O VERÃO É AMOR COM NOVO DISCO DOS SEA AND CAKE



A teimosia é uma virtude no caso dos Sea and Cake. Mantendo a mesma formação, durante os últimos quinze anos, o quarteto de Chicago alcançou a marca dos nove álbuns sem nunca sentir necessidade de alterar a sua ciência conforme os tempos. Ciência essa que nem sequer inclui nada de muito impressionante: mais sofisticada que esforçada, começou por aventurar-se nos ritmos do mundo—África e Brasil—e incide, ultimamente, num fabuloso indie rock de guitarras em despique amigável. Os Sea and Cake cedo compreenderam que não é necessário inovar muito para chegar a excelentes álbuns (Car Alarm e One Bedroom são clássicos). E é isso que vão demonstrando ao mundo através de canções perfeitas para aproveitar uma rotina feita de dias de sol e pequenas coisas simples—comprar fruta, andar de bicicleta.

O principal responsável pela harmonia e pelo equilíbrio, nos Sea and Cake, será provavelmente Sam Prekop, artista multifacetado—é também pintor e fotógrafo—e senhor de uma voz deliciosamente cool, capaz de nos levar a todos para a cama. Com a discrição a que nos habituou, Sam Prekop tem acumulado um invejável culto, que não será certamente alheio à magia que o homem infiltra nas suas canções (“Don’t Bother” ainda é essencial em qualquer mixtape para amassos). A partir de sua casa, em Chicago, Sam Prekop conta-nos como as aventuras abstractas do seu último disco a solo, Old Punch Card, contribuíram para que The Moonlight Butterfly, o mais recente dos Sea and Cake, fosse um álbum mais expansivo. E acreditem: o verão é sempre melhor com novo disco dos Sea and Cake.

VICE: Algumas notícias dão como certo o lançamento de um novo disco de Sea and Cake ainda este ano. O que podes adiantar em relação a isso?
Sam Prekop:
Esperávamos lançar um novo álbum antes deste ano terminar, mas é mais provável que saia no início do próximo. A intenção era lançar qualquer coisa para que as pessoas soubessem que ainda estamos vivos, mas também para que o próximo disco seja melhor. É como se este disco fosse um projecto de pesquisa para nos mantermos em forma e flexíveis.

Foi importante terminar The Moonlight Butterfly antes de avançar?
Tenho escrito bastante, desde que terminámos The Moonlight Butterfly, mas ainda não trabalhei nada disso com a restante banda. Por enquanto é difícil prever a direcção das novas canções. Procuro sempre evitar encarar os discos com preconceitos, porque, se o fizesse, o mais provável era passar ao lado das melhores coisas que acontecem naturalmente. Estou para já entusiasmado com a possibilidade de gravar a banda ao vivo, em estúdio, em vez de num contexto de overdubs, o que me leva a crer que o som será mais solto e imediato, como acontece nos concertos.

Alguns dos desvios tomados pelo novo álbum lembraram-me de como The Fawn seguia também algumas pistas inesperadas. Consegues encontrar semelhanças entre a preparação de ambos os discos?
Sinto que sempre fomos uma banda experimental, sendo que essas experiências se manifestam de formas diferentes. Reconheço que alguns álbuns possam soar mais experimentais que outros. The Fawn resultou de um período em que tomei consciência das minhas limitações como guitarrista. Precisava de novas matérias para desencadear o processo das canções.

Recordas-te de The Fawn como um disco especialmente aberto a experiências e novas ideias?
Nessa altura, virei-me para instrumentos e métodos de trabalho completamente estranhos, e isso foi bastante excitante e especial. Infelizmente, quanto mais trabalhas, menos tempo arranjas para esse tipo de circunstâncias. Depois de ter dedicado tanto tempo a Old Punch Card, fiquei novamente entusiasmado com a possibilidade de voltar à guitarra no próximo disco de Sea and Cake, enquanto ainda sentia a liberdade estimulada pelos sintetizadores. Tentei portanto uma mistura dessas duas experiências neste disco. Uma canção como “Inn Keeping” não aconteceria sem antes ter feito um álbum de electrónica.


