VICELAND HOJE - 08/2010



MISS ARGANZUELA 1981

31/08/2010

UM TESOURO PERDIDO DE BELEZAS DO PROLETARIADO

Uma noite, bêbada em Madrid, encontrei um saco cheio de negativos fotográficos. E, bêbada como estava, levei-os para casa. Dentro do saco, para além de quase 30 quilos de negativos, estavam também uma carteira profissional de fotógrafo e um sapato com a sola compensada, o que me levou a acreditar que o fotógrafo era manco.

No Natal passado, comecei a digitalizar uma série de negativos identificada como “Miss Arganzuela, 8 Setembro, 1981.” Essa data foi apenas seis meses após uma tentativa de golpe militar, que quase acabou com a recente democracia espanhola. Estas fotografias mostram a realidade de Espanha nessa altura – pessoas comuns, do dia-a-dia, mostrando estranhamente ao mundo inteiro a sua moda e penteados.

Ah, e também provam que o fotógrafo era mesmo manco. E provavelmente míope. Estou a brincar. Estas fotografias são muito bonitas, ainda que de uma forma estranha e retorcida.

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TEXTO POR ELENA GRIMALDI
FOTOGRAFIAS POR UM APRECIADOR DE MULHERES DESCONHECIDO


T-SHIRTS DE THRASH E DEATH METAL

31/08/2010


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Já que a malta publicou todas as minhas t-shirts dos Slayer e de black metal nos últimos meses, achei que deveria encerrar com o que sobrou no meu armário: t-shirts de death e thrash metal. São todas da minha colecção e de bandas que eu venero a sério. Por isso, preparem um “bongo”, metam a rolar uma música thrash das antigas (“Strappado”, dos Slaughter é perfeita) e viajem.

TRASH METAL
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Gosto desta para caralho. Aliás tenho-a vestida enquanto escrevo. Lembro-me de a querer muito desde os dez anos, mas imaginem-se a tentar convencer os vossos pais de que precisam duma t-shirt dos Metallica com uma mão empunhando uma faca a sair da sanita e com a mensagem: “Metal Up Your Ass”. Como se esta já não fosse uma t-shirt incrível, o desenho das costas brilha no escuro.

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OK. Esta provavelmente não é uma original dos anos 80. Diria que é um desenho da década de 90. Mesmo assim, onde é que já viram a t-shirt do Master of Puppets ou qualquer outra dos Metallica com mangas compridas? E este ainda é o meu disco preferido deles.

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Eu sei que estas eram um bocado gozadas quando saíram, mas não se pode perder a versão branca de uma t-shirt de metal, ainda para mais dos Metallica. Para os dias de Verão.

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Os Metallica espetaram-se completamente em 93, mas esta t-shirt é demais. Adoro o logo sangrento. É a habilidade do Pushead em espremer um milhão de crânios num desenho.

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Outra vez um desenho brutal do Pushead, numa época de merda dos Metallica. Nos anos 90 ele não me desiludia. Parece que naquela altura se conseguia um desenho dele por, tipo, 300 dólares.

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Ah, Megadeth. Amo-vos! Ninguém definiu tão bem todo o visual thrasher como o Dave Mustaine. A sério, já viram o site deles? Tem milhões de fotos de cada álbum, e são todas estupidamente boas. Quando se trata de t-shirts de metal e jordans, Dave é o homem.

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Esta é uma das minhas preferidas de sempre, mesmo sendo super justa, desbotada e com um buraco quase até à barriga. “Black Friday” tem um dos meus riffs favoritos, e se nunca ouviram o clássico “Peace Sells… But Who’s Buyin”, então resolvam isso agora mesmo.

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Como algumas das t-shirts dos Metallica acima, esta não é exactamente da era clássica dos Anthrax, mas eu gostava bastante deste álbum quando era miúdo e tem um desenho fixe. Gosto da forma que o Not Man separa todas as datas nas costas. Por alguma razão tinham que fazer trocadilhos (mal feitos) com os nomes das suas tours.

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Desenhos de cogumelos alucinógenicos na frente? Certo. Nas costas, um gajo a fumar um canhão? Certo. Morte aos posers, total! Esta é a única t-shirt que tenho e que a minha namorada gosta.

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Consegui esta num concerto dos Pentagram no ano passado – talvez o melhor concerto de metal que já fui. Nada mal para uma banda só com seis músicas. Fora isso, o desenho das costas… Fico sem palavras.

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OK. Os Body Count, tecnicamente, não deveriam estar aqui, já que são uma banda mais crossover/hardcore e thrash, certo? Mas este post é meu e sou obcecado por bandas com o Ice-T como vocalista, desde que sou puto. Aliás, em 93, este disco levou-me ao hip-hop. Na verdade, tenho mais duas originais dos Body Count além de dois patches originais. Esta aqui é muito rara porque diz “Cop Killer” no peito, o que é brutal.

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Letras num vermelho-sangue altamente e um logo ao estilo Venom, hum? A banda colombiana Witchtrap faz do melhor thrash que já ouvi. O EP Witching Metal é tão bom quanto o thrash do ano 2000 pode ser.

