VICELAND HOJE - 07/2011



FOMOS DE FÉRIAS, XAU AÍ!

29/07/2011

Ei leitores:

só para avisar que o nosso blogue vai de férias. Não contem connosco até ao final de Agosto. Não vamos responder a mails, não vamos atender telefones e não queremos saber dos vossos comentários para nada. Voltamos em Setembro com cenas novas para contar (e totalmente recuperados).

Com muito carinho,

EQUIPA VICE


MÚSICA: BLACK LIPS

29/07/2011

Arabia Mountain
Vice
Classificação: 8/10

black-lips-arabia-mountain11-550x550Temia-se o pior. Por um lado, Arabia Mountain, o novo dos Black Lips, era produzido por Mark Ronson, produtor da moda que costuma trabalhar com gente insuspeita, tipo a falecida Amy Winehouse, Robbie Williams, Kaiser Chiefs… Por outro, 200 Million Thousand, de 2009, já não era propriamente brilhante. Isto para já não falar daquela capa. Contudo, as dúvidas dissipam-se com os primeiros acordes de “Family Tree”: Mark Ronson não conseguiu domar os Black Lips. Aliás, Arabia Mountain (co-produzido por Lockett Pundt, dos Deerhunter) só não é o melhor álbum deles porque tem alguma palha—é impossível manter a consistência ao longo de 16 faixas. Mas quando acerta, acerta mesmo, e não se fica pelo garage rock: ouvimos qualquer coisa de Big Star em “Spidey’s Curse”, “Raw Meat” podia ser um inédito dos Ramones, os Blue Cheer vivem em “You Keep On Running”. É assim que se faz um disco de rock sem merdas.

LUÍS FILIPE RODRIGUES


DE PÉS E MÃOS NO AR

29/07/2011


Miguel Refresco—um fotógrafo sem medo de perder a câmara—não hesitou em atirar-se para o meio da multidão para documentar a mixórdia de pés, braços, mãos e expressões de pânico/felicidade que caracterizam um bom crowdsurf. Tudo isto ainda no Milhões de Festa, claro.





























FOTOGRAFIAS POR MIGUEL REFRESCO


EPICLY LATER’D: RICKY OYOLA - PARTE 5

29/07/2011




No último episódio deste Epicly Later’d dedicado ao Ricky Oyola, ficamos a saber que gerir uma empresa com base num estilo único de skate não é nem muito simples nem muito lucrativo. Ricky fala-nos também das semelhanças entre ele e o resto da sua equipa e termina a série dizendo algo muito verdadeiro e muito honesto.


UM RAPAZ E O SEU CÃO

29/07/2011


FOTOGRAFIAS POR EDOUARD PLONGEON
STYLING POR MARINE BRAUNSCHVIG
Modelo: Jethro Cave

Cardigan Fabrics Interseason, Casaco de cabedal Blaak, calças Marithé + François Girbaud, anéis e sapatos agnès b.;

Casaco agnès b., leggings Olivier Borde, pulseira Acne, anéis agnès b., sapatos Thomas Engel Hart;

Calças de cabedal Blaak, pulseira Acne;

T-shirt Blaak, casaco Blaak, calças Acne, pulseira Acne, anéis agnès b.;

Calças Blaak, pulseira Acne;

Casaco Marithé + François Girbaud, T-shirt vintage, pulseira Acne;


A DISNEYLAND É PERFEITA

28/07/2011



Trabalhar no “lugar mais feliz do planeta” é, na verdade, uma cena tramada. Quem diria? Durante três anos, o meu amigo M trabalhou na Disney, em Paris e em Orlando, no departamento de marketing e a fazer de Aladino (ele é porto-riquenho) e de Tigre. Pedimos-lhe para nos levar numa visita guiada pelos detalhes mais curiosos do que é trabalhar para uma das maiores, e, como podem imaginar, mais intensas empresas no mundo, desde testes psicológicos, a túneis subterrâneos, a ficar ensopado na nossa própria urina. Aqui fica o que ele me contou:

