VICELAND HOJE - 10/2011



PORQUE É HALLOWEEN: DIVAS DO TERROR

31/10/2011


Daqui a umas horas é Noite das Bruxas, por isso aqui fica uma entrevista a dez das nossas divas do terror favoritas com perguntas de meter meeeedo, sobre o que lhes põe o coração aos saltos no quarto. Como suspeitávamos, as scream queens curtem tudo desde necrofilia até serem estupradas com uma serra eléctrica.


Linnea Quigley é a rainha dos filmes de terror dos anos 80. Já entrou em montes de coisas, mas do que nos lembramos melhor é da cena em que se masturba num cemitério a dançar nua em cima de uma lápide em Return of the Living Dead.

VICE: Qual é a maneira mais sexy de morrer?
Linnea Quigley: É com um monte de zombies e demónios a comerem-me viva. Vampiros são sempre sexy, talvez façam zombies ou demónios sexy um dia.

Eras um demónio sexy em Night of the Demons. Parecias uma Barbie assustadora.
Pois foi! Sim, estava em forma. Cérebros não engordam muito, sabes.

Já te excitaste a ver filmes de terror?
Não, mas ia ao gajo que pede boleia no Texas Chainsaw Massacre, interpretado pelo Edwin Neal.

E se ele te tentasse arrancar a cara?
Ah, tínhamos que ter uma relação especial. Eu arranjava-lhe miúdas para ele não me tirar a cara a mim.

Que brinquedo sexual dava a melhor arma para matar alguém?
Um dildo de 30 centímetros. Para mandar à cabeça de uma pessoa e depois sufocá-la. Meter-lhes o dildo pela garganta abaixo e tapar-lhes o nariz.


Debbie Rochon é uma actriz de filmes de terror que apareceu em montes de filmes da Troma e foi nomeada “Scream Queen da década” pela revista Draculina, em 2003.

VICE: Qual é a maneira mais sexy para morrer?
Debbie Rochon: Morte por fisting.

Que vilão de terror te excita mais?
O Blob, porque escorre todo por ti.

Sexo é melhor quando se está vivo ou quando se está morto?
Pergunta ao Keith Richards.

Qual é a tua arma de tortura favorita?
O meu conjunto de pregadeiras de mamilos do Justin Bieber.

Que arma dava o melhor brinquedo sexual?
Um rosário. Porque as contas acertam nos sítios certos e a cruz acaba sempre enfiada.


Monique Dupree é a diva do terror negra original. Já protagonizou em mais de 60 filmes, incluindo Pot Zombies e Caged Lesbians A-Go-Go. Já foi destacada como Tromette pela Troma Entertainment por duas vezes.

VICE: Quem é o assassino mais sexy?
Monique Dupree: O mais sexy de uma forma estranha é o Freddy Krueger. Eu sei que a cara dele está toda queimada. Mas ele tem um jeito com as palavras e uma forma de estar muito própria. Não é bonito, mas é sexy.

Estar coberta de sangue é excitante para ti?
Completamente. Se implica estar coberta de sangue a fazer cenas nojentas, vou querer esse papel.

Predador ou presa? Qual preferes ser?
O assassino, sempre. Ajuda-me a espantar os meus demónios.

Qual seria o teu lugar numa centopeia humana?
Meu Deus! Digamos que no meio. Essa questão é muito estranha, acho que não há uma resposta correcta.


Ashley C. Williams entrou naquele filme de terror de que toda a gente falou por razões que ainda não percebemos muito bem.

VICE: Que arma dá o melhor brinquedo sexual?
Ashley C. Williams: Uma corda não é bem uma arma ou é? Até pode ser porque dá para asfixiar. Diria que uma corda é a melhor. Amarrar pessoas é sexy.

Então, curtes asfixia?
Engasganço? Sim.
Como é que preferias ser torturada?
Acho que era fixe se fosse numa experiência, tipo experiências ao cérebro numa cama. Tinha que estar amarrada para não poder mexer os braços e pernas.

Achas que sangue é sexy?
Acho que pode ser, depende. Se estiver a pingar por exemplo enquanto alguém está a foder.

Qual é o orifício mais sexy para sangrar?
Acho que não há nenhum. Só é sexy se não souberes de onde é.

Quais são as partes mais difíceis de ver em The Human Centipede?
Quando o Aki, o tipo japonês, está a cagar para a minha boca. É uma cena que ninguém quer ver.

Costumas ser abordada por pervs de terror?
Há gajos que me escrevem a dizer que gostaram muito de me ver com as mamas de fora enquanto comia merda. penso para mim “Uau, isso excita-te? Que nojo!”


Quando a Felissa Rose tinha 13 anos fez de slasher no clássico dos anos 80 Sleepaway Camp, que surpreendeu toda a gente com os seu “final da pila”.

VICE: A primeira vez que viste a tua performance em Sleepaway Camp, estavas numa visita de estudo com a tua turma do 8º ano. O que acharam os teu colegas de turma quando foi revelado que a tua personagem tinha um pénis?
Felissa Rose: Essa foi a primeira vez que eu e o resto das raparigas viu o pénis verdadeiro. Foi só pena o facto de não ser assim muito grande. Estava a segurar uma cabeça decapitada, completamente coberta de sangue. Ninguém mais se meteu comigo depois do filme.

