VICELAND HOJE - 11/2011



O SÓTÃO DA TIA BECAS É UM OÁSIS DE NOSTALGIA

30/11/2011



Sabem aquela sensação de entrar num mundo à parte, abrigado da vida dita normal? Foi isso que senti quando entrei pela primeira vez nesta loja que é um sótão no rés-do-chão com todas as velharias que qualquer sótão que se preze deve ter.

Para além das coisas normais em todas as lojas de velharias, como livros de papel amarelado e brinquedos em lata enferrujados, O Sótão da Tia Becas tem toda uma panóplia de objectos estranhos para agradar a qualquer coleccionador ou surpreender os simples curiosos. Coisas como caixas de fósforo ou alfinetes de lapela, ou até cartões de hotel e rótulos de garrafas de vinho do Porto.

Todas as infâncias, uma loja apenas.

VICE: Há quanto tempo tens aqui a loja?
Senhor Paulo:
Abri esta loja há um ano e meio, mas já tenho antiguidades há dezoito. Primeiro abri a Tertúlia Castelense, um bar que decorei só com antiguidades e que depois ficou para o meu irmão. Depois abri aqui o Sótão, com este espírito mais de coleccionismo.


Ainda pensei em comprar esta para fazer umas festas lá em casa, mas depois o Senhor Paulo disse-me que esta máquina afinal não tira cervejas — apenas café.

Como é que surgiu o nome da loja?
Foi em honra da minha irmã que faleceu há três anos. Tive a ideia, perguntei aos meus irmãos e eles concordaram.

A tia Becas original que deu o nome à loja tem, naturalmente, lugar de destaque nas paredes.

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Alguma destas coisas eram tuas? Aquele avião, por exemplo?
Não. Eu venho de uma família com muitos irmãos, por isso os brinquedos estragavam-se. Tenho reparado que os brinquedos só vêm direitinhos quando são de filhos únicos.


Mas sabes as histórias de algumas das coisas que cá tens?
De algumas, sim. Por exemplo: aquelas caras eram de um maestro aqui do Porto que morreu há pouco tempo. Vieram dentro de uma mala, todas estragadas. Fui eu que as mandei restaurar. Lá ao fundo também há uma pintura de uma mulher nua, com umas fotos em baixo. Essa mulher chamava-se Maria e era uma modelo de nus na Faculdade de Belas Artes nos anos 50. Comprei as imagens a uma senhora velhinha que foi professora primária e que depois estudou medicina e pintura. A Gulbenkian quis-lhe comprar uns quadros, mas ela nunca aceitou expor.

Esta dançarina do can-can veio directamente da antiga discoteca Búfalos, em Matosinhos, para dançar ao som do gramofone do Sótão.

Pode não parecer, mas isto é um isqueiro. Provavelmente foi daqui que surgiu a expressão “fumar um canhão”.

Enquanto conversamos, os clientes não param de entrar e de sair. Um deles, um típico nerd com o cabelo puxado para o lado e óculos redondos, interrompe-nos para pagar meia dúzia de bandas desenhadas. O Senhor Paulo contou-me que é um dos clientes fixos, a quem liga sempre que chegam novas BDs. Por isso, e por curiosidade, perguntei quantas já tinha e com que frequência as comprava. “Já devo ter umas cinquenta mil. Venho procurar BDs sempre que tenho folgas e aos fins-de-semana”.

Se estão mal de amizades podem sempre vir aqui buscar um postal usado, basta esconder a data.

Também fazes alguma colecção?
Agora já não, mas há coisas que não vendo. Se isso se qualificar como colecção… Por exemplo, este Pelikan aqui não vendo.


Se este cartaz fosse a sério o Senhor Paulo ia ter problemas sérios com a autoridade, já que a loja está cheia de cartazes publicitários.

Eu não disse?!


Tenho mais uma pergunta só: quem é que acha que vai comprar este pé de madeira?
Não sei. Talvez algum sapateiro para enfeitar a montra da loja. Já tive uma cadeira de dentista que ficou aqui anos e anos. Pensámos que nunca mais a íamos vender, mas acabaram por levá-la. Agora está num estúdio de tatuagem.


