FOTOGRAFANDO OS BETINHOS NOVOS RICOS DA RÚSSIA



Olhem para este pequerrucho. Chama-se Vladim e os seus pais são ricos p’ra caraças. Quando a fotógrafa Anna Skladmann foi até sua casa, ele perguntou quantas fotos é que Anna lhe ia tirar. “Menos de 10”, respondeu a fotógrafa, tirando dez rolos da mochila e preparando o material. Após o décimo clique, Vladim levantou-se cheio de confiança e foi para o quarto. Vestiu o pijama, sentou-se à frente da televisão e ordenou que lhe trouxessem chá. O Vladim tinha cinco anos nessa altura. Não sei que idade terá agora, mas imagino que ainda lhe seja muito fácil ordenar a alguém que te mate.

A Anna tem muitas estórias destas para contar sobre a temporada que passou em Moscovo a fotografar as crianças que daqui a uns anos irão tornar a economia britânica refém do seu controlo das fontes de petróleo no Ártico. Acho que foi por isso que a Anna decicidiu tornar este projecto, chamado Little Adults em livro. Liguei-lhe para falarmos sobre isso.

VICE: Olá Anna, que estás a fazer?
Anna Skladmann: Neste momento estou de férias no Bali. É bonito e está calor — uma boa alternativa a Moscovo, que é um gelo.

Li que nasceste em Bremen. Como é que acabaste em Moscovo?
Os meus pais são emigrantes russos que viveram 30 anos na Alemanha. Quando era mais nova passei muito tempo com a minha avó que trabalhou no Teatro Bolshoi antes de emigrar, por isso tive a sorte de ter uma óptima educação musical. A minha avó falava-me sobre música, das peças, do ballet… E eu construí uma visão colorida e nostálgica da Rússia na minha cabeça, mas, quando visitei Moscovo pela primeira vez, numas férias em 2000, era tudo muito diferente do que tinha imaginado.

Como assim?
Achei tudo muito cinzento, as cores que imaginava não se encontravam. Não se passa nada, é tudo só carros e mau tempo. Só quando entras na casa de alguém é que encontras luz e calor. Quando, depois do curso, me mudei para a Rússia estava muito curiosa sobre a forma como as pessoas viviam. E levei sempre a câmara comigo.



Foi assim que começou este projecto?
Talvez tenha começado um pouco antes. Na minha primeira visita a Moscovo, tinha eu aí uns 14 anos, os meus pais levaram-me a um baile de máscaras. Foi a primeira vez que tive contacto com crianças russas e chocaram-me as diferenças enormes que existiam entre elas e as crianças do resto da Europa. Não se vestiam como miudos que vão ao circo, mas sim como um adulto. E comportavam-se como um adulto também. Sentavam-se numa mesa e comportavam-se de uma forma muito fina. Eu era muito pequena, mas aquilo marcou-me. Acho que foi a primeira vez que comecei pensar em fenómenos sociais, a contextualizar as coisas num plano social.

Foste viver para a Rússia para trabalhar nessa primeira impressão de choque?
Nem por isso, mas já tinha trabalhado com a Annie Leibovitz em Nova Iorque e depois disso achei que era altura de trabalhar nos meus próprios projectos. Então, em 2008, fui para Moscovo. Como nunca tinha vivido lá antes, não tinha amigos, por isso passei imenso tempo com a minha mãe. Houve um dia em que uma amiga de infância dela, casada com um homem muito rico, nos convidou para tomar um chá. E foi aí que conheci a Nastia, a menina de oito anos que se tornou a minha musa para este projecto.

Nastia.

Oh, e fotografaste a cena toda?
Sim, comecei logo a tirar fotos. E acho que ela gostou tanto como eu. Foi praticamente uma conversa, porque a Nastia adorava ser o centro das atenções e sabia que eu precisava dela. Eu estava a passar por uma fase em que não sabia muito bem o que fazer e aquela menina alegrou-me. Ligou-me no dia seguinte para me dizer que tinha uma ideia nova para uma sessão fotográfica, por isso voltei a casa dela e a Nastia já sabia exactamente como queria ser fotografada.

Quando é que te apercebeste que isto se poderia tornar numa série?
Voltei para Nova Iorque por uns tempos e comecei a imprimir o meu portefólio e vi que aquilo tinha algum potencial. Há toda uma geração de crianças que nasceram neste ambiente.

O irmão mais novo da Nastia.

Como é esse ambiente?
Estamos a falar de uma sociedade ainda em evolução, a beber influências de várias fontes. Não está completamente ocidentalizada porque têm uma história muito rica, mas acho que ainda vai levar muito tempo até que encontre a sua identidade. Para eles tudo é novidade, por isso estão sempre admirados com qualquer coisa. Por exemplo, enquanto fotografava as crianças percebi que a maioria delas lia revistas como a Tatler e a Vogue. Apercebia-me disso pelas suas poses, pela escolha de guarda-roupa e pelas razões que tinham para posar.


Arina.

Há muitas fotos com poses um pouco provocantes. Como é que os pais reagiram a este comportamento? Encorajavam-no?
Bem, é certo que pelo menos não o censuravam. Até podiam não encorajar, mas não se importavam. Se tu visses um guarda-roupa de uma destas crianças… Estão cheios de vestidos, sapatos e maquilhagem. Uma vez pedi para fotografar duas irmãs com as jóias da mãe. Também tinham uma irmã bébé que implorei à mãe para não trazer por causa das luzes fortes com que estava a trabalhar e, quando cheguei para a sessão, não só tinham trazido a bebé como ainda lhe tinham posto um colar pesado na cabeça!

Como explicas essa necessidade de excesso?
Acho que se deve aos pais terem nascido na miséria. Não tiveram uma infância decente. Querem propocionar aos filhos tudo aquilo que não tiveram em crianças, mas ficam um pouco baralhados pelo caminho.

Acho que isso se chama de ciclo vicioso.
É o que acontece quando não existem tradições para guiar uma nação. Não se sabem controlar. Têm que recriar o seu entendimento de si próprios antes de conseguirem um estilo de vida estável. Lembro-me que, na altura em que estudava num externato inglês, acontecia o contrário. Os míudos mais ricos estavam sempre sem dinheiro e só andavam de comboio ou de autocarro. Em Moscovo, os mesmo miúdos teriam um exército de empregados para os acompanhar para todo o lado. Chofer, amas. Até mesmo guarda-costas.

Alisia.

E os pais dessas crianças fazem o quê profissionalmente?
Não fotografei oligarcas, só a nova classe alta russa. Muitos trabalham com matérias-primas que conquistaram com as privatizações dos anos 90. Muitos vinham da indústria da moda, da restauração, do cinema, do imobiliário, da política. Alguns eram parte da intelligentsia, mas não confundas isso com velhos-ricos. Não havia dinheiro há 20 anos.

Não me parece muito fácil ter acesso à vida destas pessoas. É meio incrível que elas te tenham dado permissão para tirar fotografias aos seus filhos.
Levei várias rejeições, claro, mas acho que consegui penetrar naquele mundo com a minha câmara porque era muito jovem, por isso não representava uma ameaça para eles. Acho que aquelas famílias não me levavam muito a sério como fotógrafa. Para eles, eu era mais como uma filha mais velha ou uma amiga da família.


ENTREVISTA POR ELEKTRA KOTSONI
FOTOGRAFIA POR ANNA SKLADMANN





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