Estar coberta de sangue é sexy?
Muito. Sou conhecida por nos cenários, pedir para me cobrirem de sangue, quanto mais melhor. O que interessa é o Gore. Mais vale desfrutar do facto de estar coberta de sangue.
Qual é o orifício mais sexy para sangrar.
Boca. Dá para cuspir.

Quem é o vilão de terror mais sexy?
O Jason, porque é enorme. Sou daquelas mulheres que prefere homens enormes. Gosto muito disso, é muito sexy.

Preferias ser o rapariga em apuros ou o assassino perseguidor?
Sou mais o assassino. Dá-me uma injecção de adrenalina quando tenho que caçar a presa ou perseguir a vitima. Não suporto a rapariga em apuros. É muito dependente. Não sou esse tipo de gaja. Sou a mulher poderosa, quero partir tudo.

Em Sleepaway Camp a tua personagem mata a rapariga oferecida com um frisador de cabelo na vagina. Na tua opinião, que arma dá o melhor brinquedo sexual?
O frisador de cabelo é uma boa opção. Mas talvez uma corda, ou uma pistola de pressão de ar.


Rachel Robbins é produto da Playboy e até tem a sua própria trading card de edição limitada. Orelhas de coelhinha é bom, mas gostamos ainda mais da actriz de filmes de terror série B coberta quando está coberta de sangue.

VICE: Entraste num filme de terror com o Ron Jeremy não foi?
Rachel Robbins: Sim, foi altamente. Ele interpretava um tipo que tinha sido feito refém numa cave. Não tinha língua, nem olhos, nem nariz, nem dedos dos pés e nem das mãos.

Foste posta em cenas de morte desde cedo na tua carreira?
Nunca morri até bem mais tarde, mas a minha cena de morte favorita é em In Search of Lovecraft. Fui sugada para dentro de um abismo por um tentáculo gigante.

Um testículo gigante?!
Não, um tentáculo!

Qual é a maneira mais sexy de morrer?
Ser sugada até à morte por um vampiro.

Até ficares tipo uva passa?
Em termos de sensação, deve dar para ficar excitada.

Há algum vilão que te excite?
Que tipo de revista é esta? Diria um dos pirilampo do House of 1000 Corpses ou The Devils Rejects, porque são tão primitivos.


Michelle Bauer é uma das divas do terror original que começou por fazer modelagem e pornografia bondage. Começou em Café Flesh, que pelos vistos é “um clássico do porno”, e depois fez cenas como Hollywood Chainsaw Hookers e Lust for Frankenstein.

VICE: Qual é a maneira mais sexy de morrer?
Michelle Bauer: Enquanto fazes sexo com um gajo todo bom! Enquanto o fazíamos alguém aparecia atrás de mim e espetava-me um machado na cabeça.

Quem é o melhor na cama: vampiro, zombie ou lobisomem?
São as únicas escolhas? O homem invisível!

Se calhar tens razão. Levas a violência dos teus filmes para o quarto?
Não, o meu marido não deixa. Perguntei-lhe se o podia vendar e algemar, mas não alinhou. Acho que não confia em mim.

Porque é que não lhe pedes que ele te faça isso para variar?
Que engraçado! Nunca tinha pensado nisso! Vai ser um fim de semana interessante.


Veronica Ricci é a miúda da Penthouse que entrou em Bloody Mary 3D como slasher à procura de vingança por ter sido esfaqueada pelo marido enquanto estava grávida.

VICE: Que vilão te excita mais?
Veronica Ricci: O American Psycho. É assustador mas deve ser bom de cama. Ou então o Bruce Campbell.

Já te vieste com algum filme de terror?
Uma vez estava a dar o Army of Darkness enquanto me estava a tocar. Foi bom se é isso que queres saber. O Bruce Campbell é alto pão.

Porque é que o sexo e a morte combinam tão bem?
Pensar na morte lembra-nos que devemos aproveitar a vida o melhor possível. E o sexo é uma maneira natural de nos sentirmos vivos. Mas se estiveres num filme de terror é melhor não teres sexo, se não morres a seguir!

Que arma dá o melhor brinquedo sexual?
Facas e pistolas são dildos de improviso clássicos, depois temos as cordas que são sempre úteis para estrangular.

E que brinquedo sexual dá a melhor arma?
Tenho um but plug decorativo com uma ponta de metal aguçada, se mandar com aquilo a alguém com força, deve fazer mossa certamente.


Shannon Lark mostrou-nos como uma histerectomia auto administrada pode ser eficaz para curar uma vagina toda trincada—formalmente diagnosticada como “vagina dentata” — na curta Lipstick. Para alem de estrela de filmes de terror, a Shannon também escreve, realiza e produz muitos dos filmes em que protagoniza.

VICE: Qual é a maneira mais sexy de morrer?
Shannon Lark: Enquanto tens relações com um cadáver. Comecei a interessar-me bastante por necrofilia ultimamente. Acho que deve ser das coisas mais nojentas que se pode fazer sexualmente.

Que arma dá o melhor brinquedo sexual?
A serra eléctrica é a minha primeira escolha. É uma escolha óbvia porque é enorme, tem um motor, e é incrivelmente letal. Costumava dançar com uma serra eléctrica.

Que mostro é melhor na cama?
Lobisomen. Quando se transformam esfarrapam uma pessoa toda, e isso é muito excitante.