TEXTO E FOTOGRAFIA POR REBECA BONJOUR


VEJAM ESTE ESQUELETO ROBÔ DO FUTURO

30/11/2011



É possível que, tal como nós, também tu estejas a imaginar esta coisa agarrada à tua cara ou a descer pela garganta abaixo e, sei lá, tomar controlo do teu corpo para te comandar desde as entranhas. Podes tentar empurrá-lo contra a parede, esmagá-lo com o pé ou atropelá-lo várias vezes, mas ele irá sempre sobreviver porque — e esta é a parte com rasteira — não tem esqueleto, mas sim tubos de ar que se enchem ou esvaziam de forma a que o robô se desloque.

Podemos agradecer a Harvard por esta obra prima, apresentada na última edição da revista Proceedings of the National Academy of Sciences, e também à DARPA (Defense Advanced Research Projects Agency) porque — iá, adivinharam — isto foi financiado pelo Pentágono. O artigo também faz a referência óbvia de que este robô vai buscar inspiração “aos animais que não têm esqueletos internos duros como os polvos, as minhocas ou as estrelas do mar.”




MOTHERBOARD


AS NARRATIVAS EM CÓDIGO DO AARON KOBLIN

30/11/2011



O Aaron Koblin dirige a Data Arts Team do Google Creative Lab e é o criativo responsável por alguns dos projectos online mais entusiasmantes e inovadores dos últimos tempos. O seu trabalho pega em informação diversa para, com a ajuda da tecnologia, criar experiências inesperadas e pessoais. Isso é visível quer esteja a pedir a estranhos para desenhar ovelhas ou a transformar os Radiohead em partículas 3D — a sua obra debruça-se de forma surpreendente e divertida sobre a maneira como podemos tornar software em estórias.


THE CREATORS PROJECT


TYLER, THE CREATOR APRESENTA UMAS FOTOS DO AMIGO JOSH

30/11/2011



Olá, Eu Sou O Tyler. Alguns De Vocês Devem Conhecer-me Como Tyler, The Creator, Ou Então Como Aquele Gajo Que Se Esforça Tanto Que É Mesmo Irritante, Ou Ainda Como Aquele Nigga Que Comeu Um Insecto. Estas Fotos São Do Josh Terris. Ele Tira Fotos A Adolescentes Que Fazem Merda Em Festas. Ou A Skaters. Acho Que Também Cheguei A Ver Um Porco Numa Delas. Ele É Meu Amigo E Queria Fazer Uma Coisa Para A VICE.

PS: Não sabemos por que é que o Tyler gosta de escrever todas as palavras em caixa alta, mas por nós é na boa que o faça. Bem, é só mesmo para que saibam que foi assim que ele nos enviou o texto, por isso é assim que o publicamos. Podem ver mais do trabalho do Josh no seu Tumblr.




















TEXTO POR TYLER, THE CREATOR
FOTOGRAFIA POR JOSH TERRIS


VICE TV: DALSTON SUPERSTARS — EPISÓDIO DOIS

30/11/2011

Episódio 1


Neste segundo episódio da nova série super cool da VICE TV, Dalston Superstars, voltamos à companhia da malta mais fixe da zona oriental de Londres — Sam, Anna, Maeve, Vee e Steffan — depois da curtição da noite anterior. A relação do Sam com a Anna parece estar numa fase um pouco turbulenta. Nada como lamber as feridas numa nova saída em grupo. Será que vai ajudar?


VICE TV


CONTAR MUITO COM POUCAS PALAVRAS

30/11/2011


FOTOGRAFIA POR GAVIN WATSON
STYLING POR SAM VOULTERS


Casaco McQ, top SICK, calças Asger Juel Larsen, colar e anéis vintage.

Casaco Stone Island, jeans Levi’s.

Casaco Stone Island, jeans Levi’s, colar vintage.

