TER UM ESCRAVO


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Há cerca de um ano atrás, quando morava num sítio merdoso no sul de Londres, os meus amigos ocupas e eu tivemos um escravo. Encontrámo-lo através de um anúncio no Gumtree.com, em que dizia: “escravo de afazeres procura mestre abusivo dominante”.

Para o resto do mundo, o nosso escravo era um advogado de 28 anos do Nepal, mas para nós era um empregado doméstico. Duas vezes por semana ele aparecia e fazia o nosso “trabalho sujo” – lavava a loiça, ordenava alfabeticamente as nossas cassetes VHS – e em troca abusávamos dele. A Clare chicoteava-o com um dos nossos variados acessórios de bondage em cabedal. A Kerri gritava-lhe obscenidades desconhecidas em escocês, e ocasionalmente, atirava-lhe contra as costas com os restos das refeições. Uma vez, obriguei-o a lamber um bocado de saliva minha do chão. Era divertido, mas também um pouco perturbador se não estivéssemos bêbados ou pedrados. Passados dois meses, o escravo deixou de aparecer e apercebemo-nos que a situação era mais engraçada do que sexualmente provocadora. Ele queria era uma dominatrix, e não três sacanas mais interessados em ver o America’s Next Top Model do que envergonhá-lo.

Depois da limpeza à casa o escravo descartou-nos. Alguns dos meus companheiros foram arranjar os seus próprios escravos – foi-lhes dado o sabor do poder e queriam mais. Clare, a certa altura, teve um escravo que lhe pagava para ela gritar com ele em público. Kerri descobriu um homem na Hungria que lhe pagava semanalmente aulas de xamanismo (vergonhoso), desde que ela se envolvesse frequentemente com ele em e-mails sexys. Nunca me preocupei em encontrar outro escravo, talvez por ter esta coisa chamada consciência que me faz sentir culpada quando tiro partido dos outros. Mas nunca se sabe.

Recentemente, quase sem esforço da minha parte, adquiri o meu segundo escravo. O meu nome no fórum é Slutever, e há dois meses ele escreveu-me uma mensagem a perguntar se já tinha lido o blogue sobre sexo, com o mesmo nome. Quando lhe disse que era a autora desse blogue, ele começou a mandar-me mensagens, oferecendo-se para me comprar coisas. No início fiquei um pouco desconfortável com isso, mas depois do seu décimo e-mail, onde literalmente pedinchava para me comprar prendas, eu cedi e mandei-lhe uma lista de livros que queria da Amazon. Eu sei que não é das prendas mais sexys (acho que ele tinha em mente lingerie), mas ficou agradecido. No dia em que recebi a minha primeira encomenda senti uma mistura de prazer e culpa. Um pervertido qualquer na Irlanda tinha-me comprado estes livros e eu não lhe tinha dado nada em troca (para além de um ou dois momentos de pau feito). Gostei do que senti muito para além do que quereria.

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Isto foi há um mês atrás. Agora recebo livros pelo correio quase todos os dias. O escravo compra-me livros, e eu, em troca, mando-lhe fotografias minhas a lê-los (e ocasionalmente a lambê-los, se ele me pedir com jeitinho). É muito simples.

Recentemente as coisas começaram a ficar um pouco mais estranhas. Por exemplo, no outro dia o escravo mandou-me um vídeo dele, nu, de gatas, praticamente a chorar, pedindo para me comprar mais livros. Também começou a enviar-me fotografias dele com BOOK BITCH escrito em várias partes do seu corpo, assim como e-mails excessivos a dizer-me que ele me pertence. Não consigo decidir sobre o quão longe deva levar isto.

No entanto, o problema em ter um escravo, é que passado algum tempo após ser presenteada, é fácil cair na tentação de pensar que merecemos este tipo de comportamento – que um lado da relação é normal e aceitável. Basicamente, é fácil tornarmo-nos numa “cabra”. Mas mais uma vez, será o escravo realmente meu? Eu não o obrigo a fazer estas coisas. Apenas sento-me aqui apaticamente, enquanto ele se auto-mutila. Desde que não lhe prometa nada que não lhe darei, e que ele não esteja secretamente a planear matar-me, então está tudo bem, certo? É errado tirar algo de alguém que quer que se lhe tire alguma coisa? Hmm… para encontrar as respostas para estas questões vai ser preciso uma quantidade razoável de análise moral e ginástica intelectual, e agora prefiro mesmo é que me comprem prendas.

slave3Esta fotografia pode ser demasiado excitante para consumo português. Clica se fores maior, e se estiveres excitada/o e curiosa/o.

TEXTO POR KARLEY SCORTINO

PS: Escravo, sei que estás a ler isto. Por isso, põe-te de quatro e lambe o filho da puta do chão, seu merdas.



20/09/2010 at 11:03
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