Qual é a melhor maneira para ser torturado?
Ser pendurada e destruírem-me todos os orifícios no corpo. Nariz, orelhas, boca, e até os olhos. Tudo o que possa representar um buraco. Acho que seria terrível.

Excita-te estar coberta de sangue?
Depende do contexto. Em publico diria que sim. Em privado, é meio perturbante.

De todas as maneiras que morreste em filmes, qual é a tua favorita?
Gostei muito de ser violada com um frisador de cabelo.


Tiffany Shepis tournou-se numa das scream queens mais prolíferas de sempre, graças às suas aparições em filmes da Troma e trabalhos com realizadores de culto como Butcher Brothers em The Violent Kind.

VICE: Que vilão de terror te excita mais?
Tiffany Shepis: Pinhead. Com ele podes ter sessões de acupunctura à pala quando quiseres. E com os Cenobites, que fodem com uma caixa para toda a eternidade. É fabuloso.

Sexo é melhor quando se está vivo ou quando se está morto?
Um bocadinho de necromancia nunca fez mal a ninguém. Os mortos não te respondem, por isso não te dizem que não, e acho que SIDA morre com a pessoa, por isso caga na protecção. Ficamos todos a ganhar!

Achas que filmes slasher são porno hardcore para nerds agorafóbicos?
Não, são material de masturbação para os meus fãs queridos e encantadores.

Tu casaste recentemente com o realizador de terror Sean Tretta. Levas o terror para a cama?
A nossa vida de casados é bastante normal. Ao sábado à noite bebemos um vinho, acendemos velas, matamos uma virgem, esfregamos o sangue um no outro, dançamos na pele da virgem morta, temos sexo aéreo estilo Cirque du Soleil, enterramos o corpo no jardim do vizinho, e fazemos conchinha. Nada de mais.

Qual é o orifício mais sexy para sangrar?
A boca! Estar com sangue é como vestir um smoking; torna-te mais apetecível. Pensa na lubrificação extra que o sangue proporciona.

TEXTO POR EQUIPA VICE EUA


MÚSICA: MASTODON

31/10/2011

The Hunter
Reprise
Classificação: 3/10

Pois é. Após dois anos de espera por mais um trabalho de originais dos Mastodon, o sucessor de Crack The Skye é uma desilusão por inteiro. Este pesado quarteto parece que repete propositadamente a dose do seu álbum antecessor, impregnando variados efeitos de voz a roçarem algo ignóbil, parecendo quase uma tentativa falhada de ironia ou sarcasmo. Só quando Scott Kelly disponibiliza os seus dotes para “Spectrelights” é que percebemos que estes matulões não estão a gozar connosco: eles fizeram um álbum mau de uma maneira consciente e benevolente. O facilitismo é também mote para a duração das músicas ao formatarem todas as canções como singles corridos, criando a ideia de estarmos perante pop-metal. Após quatro trabalhos de originais dedicados aos quatro elementos (fogo, água, terra e ar, por esta ordem), a suposta conclusão desta saga é deveras desapontante. Mas pior do que isso é terem mandado com os porcos toda uma carreira grandiosa e única, reflectindo uma enorme divergência do que é o actual estado do metal norte-americano.

RICARDO GUIMARÃES


UMA COLECÇÃO DE SOVACOS POR DEPILAR

31/10/2011


Cá vai, uma vez mais, o nosso grude anti-clichés fotográficos. Subimos de novo à nossa torre de marfim, como fazemos sempre que queremos ser impiedosamente condescendentes com aquele tipo de foto que devia desaparecer do planeta. Hoje, como já devem ter percebido pelo título, debruçamo-nos sobre aquelas fotografias gratuitas de ti própria que apenas tiraste para provar à internet que não te vergas perante as normas de beleza contemporânea. Está muito bem terem opiniões, mas — ugh! — escondam isso, por favor.
























EQUIPA VICE UK


PASSATEMPO: BLAC KOYOTE

31/10/2011




É já na próxima quinta-feira que o José Alberto Gomes, perdão, Blac Koyote lança o seu primeiro LP. Ocasião mais que perfeita para um concerto do próprio com honras de abertura de The Astroboy, ou seja Luís Fernandes, ainda com o ego insuflado — e bem — por isto. Acontece tudo no Passos Manuel, a melhor sala de concertos da cidade do Porto, a partir das 22h00. Os bilhetes custam quatro euros, mas, se quiserem o vinilo de estreia de Blac Koyote para a vossa colecção, podem aproveitar a combo concerto+vinil e fica-vos tudo por 10 euros (as reservas fazem-se por aqui).

A malta da PAD deu-nos cinco bilhetes que vos queremos oferecer. Para isso basta que nos enviem um email com uma fotografia vossa em que nos convençam que merecem uma destas entradas à pala — o assunto deve ser o título deste post.


EQUIPA VICE


SEMANA DA MODA DOS TAMANHOS GRANDES

31/10/2011



Desta vez a Charlet viajou até Nova Iorque para curtir a Full Figured Fashion Week e a primeira coisa na agenda foi uma competição de manequins XL que tiveram, literalmente, de se arrastar pelo chão para vencer. Depois fomos a um trade show chamado Curves in the City onde conhecemos, entre outras pessoas, os autores de True Sheros, a única BD no mundo em que os heróis têm uns quilinhos a mais. A Full Figured Fashion Week não tem só que ver com moda e roupas, mas nem toda a gente fica tão entusiasmada com estes eventos: algumas mulheres que almoçam na 5.ª Avenida são da opinião que a moda plus-size devia continuar na zona mais escondida das lojas.