T-shirt sem mangas Oakley, jeans Cheap Monday.

T-shirt Asger Juel Larsen, colar vintage.

Casaco Fred Perry, top vintage, jeans H&M vintage, boné WeSC.


MÚSICA: TODAY IS THE DAY

30/11/2011

Pain Is a Warning
Black Market Activities
Classificação: 7/10

Steve Austin é uma das personagens mais influentes da cena metal moderna. Ponto. Os Today is the Day sempre foram uma das bandas mais subvalorizadas a surgir no melting pot da cena pesada dos anos 90. Facto. Nem eram peixe nem carne para aquela consciência estática e entrincheirada, que olhava com profunda desconfiança para a sopa grindcore, noise, death metal, prog e industrial que cozinhavam. Serviram de workshop para Bill Kelliher e Brann Dailor moldarem a banda de que tanto se fala hoje em dia. E, por isso, nem é assim tão surpreendente que o tema de abertura soe como os crescendos épicos de “Blood Mountain”. Mas o mestre subiu a fasquia e tem um ADN diferente, daí o tema título bafejar um cheirinho do Tennessee, a country blues ali pelo meio. O álbum é rasgadinho, com a apoteose em “The Devil’s Blood”, um atestado de vitalidade, e a raiva contida de “Samurai”. Que este Pain Is A Warning não consegue superar os seminais Supernova ou Temple of the Morning Star é um facto. Que não é isso que se espera dos Today is the Day, também. Ponto final.

MANUEL A. FERNANDES


CHEGAR AOS 30 E FALAR EM PÚBLICO… EM ÁCIDO

29/11/2011


Fazer 30 anos é assustador para muita gente. É o momento em que revisitas os teus sonhos e os compartimentaliza em realidade. Uma realidade agora cheia de gente mais nova, mais fixe e mais bonita do que tu.

O Gavin Haynes passou a adolescência numa aldeia da África do Sul, cheia de ovelhas e de racistas, a sonhar que um dia seria um jornalista do rock, algo que de certa forma atingiu quando conseguiu estar com os The Twang em Blackpool — mas é incrível como o tempo passa, não é Gavin? Agora que chegaste aos 30, apercebes-te dolorosamente que não passaste a década anterior a comer groupies num jacto privado, como imaginavas. Na verdade, a tua carreira só te levou a uma conferência da indústria musical num hotel de Montreal. Que deprimente. Talvez um ácido te possa dar algum conforto, Gavin.


Aqui está o Gavin. Nesse dia ele fazia 30 anos. Parabéns, Gavin! Toma uma pastilha de ácido para celebrar.


Aqui está ele, 20 minutos depois, numa manhã fria em Montreal, pronto para um dia a aturar pessoal da indústria da música. Ainda parece relativamente sóbrio.


Como correspondente britânico no M for Montreal Festival, a primeira coisa em que o Gavin se meteu foi numa sessão de speed schmoozing, que é basicamente a mesma coisa que speed dating, mas em vez de teres conversas de três minutos com pessoas desesperadas por sexo, falas com pessoas mortas por te convencer que conhecem a Lana Del Rey.


O verdadeiro objectivo de tudo isto é que agentes de bandas canadianas possam convencer o Gavin a escrever algo de elevante sobre elas na imprensa britânica.


Quando o Gavin acabou de preencher o seu cartão e se sentou, as drogas começaram a fazer efeito. À sua volta, o fundo do poço da indústria musical brincava com as suas sacolas.


Apesar de afirmar que o passou-bem deste gajo era “bastante táctil” acho que por esta altura o Gavin só estava a debitar clichés parvos porque se sentia na obrigação de o fazer. Depois de algumas conversas chatas, com ele sempre a dizer que era a sua primeira vez em Montreal, como estava frio e etc, comecei a pensar que isto ia ser um pouco aborrecido. Depois ele vira-se para mim e diz: “Como está a correr? Estou a ter dificuldade em perceber o que me estão a dizer, só me estou a rir muito.”

