
Trabalhar no “lugar mais feliz do planeta” é, na verdade, uma cena tramada. Quem diria? Durante três anos, o meu amigo M trabalhou na Disney, em Paris e em Orlando, no departamento de marketing e a fazer de Aladino (ele é porto-riquenho) e de Tigre. Pedimos-lhe para nos levar numa visita guiada pelos detalhes mais curiosos do que é trabalhar para uma das maiores, e, como podem imaginar, mais intensas empresas no mundo, desde testes psicológicos, a túneis subterrâneos, a ficar ensopado na nossa própria urina. Aqui fica o que ele me contou:
Staff
Vamos lá ver se isto fica bem claro: as pessoas que trabalham na Disney não são jovens. Não são adolescentes, são homens e mulheres adultos, cujas paredes de casa estão cobertas de posters e sabem as falas de todos os filmes. Para eles, é o Matrix, são os The Sims, é o Second Life e tudo o resto não é verdadeiro. Vivíamos num condomínio fechado onde, para entrar, era preciso ter um cartão da Disney e estávamos sob ameaça constante de sermos despedidos. Havia uma política de tolerância-zero para bebidas alcoólicas. Eu costumava dar-me com os mexicanos, os escoceses e os japoneses. Eram os mais divertidos de todos os que trabalhavam no parque. Partilhava um apartamento com um chinês, um japonês, um marroquino, um inglês e um norte-americano. Como o centro Epcot alberga actores de todo o mundo, não vivíamos com o staff local. Era um experiência semelhante a viver num dormitório internacional. Os melhores empregos eram os de apoio ao cliente (ajudar os visitantes quando tivessem dúvidas, dar-lhes informações, indicações, etc.). Quem fazia de personagens odiava quase toda a gente porque tinham os trabalhos mais cobiçados e o pessoal andava sempre a tentar ficar com eles. Quase toda a gente odiava as personagens por inveja, ciúmes, sei lá mais o quê… O staff internacional odiava os franceses e os americanos. Eu, pessoalmente, odiava os alemães.

Treino
Há planos para se fundar uma universidade Disney e já se pode tirar cursos de atendimento ao cliente, cursos para aprender a sorrir, cursos de línguas e “Duck-trines” em vez de “Doctrines”. Sim, eu tenho uma “Duck-trine” e não me orgulho nada disso. Depois, fazem um tipo de cena em que chegamos à sala onde é suposto termos formação e o instrutor está atrasado e um gajo começa-se a queixar do atraso e de tudo e de todos. Mas, na verdade, esse gajo é o formador disfarçado e está a tentar avaliar a nossa capacidade psicológica de lidar com a confusão e com o stress. Está a tentar fazer com que decidamos ir embora ou com que nos queixemos da Disney. Está a tentar descobrir se temos o instinto de ser 100% profissionais em qualquer ocasião. É uma loucura, porque chegamos mesmo ao ponto de estar quase a dizer: “Ya, isto é uma merda” e um segundo antes de cedermos, o gajo vira-se e diz: “Bom, eu sou o Steve, sou o vosso formador e trabalho para a Disney.” E toda a gente começa a bater palmas porque acham o teste genial.
Túneis Subterrâneos
Na Disney há o castelo e tudo aquilo a que os visitantes têm acesso e depois, para os empregados, há túneis subterrâneos que percorrem o parque todo. Como empregado, os visitantes não me podem ver a andar por aí. 30% do nosso dia é passado debaixo de terra, dentro de túneis, como um hamster. É como o livro “As Crisálidas”, de John Wyndham, onde as pessoas podem viver felizes no exterior, mas, no subsolo, só há problemas. No primeiro dia em que lá trabalhei, fizeram-me uma visita guiada e vi a Cinderela sem a peruca, a fumar um cigarro e a queixar-se do quão cansada estava. Depois, é vê-la subir ao mundo, toda feliz, com os miúdos a tirarem-lhe fotos, logo a seguir a tê-la visto a dizer “odeio a minha vida.”
Trabalhar como Personagem
Os miúdos andam sempre atrás de nós a fazer-nos as mesmas perguntas. “Posso andar no teu tapete mágico?” “Posso falar com o Génio?” “És mais rápido que o Tarzan?” Nunca tive vontade de fazer mal a uma criança. Mas aos pais… aos pais, sim. Olhava para eles e, sempre a sorrir, imaginava mil formas de os empurrar para dentro da lagoa ou de os espancar com o meu macaco falso. Os pais que estragam os filhos com mimos são criaturas doentias e malvadas e nós odiávamo-los. Eram impacientes e mal-educados e muito deles eram alemães gordos e feios.

Em Caso de Doença ou Emergência
No exacto momento em que se tem de despir um disfarce porque alguém se está a sentir mal e precisa de respirar, a magia desvanece-se e as crianças ficam traumatizadas. Durante a nossa formação sobre a Disney, que dura quase uma semana inteira, é-nos deixado bem claro que a magia tem de ser sempre preservada, por isso é melhor que consigas aguentar-te, porque se não, nem vale a pena fazê-lo. Aconteça o que acontecer, não se pode sair da personagem. Claro que isso significa que acontece as pessoas desmaiar, ficar desidratadas, vomitar e urinar dentro dos fatos—são obrigadas a isso. Uma vez, vi o Ursinho Pooh a desmaiar e a pessoa que estava ao microfone começou a dizer: “Oh, vejam o Ursinho Pooh está a dormir” e os miúdos foram lá ter com ele, fazer-lhes festinhas e abraçar-se a ele. Depois, vieram outras personagens ter com ele, pegaram-no e levaram-no embora. Entretanto, estava uma ambulância à espera fora do parque. É um bom método de agir.
Crianças Desaparecidas
Nos bastidores, tudo funciona como uma milícia bem oleada. Tipo a forma como eles lidam com as crianças perdidas: rápida, imediata e estratégica. Digamos que tens quatro anos, estás perdido, e um empregado encontra-te e localiza os teus pais. Em vez de ser o empregado a levar-te aos teus pais, vão buscar o Mickey, que te pega pela mão e diz: “Segue-me” e te leva aos teus pais. Para o resto da tua vida, quem é que te salvou? O Mickey. Há de ser sempre o teu herói.

Atendimento ao Cliente
Por mais anos que viva, nunca me vou esquecer deste episódio: o Peter Pan deu um estalo a uma mãe. O filho dessa senhora estava na fila à espera para receber um autógrafo, mas estava na hora do intervalo do Peter Pan e ele estava prestes a sair. A mãe agarrou no Peter Pan pelo braço e a mãe disse: “Não sais daqui.” O Peter Pan passou-se e deu uma chapada à mãe, mesmo em frente o puto. O miúdo ficou desolado. O Peter Pan foi despedido imediatamente e a família teve direito a uma semana grátis no parque, hospedados no melhor hotel. É impossível ter-se uma má experiência na Disney. Tudo é perfeito e é mesmo assim que tem de ser, porque é isso que eles nos vendem: uma experiência. Por isso, se alguma vez trabalharem para eles, preparem-se para se entregarem de corpo e alma.
RELATADO A KARA CRABB
ILUSTRAÇÕES POR KARA CRABB