AMPLIFEST, O RESCALDO A SEIS MÃOS



I. Introdução
por MANUEL A. FERNANDES

A ambição molhada dos rapazes da Amplificasom, agência de sonhos portuense, concretizada em dois dias da mais alta qualidade sonora, num cartaz de excelência. E que bem que eles estiveram. Bandas, público, lojistas e organização. Não, não estou a exagerar. O acto de elogiar é, bastas vezes, confundido com reverência ou o mais puro frete. Na verdade, num meio tão pequeno em que todos se dão e convivem com euforia no sucesso e omissão no descalabro, uma crítica fora do goto e da têmpera dos manda-chuvas pode criar uma amarga sensação de persona non grata.



Considerem antes que esta cascata de elogios ao Amplifest 2011 é da mais inteira e insuficiente justiça. A malta da Amplificasom faz serviço público e os sonhos são assim, partilham-se com quem quer fazer parte deles. Trocando por miúdos, onde é que andam as gentes do norte quando as coisas acontecem?






Num evento que por toda a grandiosidade de actuações se podia equiparar a um mini-roadburn, o máximo denominador comum foi o psicadelismo. Doseado entre grandes camadas de distorção até às pitadas mais fugazes da repetição, ele esteve sempre imerso na arte exploratória e espúria das bandas. Cósmico (Bardo Pond) e drogado (Acid Mothers Temple), desértico (Mugstar) e musculado (Witchburn), freak (OvO) e místico (Barn Owl). Facto merecedor de destaque para o(s) curador(es) que mesmo no equilíbrio entre os dois dias, deram conta do recado. Pontos fortes? Saí extasiado e emocionalmente tocado do concerto dos Bardo Pond, depois de uma aterradora experiência sensorial às seis da tarde. Godflesh, Stearica (a revelação), Barn Owl e Rorcal elevaram o festival ao panteão dos grandes concertos do ano — pagaram o bilhete e ainda deixaram gorjeta. OvO, Rise and Fall e Enablers quebraram a toada geral com grande personalidade. Quanto a Acid Mothers Temple: de certeza que são melhores que aquele concerto. Resumindo: Fuck Yeah Fest.


II. Dia 1
por RICARDO GUIMARÃES

Qualquer pessoa que chegasse ao Hard Club no sábado perceberia que algo em grande estava a acontecer. Público e músicos a andarem de um lado para o outro, o corredor cheio de tudo o que há de bom — desde vinis, t-shirts e posters de bandas — e, claro, muitas miúdas giras, preparadas para uma grande noite.

Às 17.00, arrancam os EAK na sala 2 e que grande bofetada levámos todos nós. Uma parede de som, um vocalista completamente embrenhado no seu papel e músicos a darem tudo o que tem. Um início mais do que digno num festival desta envergadura. Estes portugueses realmente encheram-me as medidas nesta primeira dose de música, saí de lá completamente extasiado. Depois foi só mesmo trocar de sala, ouvir o projeto de um homem só, Suzuki Junzo, que enfeitiçava todos com o ambiente que criou na sala: uma espécie de noise psicadélico feito apenas com uma guitarra e projeções de imagens meias alucinogénias.

Enquanto o Manel foi ver os espanhóis Cuzo (ver em cima), eu fui com o João (ver em baixo) ver o documentário Blood Sweat + Vinyl, que conta a estória de editoras independentes em que a música é realmente aquilo que as faz mover. Vemos testemunhos e relatos de pessoas todas elas que dedicam tudo o que tem às suas bandas, como uma grande família. O público que assistia comigo ao documentário ouvia e via tudo com interesse e atenção infatigáveis. O silêncio que imperava na sala dizia tudo.




Antes daquele que foi, para mim, o concerto da noite, tive a oportunidade de assistir a Sungrazer e a Stearica, dois projectos que conhecia mal, mas com os quais simpatizei pela abordagem ao vivo que os músicos demonstraram. Chegou então o choque, aquilo que ninguém na sala esperava: os suíços Rorcal. Acompanhados por Solar Flare, que fez a primeira parte, estes senhores deram talvez o concerto mais visceral e violento que já tive a oportunidade de poder ver. A energia que emitiam era incrível, a brutalidade da sua sonoridade deixou-me estarrecido,. Resumindo: foi o concerto que mais me marcou neste sábado. Depois desta descarga, assisti, ainda um pouco fora de mim, a Mugstar e a Rise and Fall. Eis que finalmente OvO fazem-me regressar à vida, um concerto teatral bem doseado, com noise e rock fodido à mistura. Depois, mais um dos momento da noite quando Justin Broadrick entra em cena com o seu projecto JESU para nos embalar pelo seu som agridoce e melancólico, cruzado com uma voz fantasmagórica. Valeu Justin, valeu. A encerrar, Drumcorps lixou-nos bem os ouvidos com um breakcore e berros lixados, em que apenas os mais corajosos e destemidos se deixaram ficar até ao fim. Eu, pelo menino que sou, tive que sair a meio.



III. Dia 2
por JOÃO PACHECO

No Amplifest não há tempo para ressacas, ainda nem sequer tinha havido tempo para recuperar dos fantásticos concertos de sábado (Rorcal, Mugstar, OvO, Jesu) e às 16.00 já estava de volta ao Mercado Ferreira Borges para bombar o segundo dia de Amplifest, dia esse que prometia ser absolutamente inesquecível.