A sério? Mesmo quando aquele gajo te contou a história de como ficou todo triste quando aquela pessoa de determinada banda morreu?

“Oh não, morreu alguém?”


Depois um gajo apareceu e deixou toda a gente na pior com as suas más vibrações. O Gavin disse que a banda que ele representava tinha um nome parecido com Adam And The Ants e o gajo gritou mesmo zangado: “Iá, muita gente diz mal do nosso nome!”. Foi mesmo estranho para ser sincero.

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“Não gostei nada daquele gajo, era tão fechado. E estava a tramar alguma, dava para ver. Toda a gente aqui é tão aberta e com boas vibrações, mas ele estava mesmo fechado.”
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Para qualquer pessoa aquilo que o Gavin tem na mão não é mais do que um quadrado de papel, mas para ele este cartão de visita minimalista era uma chave para as portas da percepção. “Iá, as coisas estão todas a ficar em 3D, este cartão… Olha para ele… É como quando eu vi o “Lights Going On and Off” do Martin Creed na Tate Modern. Adoro!”


Quando este senhor introduziu o artista que representa como “uma mistura de Supertramp e Queen que faz sucesso na China” o Gavin partiu-se rir. Mas, quando o gajo nos ofereceu uns headphones para podermos ouvir, o Gavin ficou em transe.

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“Temos mesmo que chegar ao mercado chinês. Toda agente fala dos direitos humano, mas que tal uma aproximação mais suave? Sou completamente a favor de uma comunidade de nações.”


Não sei no que ele está a mexer aqui, mas sinceramente podia ser qualquer coisa nesta sala. Não era uma sala muito boa.


O Gavin adorou esta rapariga, por isso, e no seu estado mental caleidoscópico, decidiu chateá-la. Antes de ela conseguir falar, disse-lhe: “Estou aqui para lançar ou destruir a tua banda, o que tens para me mostrar?”

“Bem, represento uma banda chamada Plaster e …”

“Pára por aí! Só estou interessado em bandas que começam por T? Tens alguma que comece por um T? Ou que acabe num Y? Ou vou ter que te pedir que saias?”

Ele riu-se, mas ela não e, quando nos voltámos a cruzar mais tarde, ela admitiu que tinha feito queixa de nós à organização.


Depois de sair à pressa do speed schmoozing fomos para o próximo compromisso do Gavin, no outro lado da cidade. Pelo caminho, ele tocou-me no ombro e partiu-se a rir por nada, até que me explicou o que nos estava a atrasar.


Boa, Gavin.


Esta foto também enaltece todo o propósito deste artigo.


Quando perguntei ao Gavin se ver estes miúdos o fez sentir velho, ele não pareceu incomodado. “Sim, mas neste momento gostava mesmo era de ficar sentado a ver um monte de documentários e aprender coisas. Achas que eles alinhavam? Não.”


De seguida, fomos para uma cena de network para os média onde alegadamente teríamos que forjar alianças estratégicas com pessoas para nos entreajudarmos e salvar a indústria musical, mas o ambiente estava morto e o Gavin parecia preocupado. “Isto é uma masmorra horrível! Sinto muita paranóia, tu não?”


Ao sentir a ambiguidade emocional no seu âmago, sugeri ao Gavin que subisse ao palco e partilhasse com o pessoal presente como é chegar aos 30 e perceber que se chegou ao fim da linha.


Para registo futuro, aqui fica o discurso desconexo dado pelo Gavin: “Amigos, há formas piores de chegarmos aos 30. Pergunto-me: estará a minha vida a fugir-me? Será que me estou a divertir o suficiente? Temos que ser filosóficos sobre os domínios das possibilidades e probabilidades. Acho que sou feliz, mas talvez não me tenha divertido o que devia nos meus vinte. Quer dizer, pela média, tive uma vida suficientemente boa — mas nunca encontrei a medula da felicidade dentro dos meus ossos.” Por esta altura o Gavin parecia nervoso e foi sentar-se. O que correu mal.