VICE TV


ESTÁ BEM, EU DOU UMA SEGUNDA OPORTUNIDADE À ARTE

31/10/2011



Aqui há uns tempos fiz a arte passar um mau bocado. E, como muitas pessoas aborrecidas da internet disseram, não podia estar mais errado. Por isso, e para ser justo, decidi dar à arte uma segunda oportunidade. Depois de uma leitura diagonal de todos os comentários no Reddit, para ver onde é que me podia ter enganado, fui com a minha mente recém-aberta até à Frieze Art Fair, em Londres.


Ao entrar, a primeira coisa que vi foi esta pessoa. Num dia normal, ao ver aquelas peças da Primark cobertas de vaginas esponjosas teria de lutar contra o impulso de lá ir abaná-la até à morte enquanto gritava “CRESCE, PORRA!”, mas acredito que ela tenha tinho muito trabalho para fazer aquilo. O que é que eu fiz de tão especial com a minha vida? Ficar pedrado e ver filmes gravados da box? E, mesmo que não seja bem a minha cena, deve haver pessoas por aí que gostam (certo?). E não é bom que ela se esteja a exprimir? Além de que a fatiota lhe acentua o decote das costas.


A minha primeira impressão sobre isto foi que talvez estivesse a criar uma justaposição entre logótipos de empresas e combatentes pela liberdade (?) para te fazer pensar sobre o capitalismo e assim, mas isso é um tipo de cena que eu teria feito quando tinha 15 anos e isto é uma feira internacional, por isso ESPERO BEM que não seja isso. A tela da L’Oreal é maior do que as outras duas. Se calhar estão a tentar dizer-nos que ter o cabelo limpo é mais importante do que a democracia ou falar com os teus amigos. Ou que é um direito democrático de todos ter o cabelo limpo agora? É isso que eu gosto na arte, posso encontrar muitos significados diferentes.


Esta peça falou comigo de uma forma muito mais clara. Presumo que lide com temas como sair de países como Afeganistão, Iémen, Egipto e Iraque (cara de pila). Googlei o nome da artista e descobri que tem quase 70 anos, por isso acho que não faz mal fazer este tipo de coisa. Será que faz parte da piada? Do tipo, ela obviamente pintou o que pintou para parecer primitivo e amadoro, por isso se calhar está a usar aquele nível do Rock Against Bush de propósito para fazer com que os seus objectivos também pareçam primitivos e amadores, não sei.


Neste foi mais difícil de perceber a ideia, mas tenho a certeza que um dia vou estar a lavar a loiça e de repente dizer “é isso!”.


Havia muitos néones destes. Faziam parte de uma série maior que era uma “crítica dos sinais néon através de sinais néon”. Não sei por que é que alguém havia de querer criticar os sinais néon. O que é que eles podem ter feito de mal? Ainda assim, acho que marca a diferença relativamente a artistas que passam o tempo todo a tirar fotografias preguiçosas a marcas e à Amerikkka.


Oh.


Ei, isto é uma exposição de arte ou um editorial de moda? Não fiquei na fila meia hora para ver a Graceland nazi para depois ter que levar com este estudante andrógino de Erasmus a passear com as suas calças TK Maxx (que nem sequer lhe ficam bem). Tira o braço da frente, seu anormal! Estás-te meter à frente da mensagem.


E que merda é esta agora? Estou ULTRAJADO!


É provável que tenham visto este tipo nos jornais. Está a tentar vender um par de barcos. Um deles é um super-iate que custa 60 milhões de euros se for comprado numa loja de iates normal, mas que ele está a vender por 75 milhões por vir com um certificado que o certifica como arte. Sabem que mais? Que se foda este gajo e que se foda esta ideia estúpida. Não estou só zangado por não ter pensado nisso antes, mas também porque isto é repugnante e inútil. Em vez disso não pode vir alguém e #ocupar este monte de merda? Desculpem se isso faz de mim um filisteu, mas não posso olhar para isto sem ver nada mais que um ridículo desperdício de tempo e dinheiro.


Confesso: não li o texto do artista porque era demasiado grande, mas presumo que estivesse a fazer algum tipo de comentário sobre mulheres e imagem corporal, dor e blá blá blá. Acredito que possa parecer bonito, mas não está propriamente a trazer nenhuma informação que um jornal ou um artigo da Wikipédia não traga. Estás só a pensar sobre uma coisa que já sabes. Então a ideia destes sapatos com pins é fazer-te parar e pensar, por uns segundos, como os saltos altos são uma merda? Pronto, os saltos altos são uma merda. E agora?


Este chama-se My Motherland Can Fuck Your Fatherland. Não podemos voltar a usar o MySpace para mandar para o ar visões políticas como esta? Ficava mais barato e até acho que o MySpace tem melhor aspecto do que isto.


Deixo-vos com esta peça. Uma performance de algumas pessoas chamadas Callum Hill e Adham Faramawy, sendo que o segundo, pelo que me disseram, é MUITO fixe e importante. Não vou perder tempo a perceber porquê ou o que é que pode querer dizer — porque não quer dizer merda nenhuma —, mas tudo o que precisam de saber é que estes tipos fazem exercício sem t-shirts…



… enquanto esta pobre miúda perdida foi tatuar “Frieze 2011” e “fuck it” na cabeça. Isto sim, é uma declaração artística que eu consigo perceber. Bom trabalho pessoal!