A faixa-homónima “The Moonlight Butterfly”, tal como Old Punch Card, demonstram bastante entusiasmo pelos sintetizadores. És capaz de fazer a ligação entre essa faixa e o teu disco? Continuavas a escrever canções mesmo quando andavas entretido com os sintetizadores?
O meu envolvimento com a electrónica tem crescido ao longo dos anos, mas é também uma das características transversais no percurso dos Sea and Cake. Tecnicamente, a faixa “The Moonlight Butterfly” pode ser a primeira faixa de Sea and Cake inteiramente electrónica, e Old Punch Card é também responsável por isso. Eu e o John McEntire somos obcecados por sintetizadores modulares analógicos, e isso levou-me a expressar essa paixão neste disco a solo. Foi de loucos a mudança de ideias e intenção, que me conduziu até ao corte e colagem do som “cru” pretendido. Mas aprendi muito e foi bastante excitante a sensação de estar a trabalhar em algo muito diferente do que tinha feito até aí.

Depois de muitos álbuns lançados com a mesma formação, algumas bandas começam a gravar aqueles discos que ecoam partes de toda a carreira. Um pouco como os Sonic Youth de Murray Street. Senti isso com The Moonlight Butterfly e “Up on the North Shore”, por exemplo, é uma daquelas malhas que podia pertencer a Car Alarm. Acreditas que este ou algum dos vossos discos recentes tem essa característica?
Por acaso até acho que Car Alarm tinha mais essa qualidade antológica que The Moonlight Butterfly. Mas isso só me ocorreu passado algum tempo e como mera curiosidade. Nunca poderia ter sido uma estratégia intencional. Aceito que “Up on the north” possa parecer um pouco uma canção de Car Alarm. Acho também que “Monday” podia fazer parte de Oui, e é por isso que esteve quase para ficar fora deste disco.

O press-release de Old Punch Card refere Nuno Canavarro como uma das principais inspirações no disco. Até que ponto gostas do seu trabalho? Curtia saber.
Tenho o Plux Quba como uma das minhas grandes inspirações. Adoro incondicionalmente esse disco, e pretendi com o Old Punch Card fazer-lhe uma espécie de homenagem. É certamente uma referência para mim.

Tendo em conta que tu e o John McEntire (baterista dos Sea and Cake) participaram no Forgiveness Rock Record e andaram em digressão com Broken Social Scene, até que ponto essa foi uma colaboração especial?
Existe um respeito e apreciação mútuos, e foi muito lisonjeador saber que o Kevin Drew queria que eu cantasse numa canção dele (“Romance to the grave”). Confesso que não conhecia muito bem a música deles antes de colaborarmos. Mesmo assim sentia uma ligação entre as bandas e o Kevin sempre disse que os Sea and Cake foram, desde o início, uma forte inspiração para os Broken Social Scene.

Então, mas tiveste hipótese de observar como eles trabalham enquanto banda?
Diria que trabalhamos de forma bastante diferente: o processo avança depressa nos Sea and Cake—somos uma unidade muito insular, fechados em relação a influências externas e, na verdade, pouco receptivos a colaborações. O contrário acontece com os Broken Social Scene, que passam muito tempo a trabalhar com uma vasta quantidade de pessoas.

Sempre me pareceu que o público japonês adora o teu trabalho e recebe também algum amor de volta com as faixas extra e lançamentos exclusivos no país. Como descreverias essa relação?
Sinto uma forte ligação com o Japão. As artes e a cultura do país inspiram-me profundamente, assim como toda a estética japonesa. É possível que reconheçam esta admiração no meu trabalho de alguma forma e tudo passa a ser uma correspondência. Não sei ao certo, mas espero que seja sempre assim.

The Sea and Cake, The Moonlight Butterfly (2011 – distribuição Thrill Jockey / Mbari)



02/06/2011 at 15:39
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