Staff
Vamos lá ver se isto fica bem claro: as pessoas que trabalham na Disney não são jovens. Não são adolescentes, são homens e mulheres adultos, cujas paredes de casa estão cobertas de posters e sabem as falas de todos os filmes. Para eles, é o Matrix, são os The Sims, é o Second Life e tudo o resto não é verdadeiro. Vivíamos num condomínio fechado onde, para entrar, era preciso ter um cartão da Disney e estávamos sob ameaça constante de sermos despedidos. Havia uma política de tolerância-zero para bebidas alcoólicas. Eu costumava dar-me com os mexicanos, os escoceses e os japoneses. Eram os mais divertidos de todos os que trabalhavam no parque. Partilhava um apartamento com um chinês, um japonês, um marroquino, um inglês e um norte-americano. Como o centro Epcot alberga actores de todo o mundo, não vivíamos com o staff local. Era um experiência semelhante a viver num dormitório internacional. Os melhores empregos eram os de apoio ao cliente (ajudar os visitantes quando tivessem dúvidas, dar-lhes informações, indicações, etc.). Quem fazia de personagens odiava quase toda a gente porque tinham os trabalhos mais cobiçados e o pessoal andava sempre a tentar ficar com eles. Quase toda a gente odiava as personagens por inveja, ciúmes, sei lá mais o quê… O staff internacional odiava os franceses e os americanos. Eu, pessoalmente, odiava os alemães.


Treino
Há planos para se fundar uma universidade Disney e já se pode tirar cursos de atendimento ao cliente, cursos para aprender a sorrir, cursos de línguas e “Duck-trines” em vez de “Doctrines”. Sim, eu tenho uma “Duck-trine” e não me orgulho nada disso. Depois, fazem um tipo de cena em que chegamos à sala onde é suposto termos formação e o instrutor está atrasado e um gajo começa-se a queixar do atraso e de tudo e de todos. Mas, na verdade, esse gajo é o formador disfarçado e está a tentar avaliar a nossa capacidade psicológica de lidar com a confusão e com o stress. Está a tentar fazer com que decidamos ir embora ou com que nos queixemos da Disney. Está a tentar descobrir se temos o instinto de ser 100% profissionais em qualquer ocasião. É uma loucura, porque chegamos mesmo ao ponto de estar quase a dizer: “Ya, isto é uma merda” e um segundo antes de cedermos, o gajo vira-se e diz: “Bom, eu sou o Steve, sou o vosso formador e trabalho para a Disney.” E toda a gente começa a bater palmas porque acham o teste genial.

Túneis Subterrâneos
Na Disney há o castelo e tudo aquilo a que os visitantes têm acesso e depois, para os empregados, há túneis subterrâneos que percorrem o parque todo. Como empregado, os visitantes não me podem ver a andar por aí. 30% do nosso dia é passado debaixo de terra, dentro de túneis, como um hamster. É como o livro “As Crisálidas”, de John Wyndham, onde as pessoas podem viver felizes no exterior, mas, no subsolo, só há problemas. No primeiro dia em que lá trabalhei, fizeram-me uma visita guiada e vi a Cinderela sem a peruca, a fumar um cigarro e a queixar-se do quão cansada estava. Depois, é vê-la subir ao mundo, toda feliz, com os miúdos a tirarem-lhe fotos, logo a seguir a tê-la visto a dizer “odeio a minha vida.”

Trabalhar como Personagem
Os miúdos andam sempre atrás de nós a fazer-nos as mesmas perguntas. “Posso andar no teu tapete mágico?” “Posso falar com o Génio?” “És mais rápido que o Tarzan?” Nunca tive vontade de fazer mal a uma criança. Mas aos pais… aos pais, sim. Olhava para eles e, sempre a sorrir, imaginava mil formas de os empurrar para dentro da lagoa ou de os espancar com o meu macaco falso. Os pais que estragam os filhos com mimos são criaturas doentias e malvadas e nós odiávamo-los. Eram impacientes e mal-educados e muito deles eram alemães gordos e feios.


Em Caso de Doença ou Emergência
No exacto momento em que se tem de despir um disfarce porque alguém se está a sentir mal e precisa de respirar, a magia desvanece-se e as crianças ficam traumatizadas. Durante a nossa formação sobre a Disney, que dura quase uma semana inteira, é-nos deixado bem claro que a magia tem de ser sempre preservada, por isso é melhor que consigas aguentar-te, porque se não, nem vale a pena fazê-lo. Aconteça o que acontecer, não se pode sair da personagem. Claro que isso significa que acontece as pessoas desmaiar, ficar desidratadas, vomitar e urinar dentro dos fatos—são obrigadas a isso. Uma vez, vi o Ursinho Pooh a desmaiar e a pessoa que estava ao microfone começou a dizer: “Oh, vejam o Ursinho Pooh está a dormir” e os miúdos foram lá ter com ele, fazer-lhes festinhas e abraçar-se a ele. Depois, vieram outras personagens ter com ele, pegaram-no e levaram-no embora. Entretanto, estava uma ambulância à espera fora do parque. É um bom método de agir.

