
A Rita Lino tem 23 anos, nasceu em Olhão e estudou Design de Multimédia durante 3 anos na UBI. A fotografia começou por ser um hobbie, mas rapidamente se tornou num estilo de vida. Viajou para Barcelona, onde reside actualmente, e realizou uma pós-graduação em fotografia na ELISAVA. O seu trabalho já foi publicado em revistas como: 365, Lamono e Vice. Insiste em fazer fotografia “independente”. Rita Lino associa aos seus editoriais de moda um conceito feminista. É uma das artistas underground mais respeitadas em Portugal. Conhecida pelas suas imagens provocadoras, tem uma pequena legião de seguidores por todo o país. Nas suas fotografias encarna uma personagem sem pudor, animal, instintiva, narcisista, repleta de emoções e sensações. Uma verdadeira viagem ao seu ego – “um diário que pode ter mil interpretações”. Muitos conhecem apenas um lado da Rita. Quem é a rapariga de Olhão por trás da imagem e dos sonhos?

Vice: Olá Rita!
Rita: Hello honney bunny.
Sonhas muito?
Nem por isso.
Lembras-te dos sonhos?
Não sonho muito, mas quando sonho lembro-me de tudo. Sou uma sortuda.
São sonhos normais? Descreves-nos um?
Sim, normais. Tipo, sonho que vou à contabilidade ou às finanças, coisas do género. Na verdade são bastante aborrecidos.
Como descreves a tua vida até hoje?
Curta, com muito para fazer.
Como é estar de volta a Olhão?
O primeiro dia é giro. O segundo desespero de aborrecimento.
Como descreves Olhão?
“Porta sim, porta não.”
Viveste aqui os melhores momentos da tua vida?
Os melhores ainda estão para vir, mas passei bons momentos.

Tens aqui muitos sítios secretos?
Uma data deles.
Levas-nos lá?
Aos mais ou menos secretos sim, aos super secretos não. [risos]
Qual é a diferença entre a Rita das fotografias e a Rita de Olhão?
A diferença é que a Rita de Olhão não sabe que a Rita das fotografias existe, ignoram-se.
Tens muitas histórias para contar sobre estes sítios?
Podia escrever um livro, mas ia ser mais um livro de adolescentes.
Nas tuas fotografias brincas com o teu corpo, no entanto a tua inspiração é espiritual e não física. Queres explicar?
Não há muito que explicar. Vem de dentro. E como não sei muito bem de onde vem, imagino que seja do espírito. Entendes? Não?! Ok, não se pode mesmo explicar.
Se pudesses escolher agora um local para fotografar, qual seria?
As ruas desertas à meia-noite. Isto é uma cidade fantasma.
Hoje às 02h00 há uma chuva de meteoritos, sabias?
Sim, vou agora para a praia ver.
Por Rita Lino
Soube que corriam muitos boatos acerca das tuas fotos, durante a faculdade na Covilhã. Como lidavas com isso?
Soubeste? Eu não sei de nada. Conta-me!
Sim, do tipo “aquela gaja que se despe nas fotos” ou “aquela gaja que mostra a rata nas fotos”.
Ah, sim. Mas aí funciona da mesma forma como funciona com a Rita de Olhão, simplesmente ignora-se.
E as pessoas mais próximas, namorados ou familiares, como reagem?
Os namorados gostam, apoiam essas coisas. A família não sabe muito bem o que faço, mas também não precisam de saber. Sei que, se precisar deles – como modelos ou o que quer que seja – estarão sempre disponíveis. Mesmo sem perceberem nada. Isso é bonito.
Já tiveste “voyeurs” durante uma sessão fotográfica?
Sim. Desde um japonês perdido nas montanhas de Monserrat, até à senhora do minimercado.
Hoje vi um comentário no teu Facebook em que um rapaz dizia estar indeciso em fazer “like” na tua foto, sob o risco de ser considerado pervertido. O que achas disto?
Na verdade não acho nada… Acho que ele não tinha mesmo nada para dizer, ou então estou totalmente enganada e, através de uma foto, consegui fazer uma pessoa sentir algo, algum sentimento. Isso faz me sentir contente. Mesmo que esse sentimento seja perverso, fico contente.
Rita Lino por Christian Tabares
A foto é muito boa! Provocadora. Senti o mesmo e não cliquei “like”. Achas que estás a quebrar tabus? Ou trata-se de seres portuguesa?
Sem dúvida nenhuma que se trata de ser portuguesa, porque os tabus já estão todos quebrados.
Com que câmara fotografas?
Não tenho uma em especial, tenho três. A Minolta 7000, Canonet e, para quando não se tem dinheiro, uma Nikon D80 digital.
Como imaginas o teu futuro?
Futuro? Esta pergunta tens que fazer à Maya. [risos]
Tens projectos para o futuro próximo?
Domingo vou para a Estónia para uma residência de artistas – de vídeo e fotografia – e vou lá ficar 3 semanas. Depois, volto para Barcelona, e depois, logo se vê.
Adoro as tuas fotos, o teu percurso, e estou super curioso por te conhecer pessoalmente, vens ao Porto em breve?
Muitíssiiimooo obrigada. Porto… espero por quarto, roupa lavada e pequeno almoço todas as manhãs. Para mim e para a minha tropa toda. [risada]
Combinado.
DEAL!
Como se chama mesmo a tua cidade natal?
Moncarapacho, fica mesmo ao lado de Olhão.
Auto-retrato
ENTREVISTA POR EDUARDO PEREIRA
FOTOGRAFIAS DE ARQUIVO CEDIDAS POR RITA LINO