TEXTO E FOTOGRAFIA POR GLEN COCO


ELA É ENCANTADORA: ROMILY ALICE

31/10/2011


FOTOGRAFIA POR EMILY HOPE
STYLING POR SAM VOULTERS
ASSISTÊNCIA POR CHARLIE GIBBS


A Romily, 23 anos, é a vocalista da banda grunge Japanese Voyeurs, que lançou este ano o seu primeiro álbum, Yolk. Como é gira e toca guitarra há imensas miúdas na internet que querem ser como ela. A Romily passou o Verão a andar de carro pela Europa com a banda na promoção do álbum de estreia — ir de avião seria demasiado caro por causa de todo o material — e gosta de ler Mervyn Peake, o que é estranho já que não há ninguém que goste de ler Mervyn Peake.

Top Soo Jin Lee, calças de fato de treino Nike.

À esquerda: top Volcom, calções vintage adidas, botas Dr. Martens, meias Umbro, blusão Lacoste (na janela). À direita: top vintage, sapatilhas Converse, colar vintage, roupa interior Calvin Klein.

T-shirt Vans, chapéu e colar vintage.

Top American Apparel, jardineiras Monki, sapatilhas Converse, boné vintage.


CABELOS, CORTE E COSTURA: NOS BASTIDORES DO PORTUGAL FASHION

28/10/2011



O Portugal Fashion terminou no fim-de-semana passado, mas precisava de me distanciar — sacudir as purpurinas do casaco, fazer um jejum de glamour e preparar-me para enfrentar a folha de papel (que é como quem diz ecrã). No primeiro dia, cheguei à Alfândega com a Luísa Cativo e apressámo-nos a levantar as nossas credenciais de imprensa. Era bom poder escrever “imprensa” com algum tipo de brilho, a reluzir, como uma palavra mágica sinónimo de poder. Quem, numa semana de moda, tem uma credencial e uma máquina fotográfica na mão é o rei e o pavor daqueles que vão a este tipo de eventos não propriamente para ver as modas, mas para ser a moda.





Fiquei com a sensação de que não houve fashion bloguer algum que não tivesse marcado presença. Os olhares poseurs perseguiam-nos e quase dava para ouvir o que pensavam. “Já viste como estou tão bem vestido? não me queres fotografar?” Precisávamos sair dali, rapidamente. Foi então que encontrei a designer Andreia Oliveira, calma e descontraída, que nos convidou, a uma hora do seu desfile, para visitar o seu backstage. Quando lá chegamos o ambiente, pasme-se, era calmo e organizado. Manequins descontraíam sentados no chão, ao mesmo tempo que outros experimentavam sapatos ou preparavam os seus bonitos cabelos.





Ficámos por ali um pouco, a apreciar as manequins da Andreia e pensei que assim sim, vale a pena assistir a eventos como este, onde novos e talentosos designers exibem a sua arte e perspectiva do que é a moda e as roupas, essa “armadura para enfrentar o dia a dia”, como dizia o Bill Cunningham. Aqui nos bastidores, conseguia-se respirar o ar puro da entrega total à arte e sentir o fervilhar criativo nas roupas penduradas nos chariots, prontas para desfilar. Ah, e não, não nos deixaram fotografar as modelos enquanto estavam a ser vestidas, com muita pena nossa. Nós tentamos, juro.






Não é a primeira vez que a Luísa e eu vamos ao Portugal Fashion. Não é a primeira vez que aceitamos o desafio de melhorar as nossas competências de fazer conversa fiada, esperar horas a fio de pé, percorrer os corredores da Alfândega a entrevistar pessoas ou a morrer de tédio. Não é a primeira vez que preterimos os grandes desfiles aos desfiles do (abençoado) espaço Bloom. E certamente não foi a última vez que nos refugiámos no backstage. Quanto mais não seja, porque ali, as vistas são bem mais agradáveis.


TEXTO POR ANA RITO
FOTOGRAFIA POR LUÍSA CATIVO E TINA ŠKRLJ


EXPOSIÇÃO: H DE HIPSTER

28/10/2011



Gozar com hipsters tem piada porque nos faz sentir bem, acalma as nossas dúvidas quanto a escolhas estéticas menos exuberantes e, por último, porque já não é politicamente correcto gozar com os alvos do costume — negros e gays —, mas ser hipster é uma escolha. Por isso, pior para ti, para mim e para todos os que têm uns Wayfarer, sejam eles verdadeiros ou de imitação.

Mas isto das piadas é para o pessoal parvo, a malta mais séria faz estudos sociais ou, ainda melhor, arte. É o caso dos colectivos Round Square e Salão Coboi, que se juntaram para criar esculturas num projecto a que chamaram Generation H. Ligámos ao Markus Ley, do Round Square e RP da VICE em Lisboa, para falarmos um bocado sobre o porquê de tudo isto.

VICE: Olha, tentei ligar-te, mas tinhas o telemóvel desligado.
Markus Ley: Devia estar sem rede.

O que é isto da Generation H?
Generation H é o resultado da junção criativa entre os colectivos Round Square e Salão Coboi, que definem e retratam a geração que se descobre na pesquisa intensa e na absorção imediata de qualquer tendência estética que surja nas diferentes sub-culturas, sob a forma de culto.