Basicamente foi assim: o Gavin cometeu o infeliz erro de se querer sentar na cadeira reservada ao famoso bloguer Arjan Writes, que olhou para ele com o seu olhar de pedinte e lhe gritou “SENTA-TE NA SUA MESA!”


Tive a assessorar o Gavin o dia todo e decidi fazer-lhe uma surpresa para terminar com chave de ouro. No entanto, quando ele se apercebeu que algo o esperava atrás daquela porta amarela começou a bater-me repetidamente enquanto gritava: “Que é que fizeste? Que é que fizeste, seu idiota?”, o que só provou que a paranóia deste idiota ingrato estava no auge. Bem Gavin…


SURPRESAAAAAA!!!!!!!!!!!!


O homem a oferecer bolo ao Gavin é o irmão do senhor Hudson. Foi preciso chegar ao último obstáculo da sua juventude para o Gavin ter a possibilidade de curtir com o pessoal do rock.


“Oh uau! Oh uau! Oh uau!” guinchou, enquanto rastejava até ao bolo, sem se aperceber que estava a recitar as últimas palavras do Steve Jobs.


Parabéns, amigão!


Depois de dez minutos de curtição (com os convidados envolvidos em conversas constrangedoras enquanto o Gavin não desviava o olhar de alguma coisa no chão que lhe roubou a intenção por inteiro) ao som de músicas azeiteiras no telemóvel de alguém, o irmão do senhor Hudson sugeriu que entrássemos noutra sala, mesmo ao lado daquela, onde nos aguardava outra surpresa.


Que idiota cruel, este irmão do senhor Hudson! Mandar um homem sensível, e a tripar em ácido, para uma reunião de negócios cheia de canadianos aborrecidos. Foi aqui que o Gavin começou a tremer e a pedir-me que acabasse o artigo de uma vez.


Levei o Gavin de volta para o quarto dele para se poder acalmar. Já estava a tripar há umas seis horas.


Foi quando deixei o Gavin a brincar com o MacBook novo que comprou como prenda para si próprio. Enquanto mexia no touchpad deu por si a descobrir uma carrada de comandos swipe que não eram possíveis no seu PC antigo. Foi aqui que eu percebi que o design ergonómico do MacBook (…em ácido) estava a ser a derradeira moca. “É como brincar com um clítoris, tipo “O que é que isto faz?”, perguntou entusiasmado. “Oh não! Quase que deitava os meus post-its no lixo!”, riu-se. Eu achei a conferência incrivelmente aborrecida, mas, quando lhe perguntei o que tinha achado, ele respondeu: “Por que é que haveria de me ter aborrecido? Eu era a estrela!”


TEXTO E FOTOGRAFIA POR ALEX HOBAN


CAMISOLINHAS SEXY

29/11/2011



As roupas inexistentes têm sido a cena mais quente na moda durante este ano. A sério, em 2026, quando imprimir em 3D for uma cena que podes fazer no autocarro nocturno, as raparigas, com quem não poderás ter nada porque vais ser velho, vão usar estas camisolas de verdade e reanimar ironicamente a tua vida. No início deste ano, um gajo chamado Alex Gibson fez umas sweaters incríveis no Photoshop e, desde então, o conceito de photoshopar-uma-imagem-numa-camisola tornou-se uma cena grande na net e começaram a aparecer uns imitadores de terceira categoria no tumblr. Até que apareceu o site Sexy Sweaters e subiu o nível, atirando toda a merda para um canto ao mesmo tempo que mostrava estonteantes ideias para sweaters (desde a Oprah como Jesus até à foto que o Nick Knight tirou à Devon Aoki como uma ciborg assassina vinda do Planeta Moda).