Crianças Desaparecidas
Nos bastidores, tudo funciona como uma milícia bem oleada. Tipo a forma como eles lidam com as crianças perdidas: rápida, imediata e estratégica. Digamos que tens quatro anos, estás perdido, e um empregado encontra-te e localiza os teus pais. Em vez de ser o empregado a levar-te aos teus pais, vão buscar o Mickey, que te pega pela mão e diz: “Segue-me” e te leva aos teus pais. Para o resto da tua vida, quem é que te salvou? O Mickey. Há de ser sempre o teu herói.


Atendimento ao Cliente
Por mais anos que viva, nunca me vou esquecer deste episódio: o Peter Pan deu um estalo a uma mãe. O filho dessa senhora estava na fila à espera para receber um autógrafo, mas estava na hora do intervalo do Peter Pan e ele estava prestes a sair. A mãe agarrou no Peter Pan pelo braço e a mãe disse: “Não sais daqui.” O Peter Pan passou-se e deu uma chapada à mãe, mesmo em frente o puto. O miúdo ficou desolado. O Peter Pan foi despedido imediatamente e a família teve direito a uma semana grátis no parque, hospedados no melhor hotel. É impossível ter-se uma má experiência na Disney. Tudo é perfeito e é mesmo assim que tem de ser, porque é isso que eles nos vendem: uma experiência. Por isso, se alguma vez trabalharem para eles, preparem-se para se entregarem de corpo e alma.

RELATADO A KARA CRABB
ILUSTRAÇÕES POR KARA CRABB


GÉMEOS, SKATERS E FOFINHOS

28/07/2011



A primeira vez que vi estes miúdos quis logo enfiá-los na minha mochila, mas infelizmente não cabiam. Pensei então em conversar com eles, porque depois de os ver a partir o skate parque de Sines, fiquei mesmo curiosa em saber mais sobre eles. O Gustavo e o Gabriel são gémeos, têm dez anos, vivem em Carnaxide e aprenderam a andar de skate com a mesma idade que aprenderam a ler e a escrever. Conhecidos como Skateboarding Twins, a cada dia que passa dão mais que falar. Podem imaginá-los a responder em uníssono.

VICE: Podiam começar por me contar quando tiveram o vosso primeiro skate.
Skateboarding Twins:
Foi uma prenda de Natal, que os nossos pais nos deram, quando tínhamos seis anos. Nós nascemos em Almada, então havia lá um skate parque e no dia seguinte fomos experimentar e saiu-nos bem. Começámos a treinar e conseguimos chegar a este nível.

Qual é o vosso skate parque favorito?
O da Amadora, tem imensos sítios para podermos treinar. E o de Monsanto.

Skaters favoritos?
Em Portugal é o Chuva, o Paulo Franco… e lá fora gostamos do Ryan Sheckler.

Já agora, como conciliam a escola com o skate?
Nós aos fins-de-semana andamos de skate, mas também temos um tempo para estudar.

Pensam ter alguma profissão fora do skate, ou pensam em levar a skatada a um nível profissional?
Se calhar uma outra profissão, e depois vamos brincando com o skate.

Falem-me dos vossos patrocínios.
Primeiro, o meu pai criou uma marca que era a Portugal Decks e, depois, criou a Kinky. Agora usamos a Kinky, que tem tábuas muito boas. A nível de roupa usamos Wos Clothing, e ténis são da World Industries.

Com quem é que vocês costumam skatar?
Aqui em Sines costumamos skatar com o Tiago Blela, com o Simão, e com o André Figueiredo. Lá em Lisboa com o Tiago e o Tomás Pinto Pintainho.

Então vocês começaram com seis anos. Como se imaginam daqui a cinco? A partir mesmo tudo?
Sim, é o que nos dizem. Vou acreditar nisso e tentar fazê-lo. Somos campeões nacionais, e um de nós campeão europeu, e estamos a tentar ir aos Estados Unidos ao campeonato mundial.

A quem agradecem?
À nossa família, aos patrocinadores e a quem nos apoia.





ENTREVISTA POR ELISABETE SANTOS ROSA


MÚSICA: JULIAN LYNCH

28/07/2011

Terra
Underwater Peoples
Classificação: 7/10

Julian Lynch está longe de ser o mais mediático, mas é bem capaz de ser o mais ousado de todos os músicos de quarto que nos últimos anos encheram a internet de música benigna, ensolarada, ascética. E isto porque, em vez de se limitar a reimaginar e recontextualizar referências pop pouco óbvias de tão óbvias, Lynch, o estudante de etnomusicologia, leva-nos por caminhos raras vezes palmilhados. Terra, o seu último disco, dura pouco mais de meia hora, mas durante esse bocado ouvimos estilhaços de Sun Ra, o eco da kosmiche musik alemã, anos e anos de folk britânica, breves passagens ambientais que remetem para Eno ou mesmo música do Médio Oriente, e uma voz balbuciada que remete para o emo dos 90s, facção mineral. É muita música para tão pouco tempo. É demasiada música para tão pouca pretensão. É, sobretudo, bonito de se ouvir.

