
Sacar música em 1999 era como conduzir um Fiat Uno por um caminho de cabras na esperança de que a viagem levasse a alguma coisa. Lembro-me de tentar sacar o Spiderland, dos Slint, no Audio Galaxy e era um verdadeiro acto de fé acreditar que aquelas músicas chegariam inteiras. O Audio Galaxy baralhava os downloads e, muito lentamente, transferia um bocadinho deste e outro daquele. Quando vi “Good Morning Captain” chegar aos cem por cento, nem queria acreditar que o Brian McMahan estava a berrar “Awww, I miss you!” naquelas colunas Blaupunkt. A mesma batalha não acontece agora, nestes tempos do “olha, saca aí a discografia do Neil Young, porque ouvi falar dele”. O Fiat Uno passou a ser um Land Rover e o caminho de cabras é agora uma auto-estrada.
Mas, quando o conhecimento não é bem aplicado, a circulação de tanta informação pode também levar à desgraça. O que surpreende nos discos da Cafetra, desde o primeiro EP de Pega-Monstro, é reparar como estes miúdos de Lisboa sabem agitar as águas do indie rock e da bastarda lo-fi, sem grandes tiques de “chico espertice”. Tudo parece muito genuíno e nada pretensioso, tal como era possível constatar no primeiro sampler distribuído em CD-R caseirinho pela label. A Cafetra aparenta até ter orgulho no seu próprio desleixo. E este desleixo militante acontece de um modo que, mesmo sendo diferente das posturas de loser e “zero” da década de 90, continua a provar que é muito melhor ser um slacker divertido do que um careta cheio de dinheiro.
Fazendo jus à ética da Cafetra, os Passos em Volta, quinteto que reúne muita da pujança típica da casa, têm no seu primeiro álbum, Até Morrer, um disco repleto dessa despreocupação que apetece mesmo ter na vida. Embora, de início, pareça um pouco disperso, como se fosse um quarto desarrumado e sujo, Até Morrer vai criando aos poucos uma vontade enorme de morar nesta casa e tocar air guitar ao som destas canções. Diante de tantas qualidades, o mais fácil seria paternalizar e comparar os Passos em Volta a um monte de bandas influentes (desde os Fall aos Sebadoh), mas é preciso fazer o liceu em Portugal para chegar a temas como “Petesar” ou “Santos Pop” (duas belas provocações). Os Sebadoh mandaram para o caralho quem lhes apeteceu (J. Mascis e mil miúdas caprichosas). Agora é a vez dos Passos em Volta fazerem o mesmo se assim quiserem.
Além do mais, a versatilidade dos dois principais vocalistas, o Éme e a Maria Reis (de Pega-Monstro), será sempre propícia a que os Passos em Volta percorram o rock como bem entenderem. Ele alterna entre o manhoso-suave e os berros muito sofridos (lembra às vezes Day of the Dead), ela tem a melhor voz twee nacional desde Mariana Ricardo (a ex-Pinhead Society que continua a fazer óptima música). Ambos sabem certamente montar uma melodia num disco que as tem às toneladas e ao lado de uns quantos riffs bastante memoráveis. Não sobram dúvidas de que estão aqui uns quantos miúdos que sacaram muitos discos de referência e a uma velocidade muito superior à do dial up do meu pai. A certa altura de “De Repente”, entre os muitos berros e guitarradas, ouve-se uma voz a dizer baixinho “Shazam” — a palavra mágica que, numa BD da DC Comics, servia para que o miúdo se transformasse em super-herói. Até Morrer é um “Shazam” lindo de se escutar na emancipação de uma banda que só pode voar a partir daqui.
TEXTO POR MIGUEL ARSÉNIO