O Sexy Sweaters é gerido pelos amigos Greta Gibbens e Alec Weitl. Primeiro conheceram-se no secundário através de amigos em comum, depois tiveram aulas de Educação Física juntos e finalmente tornaram-se melhores amigos. Não foi só a desenhar camisolas loucas que tornaram o site tão popular. O Sexy Sweaters têm como lema “todo o tipo de reblogging é bom reblogging”. O botão de contacto diz “Hit Me Up And I’ll Bitch At You” e têm por hábito publicar os comentários mais fortes juntamente com as imagens das suas sweaters loucas, além de dialogarem constantemente com os seus seguidores. A dupla está agora a tentar trazer para o mundo real alguns dos seus desenhos, atenuando assim a dor de ver todos estes modelos fantásticos de roupa que nunca iremos vestir.


VICE: A ideia começou por ser fazer desenhos impossíveis de imprimir em camisolas, mas agora querem tornar isto real?
Greta Gibbens: Bem, a cena não os desenhos serem impossíveis, mas são caros e complicados de fazer. A razão para as camisolas assim ainda não terem sido produzidas tem sobretudo que ver com a dúvida se haverá um mercado para isto que não se incomode com o preço elevado que isto envolve, mas espero que a nossa grande rede de fãs possa fazer isto funcionar.

O que é que queres imprimir primeiro?
Pessoalmente usaria qualquer uma das camisolas Disney.

Fixe. Que camisolas é que os vossos visitantes mais querem que façam?
A nossa missão é fazer camisolas que apelem a todos os diferentes nichos do Tumblr. Fazemos camisolas kawaii, camisolas do Harry Potter, do Doctor Who, para os metaleiros. E todas elas têm uma quantidade impressionante de likes e reblogs.

Vocês alguma vez discordaram num desenho em particular e sentiram que têm de desistir dele?
Se algum de nós pensa fazer uma camisola controversa tentamos falar e ter a certeza que podemos os dois aguentar com isso. Mas há alguns temas que ambos concordamos em não mostrar. O Chris Brown, por exemplo. Acho que isso iria glorificar a violência doméstica.

Nunca se preocuparam com a possibilidade de outras pessoas vos roubarem a ideia e começarem a imprimir este tipo de camisolas antes de vocês? Porque houve muita gente que começou a fazer as suas próprias cenas no Photoshop, certo?
Dei uma vista de olhos em muitos blogues do género e, para ser honesta, a qualidade não é tão boa. Tenho estado obcecada com o Photoshop desde o 5.º ano e consigo sempre perceber como é que uma pessoa criou as suas imagens. Eles não sabem o processo e dá para ver que as imagens não são tão boas. E os blogues que têm imagens de melhor qualidade não são tão apelativos como o nosso. Nós criamos camisolas hediondas, de gosto duvidoso, mas cada camisola tem pelo menos 100 notes.


Porque é que há tantas pessoas no Tumblr vos odeiam?
Não odeiam nada. Recebemos cerca de 700 a 800 mensagens por dia e a esmagadora maioria delas é positiva, mas não queremos entupir os nossos seguidores com 700 posts nossos de agradecimento, por isso publicamos só as respostas engraçadas.

Então e as mensagens de ódio que vocês recebem mesmo e depois publicam?
Já se sabe que os trolls não são pessoas particularmente imaginativas — e digo isto com amor, eu própria costumava andar sempre no 4chan. A cena é que se uma pessoa odeia alguma coisa, toda a gente pensa: “Devíamos odiar essa coisa também”. Vês mesmo isso quando nos chamam racistas. Nunca publicámos nada racista, mas uma pessoa chamou-nos racistas na tanga e nós publicámos a resposta. Semanas depois continuavam a perguntar se somos racistas, mesmo que isso nunca tenha sido abordado no passado e não haja qualquer fundamento para ter dúvidas.

Também gosto do diálogo que vocês têm mantido com o pessoal que comenta sobre os perigos das drogas — ou falta deles. Por que é que não desenham mais cenas relacionadas com drogas?
Até acho que publicamos muitas cenas assim. Até já nos pediram para moderar isso.

Deixa-te feliz que as vossas camisolas se tenham tornado um meme?
Sim, fico mesmo lisonjeada. Como disse, já passei muito tempo no 4chan e, por acaso, uma das razões para ter começado a sair com o agora meu namorado foi precisamente partilharmos essa paixão por memes. Aliás, foi surreal mostrar-lhe que aparecíamos no Reddit e no Know Your Meme.