Uau, isso parece importante.
O projecto materializa-se através de cinco “monstros”, esculturas, com aproximadamente 25 centímetros de altura, que estão vestidos dos pés à cabeça com peças retiradas das colecções Outuno-Inverno 2011 de vários criadores e marcas. Atenção que amanhã, na inauguração, serão apresentados apenas quatro destes montros — o último foi de férias e só volta a meio da exposição.

Então vão só ser esculturas de barbas, sapatilhas Vans, Ray-Bans e calças apertadas? Ou isso é muito 2010?
Quando começámos a desenvolver o conceito, optámos por direccioná-lo para um segmento mais contemporâneo e premium. Por isso, as peças escolhidas estão mais situadas no universo do hi-end fashion, tipo Jil Sander, Martin Margiela, Givenchy, Raf Simons, etc. Apesar de haver presença de elementos mais urbanos como Kaws ou mesmo Sperry.

Como é que tiveram a ideia? Estavam a ler o HipsteRunOff?
Ahah, não. A ideia surgiu pela necessidade de ilustrar todo um trabalho diário de partilha que temos vindo a fazer online no nosso site. Sinto que temos vindo a desenvolver uma estética própria, daí estarmos a tentar transportá-la para um campo mais artsy com a ajuda do Salão Coboi. Engraçado como toda esta brincadeira à volta do hipsterismo surgiu quando os primeiros esboços começaram a ser feitos porque, na verdade, é uma realidade muito presente na vivência cosmopolita. Há cada vez mais interesse pela absorção directa das tendências porque estas também passam mais rápido, devido à circulação massiva de informação.

Quem ganha num duelo de hipsterismo: Round Square ou Salão Coboi?
Pela lógica do meu discurso na resposta anterior vou ter de ceder e atribuir o prémio ao Round Square.

As esculturas vão estar à venda? Gastei o meu último salário em duas camisas da Fred Perry, de modo que estou meio liso, mas, por curiosidade, estamos a falar de que preços?
Cada escultura custará 250 euros. Estarão disponíveis na Galeria Dama Aflita, entre 29 de Outubro e 3 de Dezembro.

Queres destacar alguma?
São todas muito diferentes e detalhadas. Não faz sentido haver destaques porque gostos não se discutem e cada pessoa identificar-se-á mais com aquela que estiver mais próxima do seu universo estético.


EQUIPA VICE


FUI GUIA TURÍSTICO DE UM PIRATA SUECO

28/10/2011



Conheci o Peter na quinta-feira da semana passada, dois dias antes de ele ter falado no Future Places. Fui ter com ele ao Teatro Hotel, um dos hotéis mais sombrios do Porto, para irmos almoçar. Como era a primeira vez que visitava Portugal, pensei fazer a coisa mais normal e levá-lo a comer uma francesinha e a beber um bom vinho, mas pelos vistos o gajo não come carne nem bebe álcool.

É uma coisa de que te apercebes depois de estares um dia com ele: o Peter é um fundamentalista do pior. Em todos os aspectos. Implica pelos portugueses continuarem a fumar em todo o lado, implica com as rádios nos cafés por passarem música pop e ficou indignado pelo facto do Maus Hábitos ter o “TM”, de trademark, à frente do seu logótipo. Ainda fez questão de, durante os debates, se sentar à esquerda do público apenas porque ideologicamente é de esquerda. É um tipo simpático, mas às vezes parece um misto de velho misantropo com miúdo do punk zangado com o mundo. Quando lhe agradeci pelo facto do Pirate Bay me ter enriquecido culturalmente, por me dar acesso a filmes que nunca poderia ter visto de outra forma, ele disse-me: “Peço desculpa por isso, porque não és tu que escolhes os filmes que gostas, Hollywood escolhe por ti.” (Nunca pensei que Hollywood estivesse tão interessada em que eu visse o Flesh Gordon Meets the Cosmic Cheerleaders ou filmes da Troma e do Corman) No sábado, no Maus Hábitos, apanhou-me a comer uma tosta mista e deu-me logo um sermão: “Mais valia comeres fatias de Khadafi, que era uma pessoa má. O pobre porco não fez mal a ninguém!” Combinei com ele que, se ele me arranjasse uma tosta de Khadafi, eu comeria.

Antes disso, no dia em que o conheci, acabámos por almoçar no Paladar da Alma. Enquanto comíamos, o Peter falou-me de como o Julian Assange era um idiota por estar sempre a pedir dinheiro a toda a gente, mas, segundo o Peter, usar esse dinheiro apenas para se promover e não para fazer aquilo a que o Wikileaks se propôs: trazer mais transparência aos governos. O Peter acha que o Assange tem ignorado o Bradley Manning, o soldado americano que divulgou todos aqueles faxes das embaixadas e que agora está à espera de ser julgado em tribunal marcial. E também não aconselha o pessoal a divulgar informação confidencial ao Wikileaks porque aquilo agora está demasiado vigiado.

Perguntei-lhe se achava que a história do Assange ter violado duas mulheres era verdade ou apenas uma armadilha para o condenarem ou sujar a imagem dele. “Naaaa, o gajo é só um idiota”, respondeu-me. “Teve relações sexuais com duas mulheres suecas que mais tarde pediram-lhe testes a doenças sexualmente transmissíveis e, por lei, ele era obrigado a fazê-los e recusou-se. Mas é assim que ele trata as mulheres.” Desculpem, paranóicos, parece que a culpa não é mesmo da CIA.