LUÍS FILIPE RODRIGUES


RETRATOS DE FESTIVALEIROS NUMA PISCINA MINHOTA

28/07/2011

A Filipa Alves passou o fim-de-semana num festival numa pequena cidade do Minho, de câmara na mão, a retratar quem se dispusesse a posar para a fotografia. Aqui ficam uns recuerdos de três dias solarengos.





















A AMY ERA MINHA AMIGA ONLINE

28/07/2011


Amy a andar de maneira esquisita. Esta fotografia tinha a seguinte legenda: “Tirada à saída de um bar há cerca de quatro meses atrás. Não sei o que é que estava a tentar fazer.”

Em 2006, a Amy Winehouse disse-me: “Lembro-me de me contares que não bebes. Ultimamente, tenho conhecido muitas pessoas desse estilo, que estão numa situação de ‘ou tudo ou nada’. Não quero estar nessa situação mas, ainda assim, interessa-me……”

Conheci a Amy na internet há quase uma década atrás. “És judeu?”, perguntou-me ela. Na altura, estava inscrito num site de encontros online, quando a internet ainda era coisa recente. Ela era jovem, eu era mais velho. Se fossemos franceses, não tinha sido grande problema. Ela flirtava comigo, coisas de adolescentes, coisas inocentes. Ela vivia em Londres e, pouco tempo depois, começou a dizer-me que andava a colaborar com o David Bowie e os Massive Attack. Ignorei isso. Nessa altura, os homens costumavam fugir das suas esposas para se refugiar nos braços gordos de estranhas que conheceram na internet. Ela costumava enviar-me cartas com fotografias. Certa vez, enviou-me uma demo. A voz dela era verdadeira.

O seu primeiro álbum, Frank, foi uma loucura. Era realmente ela, a miúda que conhecia dos emails. O Black to Black tornou-se uma referência e também uma grande onda de negação. Nessa altura, ainda era capaz de cantar mesmo estando fora de si, enquanto o público a aplaudia e lhe oferecia bebidas e charros.

Amy e um músico. Enviou-me esta fotografia enquanto andava a percorrer as editoras a tentar que lhe editassem um álbum. Isto foi em 2002/2003. A foto vinha com a seguinte legenda: “… foi tirada no dia do meu 19º aniversário, há cerca de uma semana atrás, antes de ir cantar num casamento.”

Costumávamos falar sobre Elmore Leonard e sobre Tarantino. Sobre Mos Def e Frank Sinatra. Quando se casou, desapareceu do mapa. Pouco depois reapareceu, destroçada. No último ano, tinha-se tornado naquele tipo de pessoas para quem os jornalistas precavidos já tinham o obituário pronto. Costumava telefonar-me pelo Skype, quase inconsciente. As nossas conversas eram unilaterais. Falava com a voz arrastada e não percebia nada do que eu dizia. Quando estava sóbria flirtava comigo. No dia seguinte, estava novamente toda acabada. Quando estava bêbeda costumava tirar a t-shirt para a câmara. Tornou-se mesmo triste. Era difícil ouvi-la naquele estado. Ela queria falar comigo no Skype quando eu estava quase a adormecer e eu minimizava o ecrã. Palavras arrastadas, sem perceber nada do que lhe dizia.

Quando estava lúcida, perguntava-me porque é que nunca nos tínhamos conhecido, porque é que isso nunca tinha chegado a acontecer. Ela gostava de dizer que eu a tinha ajudado a crescer. Começou a ficar com um aspecto mais saudável, como se tivesse parado de tomar drogas e tivesse começado a comer. O coração dela estava mal, contou-me. A nossa última conversa foi sobre a Jamaica. Disse que queria que a banda dela a começasse a chamar “jewmaican”.


E agora, está morta. A Amy, que costumava escrever para um jornal. A Amy, que fez todas as coisas que os rumores disseram que fez. A Amy, que não se quis encontrar comigo em Londres porque tinha namorado. A Amy, que continuava a achar-se atraente, apesar do estado em que estava e de todos os danos que tinha infligido ao seu corpo. A Amy, que não conseguia compreender. A Amy, que tinha uma voz, uma sensibilidade e uma capacidade de composição musical que a tornavam excepcional. A Amy, que se tornou numa anedota. A Amy, a minha amiga online.

Será piroso dizer que, para certas pessoas, nem tudo é um mar de rosas? Que os vícios realmente matam?

POR ANÓNIMO