Estão a viver o sonho.


ENTREVISTA POR JAMIE CLIFTON


OS PASSOS EM VOLTA ROCKAM ATÉ MORRER

29/11/2011



Sacar música em 1999 era como conduzir um Fiat Uno por um caminho de cabras na esperança de que a viagem levasse a alguma coisa. Lembro-me de tentar sacar o Spiderland, dos Slint, no Audio Galaxy e era um verdadeiro acto de fé acreditar que aquelas músicas chegariam inteiras. O Audio Galaxy baralhava os downloads e, muito lentamente, transferia um bocadinho deste e outro daquele. Quando vi “Good Morning Captain” chegar aos cem por cento, nem queria acreditar que o Brian McMahan estava a berrar “Awww, I miss you!” naquelas colunas Blaupunkt. A mesma batalha não acontece agora, nestes tempos do “olha, saca aí a discografia do Neil Young, porque ouvi falar dele”. O Fiat Uno passou a ser um Land Rover e o caminho de cabras é agora uma auto-estrada.

Mas, quando o conhecimento não é bem aplicado, a circulação de tanta informação pode também levar à desgraça. O que surpreende nos discos da Cafetra, desde o primeiro EP de Pega-Monstro, é reparar como estes miúdos de Lisboa sabem agitar as águas do indie rock e da bastarda lo-fi, sem grandes tiques de “chico espertice”. Tudo parece muito genuíno e nada pretensioso, tal como era possível constatar no primeiro sampler distribuído em CD-R caseirinho pela label. A Cafetra aparenta até ter orgulho no seu próprio desleixo. E este desleixo militante acontece de um modo que, mesmo sendo diferente das posturas de loser e “zero” da década de 90, continua a provar que é muito melhor ser um slacker divertido do que um careta cheio de dinheiro.

Fazendo jus à ética da Cafetra, os Passos em Volta, quinteto que reúne muita da pujança típica da casa, têm no seu primeiro álbum, Até Morrer, um disco repleto dessa despreocupação que apetece mesmo ter na vida. Embora, de início, pareça um pouco disperso, como se fosse um quarto desarrumado e sujo, Até Morrer vai criando aos poucos uma vontade enorme de morar nesta casa e tocar air guitar ao som destas canções. Diante de tantas qualidades, o mais fácil seria paternalizar e comparar os Passos em Volta a um monte de bandas influentes (desde os Fall aos Sebadoh), mas é preciso fazer o liceu em Portugal para chegar a temas como “Petesar” ou “Santos Pop” (duas belas provocações). Os Sebadoh mandaram para o caralho quem lhes apeteceu (J. Mascis e mil miúdas caprichosas). Agora é a vez dos Passos em Volta fazerem o mesmo se assim quiserem.

Além do mais, a versatilidade dos dois principais vocalistas, o Éme e a Maria Reis (de Pega-Monstro), será sempre propícia a que os Passos em Volta percorram o rock como bem entenderem. Ele alterna entre o manhoso-suave e os berros muito sofridos (lembra às vezes Day of the Dead), ela tem a melhor voz twee nacional desde Mariana Ricardo (a ex-Pinhead Society que continua a fazer óptima música). Ambos sabem certamente montar uma melodia num disco que as tem às toneladas e ao lado de uns quantos riffs bastante memoráveis. Não sobram dúvidas de que estão aqui uns quantos miúdos que sacaram muitos discos de referência e a uma velocidade muito superior à do dial up do meu pai. A certa altura de “De Repente”, entre os muitos berros e guitarradas, ouve-se uma voz a dizer baixinho “Shazam” — a palavra mágica que, numa BD da DC Comics, servia para que o miúdo se transformasse em super-herói. Até Morrer é um “Shazam” lindo de se escutar na emancipação de uma banda que só pode voar a partir daqui.




TEXTO POR MIGUEL ARSÉNIO