciatura em Design Sonoro — pausa, respira — do Instituto Superior Autónomo de Estudos Politécnicos (IPA). Aproveitámos para falar com os nossos amigos do IPA — quem deu à língua foi o Emídio Buchinho, professor de Técnicas de Estúdio de Som, e um dos três mentores do projecto — sobre a exposição, a ver se no futuro nos mandam uns estagiários para explorar.
VICE: Olá Emídio. Então, o que é este Soundcheck 1.0?
Emídio Buchinho: É uma exposição dos trabalhos desenvolvidos pelos alunos do 1.º ano da Licenciatura em Design Sonoro, que abriu este ano. É a primeira no país. A exposição compreende trabalhos de instalação de arte, instalação pública, dois projectos de rádio, por exemplo e um manequim com difusores de som. Existem também trabalhos como sonorizações de excertos de filmes. Isto foi feito no âmbito da cadeira de projecto de Design Sonoro.
Hoje em dia é tudo 2.0. Porque é que escolheram fazer isto em 1.0?
O nome Soundcheck tem a ver com a experimetação, com o ensaio. E isto no fundo não são trabalhos muito definidos, são quase experiências, formas diferentes de preparar o som. O 1.0 pode ter significados diferentes, porque é a primeira mostra, porque é a primeira Licenciatura de Design Sonoro, porque é a primeira vez que estamos a fazer isto, no fundo.
Podemos contar com mais edições?
Sim, existe a intenção de fazer outros Soundchecks e outras exposições do género. Alguns destes trabalhos vão estar também, em Março, no Futuralia, em Lisboa. Também queremos fazer outras exposições com trabalhos de outras áreas como Multimédia Interactiva. Temos uma fornada dessa área que está a acabar o curso este ano e já estão interessados mostrar o que andaram a fazer.
É curioso, muitas das músicas que ouço são faixas de bandas sonoras. Não são tão constritas como uma música normal (na maioria dos casos, claro), ou pelos menos não têm que ser. É isto que se pode esperar ouvir no Soundcheck 1.0?
Sim, trata-se de criação de arte sonora, de objectos sonoros para vários tipos de usufruto. Ambientes musicais sejam filmes, ou esculturas sonoras. Temos, por exemplo, um aluno que pensou em criar uma rádio não só para inserir coisas mais comuns, mas também o trabalho dos seus colegas que são mais abstractos ou experimentais. Outros fazem criação sonora para sequências de filmes, como por exemplo o Chungking Express. Isto partiu do desafio que lançámos de criar para esses filmes um objecto sonoro ou banda sonora. Obviamente não há fins comerciais, isto vai servir apenas para fins pedagógicos e utilização interna. Outro aluno criou uma banda sonora chamada “Cozinha com Rádio” só com sons captados numa cozinha — editou, gravou e compôs. Outro trabalho é uma série de fotos de um mercado com fotos e banda sonora original, é bastante interactivo na medida em que permite seleccionar pistas e ouvir os diferentes sons que fazem a banda sonora.
Como é que vai funcionar a exposição?
Existem quatro computadores, quatro pontos de escuta. Os trabalhos estão a correr em loop. Qualquer pessoa quando chega a cada computador pode escolher o que quer ouvir e um dos trabalhos, como disse, está em multi-pistas, para o utilizador interagir com esse trabalho.
Se eu fosse professor de Design Sonoro tocava John Carpenter em todas as aulas. É preciso educar as mentes jovens. Achas que se pode encontrar algum talento escondido com o Soundcheck?
Há trabalhos de alunos que são brilhantes. Sei que sou suspeito, mas estou a ser sincero. E são trabalhos feitos com ferramentas bastante básicas. Eles conseguiram tirar muito bom partido do que tiveram disponível. Esta é uma exposição modesta. O trabalho que lá está tem bastante qualidade. Espero que existam mais oportunidades para mostrar aquilo que estes alunos sabem fazer.
Isto vai acontecer num novo espaço chamado Test Space (testar o espaço, que desafio!). Queres dizer alguma coisa sobre este novo espaço? (novo espaço, uaaaau!)
A ideia para o espaço não é a da exposição convencional, trata-se de uma área na escola onde se pretende mostrar os trabalhos que são feitos na escola e que está virada para a rua. A ideia é que o transeunte possa entrar, ver e ouvir o que se faz na escola. É como se fosse uma montra dos nossos trabalhos. E acima de tudo é um espaço de experimentação, de teste como diz o nome.
A exposição está patente de 2ª a 6ª, das 14h00 às 18h00 (aos sábados das 18h00 às 22h00), entre 27 de Fevereiro e 14 de Março, na Rua da Boavista, 67 D, Lisboa.
POR EQUIPA VICE