Essa expectativa começou a tomar forma imediatamente ao primeiro concerto, a meio da tarde na Sala 1, por parte do trio franco-italiano L´Enfance Rouge, uma das duas bandas do roster da Amplificasom a tocar no segundo dia de festival. Que começo! Uma intensa viagem pelos mares sonoros da cacofonia noise e art-rock com intensas pinceladelas de música do mundo, um concerto que reflectiu na perfeição o ecletismo do Amplifest. Logo a seguir mais um concerto de uma banda que tem uma ligação especial com a Amplificasom, os norte-americanos Enablers, protagonistas do primeiro concerto agenciado pela promotora, surgiram numa espécie de continuidade lógica relativamente à música e concerto proporcionado pelos L´Enfance Rouge, com um rock de guitarras proeminentes e experimentalismo à la Oxbow ou Celan e pequenos traços de post-rock. Não foi tão intenso quanto o concerto anterior, mas as composições destes norte-americanos não deixam ninguém indiferente, portanto passei uns belos 45 minutos.



Depois veio, pelas mãos dos Witchburn, a primeira dose de metal do dia, concerto do qual, sinceramente, não esperava nada. Acabei por ser surpreendido pela positiva por este quarteto misto (duas meninas e dois meninos) que fizeram do southern sludge/stoner reaccionário a sua bandeira, sem, no entanto — e felizmente — se levarem muito a sério. Saí um pouco mais cedo dos Witchburn para me plantar, que nem uma árvore com raizes milenares, mesmo à frente do palco para o meu segundo concerto mais esperado de todo o festival (depois de Godflesh): a estreia portuense dos míticos mestres do psicadélico, Bardo Pond. Foi, devo dizê-lo, o concerto do festival. O quinteto de Filadélfia levou toda a gente por uma viagem espiritual e emocional marcada pelos símbolos de magia e pela densidade, construindo uma parede sonora, alimentada pelo último álbum, o homónimo Bardo Pond, de 2010, absolutamente gigante que perdurará durante muito, muito tempo na minha memória. Absolutamente divino.

Dos franceses Dirge vi apenas uma música, porque a pança já roncava e o relógio não podia parar — a mente ainda estava no mundo dos Bardo Pond —, mas o que vi deu para perceber que foi mais um bom concerto a juntar à restante prateleira do Amplifest. Após magro jantar, seguiu-se o concerto dos portugueses Process of Guilt que chegou para encher e transbordar as minhas medidas. Foi o primeiro concerto que vi deste quarteto, para muitos a maior esperança portuguesa dentro do doom/post-metal (juntamente com os Lobo) e, durante 45 minutos, houve um throwback à atmosfera pesadíssima e negra que os Rorcal apresentaram no dia anterior, confirmando que os Process of Guilt são, sem dúvida, dos melhores projectos nacionais da música extrema.



No vai-e-vem do Amplifest, novo regresso à sala 2 para um dos concertos que mais aguardava: o duo norte-americano Barn Owl, que proporcionou ao público presente (a maior enchente na sala 2 durante todo o festival) mais um belo momento de psicadelismo — desta vez numa facção drone-meditativo com pequenas implosões de densidade, a fazer lembrar uns Sunn O))) de pequena escala — e com direito a projecção vídeo que completava a música dos Barn Owl na perfeição. Excelente!

A actuação dos tarados nipónicos Acid Mothers Temple era, para muita gente, a actuação mais esperada do segundo dia — juntamente com Godflesh, claro. Não só pela história que a banda carrega, mas também pelos tão famigerados concertos da banda. Não sou grande conhecedor de muita discografia destes senhores, nem das muitas diferentes encarnações que eles tomam, de modo que não posso dizer que tenha ficado muito mais fã do psicadélico-esquizofrénico espacial e de alta rotação debitado pelo quarteto de senhores japoneses já bem entradotes, se bem que a versão compacta da “Pink Lady Lemonade” foi um belo momento de psicadélico à la Pink Floyd que me fez voar até ao espaço e voltar. De referir também que este foi o concerto com o volume mais alto do festival com direito até a alguns descontrolos técnicos que nem os músicos conseguiram resolver imediatamente. Estes japoneses são doidos.






Depois do concerto dos espanhóis Orthodox e de abertas as portas da sala 1 (o único soudcheck à porta fechada em todo o festival) eis que chegava finalmente o momento mais esperado de todo o festival. A concretização de um sonho para muitos dos presentes, o regresso, após dez anos de interregno, da banda mais significativa e influente do género metal industrial: os míticos Godflesh. Todas as (estratosféricas) expectativas foram corroboradas, num concerto que foi dominado pelo denominador OPRESSIVO desde a abertura absolutamente devastadora com o duplo ataque “Like Rats”/”Christbait Rising” do fundamental Streetcleaner, ao volume ensurdecedor, o baixo que parecia que nos transformava os ossos em pó, a drum machine minimal e robótica, a voz e entrega repleta de raiva de Justin Broadrick — tudo esteve absolutamente no ponto, fechando com chave de ouro a primeira edição do Amplifest. Para o ano, cá estaremos outra vez, com certeza.


TEXTO POR MANUEL A. FERNANDES, RICARDO GUIMARÃES E JOÃO PACHECO
FOTOGRAFIA POR TINA ŠKRLJ





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