O Luís quis divertir o seu novo amigo e começou a contar piadas de dinamarqueses, mas trocou as nacionalidades e acabou por gozar com a família real sueca.


Piratas pela liberdade de expressão

É normal pensarmos no Pirate Bay apenas como o lugar onde vamos sacar o último PES ou novos episódios da Teoria do Big Bang, mas a verdade é que há todo um movimento político-ideológico por trás do site. Tudo começou, na Suécia, em reacção ao Gabinete Anti-Pirataria, criado pelos estúdios de Hollywood para proteger os direitos de autor. “Diziam que estávamos a perder 16% do PIB por causa da pirataria e mentiras desse género que a imprensa engolia”, explicou-me, “por isso criámos o Gabinete da Pirataria, a ideia foi pegar no nome deles e tirar o ‘anti’ para mostrar-lhes que podíamos fazer remisturas e criar algo melhor do que o original”. Depois, “quando o Gabinete começou a crescer, tinha já 60 pessoas a trabalhar” e acharam que seria “boa ideia ter um site de partilha”, por isso adoptaram o sistema Bittorrent, “que era recente na altura.”

O Peter trabalhou com eles essencialmente como porta-voz, mas os outros dois fundadores do Pirate Bay, o Gottfrid Svartholm e o Fredrik Neij, são também os donos da PRQ, um fornecedor de acesso à internet que hospeda sites que mais ninguém tem coragem de hospedar. “Temos levado muito na cabeça por defendermos a liberdade de expressão a todo o custo.” O Peter destaca dois sites especialmente polémicos. “O primeiro a nos dar problemas foi o do Kavkaz, o movimento rebelde da Chechénia, que organiza toda a sua actividade através da internet. Eles tinham o site hospedado na Rússia, mas como a sua mensagem era anti-Rússia e pró-Chechénia, saíram de lá para fugir à repressão. Por isso, antes dos Estados Unidos nos perseguirem por violação dos direitos de autor, o Kremlin já andava atrás de nós.” A Rússia conseguiu deitar abaixo o site por duas vezes, mas o PRQ recusou-se sempre a divulgar qualquer informação sobre os seus clientes e o site continua de pé. “Depois tivemos problemas com uma associação de pedófilos, que usavam um site para explicar apenas o que era ser pedófilo e como eles viviam com esse problema. Acima de tudo avisava as pessoas sobre como os impedir de fazer algo errado, não divulgava pornografia infantil nem nada parecido. Mas muita gente apresentou queixa à polícia.”

Em 2009, o Peter e os outros fundadores do Pirate Bay foram condenados a um ano de prisão por facilitarem a partilha ilegal de ficheiros, mas até agora conseguiram ficar fora das grades. “Pedimos recurso e estamos à espera de uma resposta do Supremo Tribunal sueco. Temos 99,999% de hipóteses do Supremo pegar no caso, mas como não é uma prioridade para eles, o caso vai empatando.” No caso de ser condenado já tem um plano de fuga. Afinal, o Lula da Silva ofereceu-lhe pessoalmente asilo, já que não existe protocolo de extradição entre o Brasil e a Suécia.

Acho que aqui estávamos a agradecer ao Peter por ter feito parte de um site que já nos deu tantas alegrias (e momentos a sós com qualidade). Ele ficou um pouco corado (para o padrão sueco, claro).

O Peter deixou o Pirate Bay pouco depois da sentença ser lida porque ser um pirata lhe roubava demasiado tempo. “Voltava do meu trabalho e passava mais oito horas a trabalhar no Pirate Bay, a falar com a imprensa, a lidar com problemas no site ou com as coisas do julgamento.” Agora vive em Berlim, onde fundou o Flattr, um sistema de micro-pagamentos que funciona de forma semelhante aos likes no Facebook. O Peter diz que é uma forma de compensar os bloguers ou artistas que disponibilizam o seu trabalho de forma gratuita na internet. “Mesmo que só ganhem um euro ou três cêntimos, a maioria das pessoas que o usa nunca ganha dinheiro nenhum com a sua arte. É uma forma de apoiar o pessoal do open software e da open culture. Não é uma forma da Britney Spears se sustentar, mas sim de apoiar o resto dos artistas.”

Apesar do Pirate Bay ter inspirado partidos pirata por toda a Europa (inclusive Portugal, o Peter diz que nunca se envolveu em nenhum desses partidos e que nem sequer votou neles. “Sou militante dos Verdes na Suécia e defendo coisas mais importantes do que apenas o fim dos direitos de autor. Preocupo-me com questões ambientais e com os direitos dos animais, logo acho os partidos piratas um pouco limitados.” Depois do almoço fomos acordar a Elizabeth Stark, da Open Video Alliance, que também foi convidada pelo Future Places. Ela dá aulas em Stanford e tinha vindo de São Francisco, por isso, por causa do jet lag, já dormia há quase 14 horas e o Peter estava a começar a ficar preocupado. Demorámos aí uns 15 minutos a tirá-la do quarto. Quando finalmente acordou fomos fazer a coisa turística que faltava: a viagem pelo Rio Douro (sem visita às caves, porque o Peter não bebe). No caminho todo entre o hotel e a Ribeira, o Peter tentou-me arranjar noiva, apontando sempre que via alguma rapariga que ele achava que se enquadrava no meu estilo. “Tu disseste que querias dois filhos, não foi Luís? Acho que aquela aguentava bem com isso.”

Este estudante brasileiro da FBAUP também quis tirar uma foto com o Peter, mas, como não tinha máquina, a VICE fez-lhe o favor. Já o Peter esqueceu-se que, segundo ele próprio, não pode brincar de nigga sendo sueco.

Durante a viagem, um casal de espanhóis pediu-me para lhes tirar uma foto e o Peter aproveitou logo para mandar a piadola: “Devias cobrar, porque agora és tu quem tem os direitos de autor.” A Elizabeth falou o tempo todo do #OccupyWallStreet, mas dava a ideia que só queria estar lá por ser o evento de esquerda do momento, não por razões ideológicas muito fortes. Ela é uma hipster que odeia hipsters. Diz que ninguém nos EUA curte a VICE, porque é cena de hipster, mas é snobe ao ponto de dizer algo tão elitista como “não sou americana, sou nova-iorquina” e de gozar comigo por ainda ler revistas e livros: “Uau, tu ainda lês sem ser em formato digital?”

Acabada a viagem, eles quiseram ir a um hackerspace cá no Porto. Procurei no telemóvel qual era o mais próximo e acabámos a subir a Rua da Fábrica Social, a caminho da Es.col.a do Alto da Fontinha, um espaço ocupado que funciona praticamente como um ATL anárquico. Vimos logo onde era pelo esqueleto gigante e pela bandeira de pirata que lá estava hasteada. Todas as quintas-feiras organiza-se lá um hackerspace chamado Hacklaviva!. Ficámos algum tempo à espera que o resto do pessoal chegasse, enquanto uns miúdos estouravam foguetes mesmo ao nosso lado. Depois chegou o Ricardo, um dos organizadores do Hacklaviva!, com mais dois amigos que traziam peças de computador. O Ricardo fez-nos uma visita guiada pelas instalações, mas acabou por não haver grande hacking, porque ele não conseguiu encontrar as chaves do armazém onde tinham todo o material. Acabaram por ficar a consertar um computador e o Peter deu-lhes umas dicas.

O brasileiro das Belas Artes desenhou este retrato do Peter, mas não ficou muito parecido porque ele não usa pala.

O Peter sentiu-se em casa. Contou-me que teve o seu primeiro computador aos nove anos e diz que vem daí a cena de pirata, já que em 1987 o único software que ele conseguia arranjar era copiado, logo sem licença. Ele é um autodidacta, não chegou sequer a acabar o ensino secundário, mas, como percebia tanto de informática, foi contratado como responsável pela manutenção dos computadores na mesma escola onde devia estudar.

Em Portugal ficámos sem Blockbuster, Valentim de Carvalho e muitas outras lojas de música ou clubes de vídeo tradicionais. Certo que a culpa não é só da pirataria, o pessoal agora também pode comprar música e vídeo através do iTunes e do Meo, mas todos preferimos as coisas de graça. O Peter, no entanto, não sente remorsos pelo pessoal que ficou desempregado graças ao Pirate Bay. “Isso seria como culpar os vendedores de frigoríficos por terem levado os vendedores de gelo à falência. As pessoas já não querem comprar CDs ou DVDs, pedaços de plástico que até são pouco práticos de transportar — preferem as coisas em formato digital, como o MP3.”

É verdade. A evolução tecnológica tornou a cultura tão aberta que já nem sequer se consegue fazer dinheiro com a pirataria. Entre 2001 e 2002 eu e o meu irmão fomos os padrinhos do tráfico ilegal de CD-Rs em Ponte da Barca. Fomos dos primeiros a ter gravador de CDs no desktop, por isso durante um ano tivemos o monopólio: cinco euros por CD com um jogo, álbum ou filme, tudo sacado do eMule (o Pirate Bay ainda não tinha aparecido). Chegávamos a sacar coisas parvas que nem gostávamos, mas que sabíamos que vendiam bem, como o DVD do Fernando Rocha, e guardávamos tudo em cilindros de CDs gigantes. Isso durou um ano ou até menos. Agora tenho o gravador de CDs do portátil avariado e nem sinto falta dele. Quando o disco está cheio, faço back-up para o disco externo ou apago o ficheiro e volto a descarregar quando preciso.

Toda a gente faz downloads ilegais agora, novos e velhos, ricos e pobres, de esquerda ou de direita. O Peter até diz que, segundo os dados do site, no Parlamento Europeu são os deputados de direita (muitos dos quais promovem leis anti-pirataria) que mais visitam o site. A insistência dos estúdios e das editoras em quererem controlar todo o material que criam já não faz sentido e o Pirate Bay prova que, com a internet, esse controlo é impossível. Mesmo que o Peter e os amigos sejam presos, o Pirate Bay dificilmente será fechado, porque os servidores estão em parte incerta. E, mesmo que feche, existem muitos outros sites para sacar torrents. Insistir na limitação do acesso das suas obras aos consumidores só levará a que estes se revoltem ainda mais contra o sistema. As empresas são a estrada, não o rolo compressor.


TEXTO POR LUÍS LAGO
FOTOGRAFIAS DA MÁQUINA DO DAVID PINHEIRO SILVA