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Os noruegueses percebem da coisa. Os Deathhammer são, para mim, uma das melhores bandas de thrash. Se vocês gostam do início dos Slayer, vão adorar esta banda. Mais: as capas das demos, desenhadas à mão, eram poderosas e resultaram em t-shirts brutais. Troquei esta com o Sindre, dos Obliteration e Nekromantheon, por uma garrafa de Patron.

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As Kolbotn, dos Nekromantheon, também são demais. Troquei a minha original dos Síndrome, com o vocalista Sindre, por esta branca acima e nunca me arrependi.

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Aqui têm os que deram origem ao ataque black thrash, os Aura Noir. Esta foi-me dada pelo vocalista e baixista dos Immortal, Apollyon, numa das suas viagens ao Reino Unido. É um gajo do caraças, que acima de tudo gosta de fumar em cachimbos de água, ouvir thrash e dormir no meu sofá. Esta tinha mangas compridas e foi feita exclusivamente para a banda, mas era tamanho pequeno, pelo que tive que fazer uma pequena operação nas mangas para a poder usar.

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Seven Churches, dos Possessed. Malta, este disco ainda me dá arrepios. Nunca entendi porque é que as letras da capa são tipo rabisco chinês, mas não importa. O logo é provavelmente a melhor coisa que já vi.

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Os posers virão com a conversa podre que “Darkthrone é uma banda de black metal”. ERRADO. O primeiro disco deles, Soulside Journey, é uma obra-prima do death metal. Consegui esta com um gajo italiano, mas acho que é de contrabando. É que normalmente a cena que parece um navio fica à direita e dois pentagramas na parte de cima do logo ficaram meio borrados.

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A melhor banda da Florida, os Obituary, tiveram sempre um estilo mais cool. Usavam muitas cores, para tristeza de Varg, e as t-shirts deles eram, apropriadamente, nada discretas. Apesar de não gostar muito deste álbum (o primeiro é melhor), adoro o desenho.

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Sadistic Intent era uma das bandas de death metal mais fixes dos anos 90. Sou louco pelo Resurrection – o EP deles – mas não consegui meter as mãos nestas costas alucinantes, até que um amigo meu foi à loja deles, a Dark Realm, e trouxe-me a t-shirt. Agora tocam todos nos Possessed.

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Obliteration é uma das melhores bandas de death metal que anda por aí. O disco Nekropsalms, de 2009, já entrou para a lista dos clássicos. Saí com eles na semana passada em Kobotn, a cidade de origem na Noruega, e deram-me estas duas.

TEXTO POR JONATHAN ROCKWELL (Vice STYLE)


DIVERSÃO NO BAIRRO VIETNAMITA CHECO

30/08/2010


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Estamos fartos do pessoal que está sempre a dizer que viajar é importante. Já fomos ao estrangeiro algumas vezes, e ficámos sempre com as carteiras vazias e as câmaras cheias de fotografias sem piada nenhuma. O melhor de viajar é poder calar essa malta que está sempre a falar sobre milagres de jejuns loucos num mosteiro indiano, das fodas na Tailândia, ou ainda, sobre enfiar-se em túneis do Vietname construídos pelos comunistas (e alargados para os turistas). Quanto às duas primeiras hipóteses não vamos conseguir ajudar-vos, mas em vez de ir até o Vietname por causa de buracos, porque não simplesmente passar por Praga? Aqui, pode sentir-se o cheiro, o gosto e até comprar um pedacinho do Vietname em pouco tempo e por muito pouco dinheiro.

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“Uau, parece um filme do Jackie Chan”, disse maravilhado o nosso amigo quando mergulhámos no mercado vietnamita, o SAPA. Visto do lado de fora, ele tinha razão: estávamos cercados de restaurantes pequenos, que ofereciam comidas exóticas, e de espaços enormes lotados até ao tecto com roupas baratas. Mas se a vossa ideia do leste da Ásia é baseada num repertório de filmes série B, terão que baixar as expectativas. No mercado não há mafiosos de óculos escuros a fazer acrobacias com matracas, enquanto um fumo verde suspeito sai de um bueiro. Muito menos cabeças de macaco voadoras com raios a sair pelos olhos. Ainda assim, às vezes dá para sentir um perfume semelhante ao da bosta de símio, ou algo parecido – como levar com o cheiro de uma banca cheia de tripas fedorentas de bichos do mar, ou como ver roletas do Mad Max nos casinos locais.

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A aventura começou quando saímos do autocarro em Libuš, já nos limites de Praga. A população local parecia não dar importância à pequena embaixada estrangeira no seu bairro. Do outro lado da rua existia uma entrada lateral para o mercado. Lá, encontrámos uma jovem vietnamita sorridente, chamada Ly, que se escondia atrás da sua barraquinha. Falava checo fluentemente porque, como nos contou, fez o secundário numa cidadezinha perto de Praga. Emigrou para a República Checa há seis anos, mas os pais já lá estão há vinte. Foi criada pela avó, algo que disse ser muito comum pois, desde os anos 70, vários casais vietnamitas deixaram as famílias à procura de trabalho noutros países comunistas.
Apesar dos vietnamitas serem um dos maiores grupos de imigrantes na República Checa, é muito raro encontrar um casal checo-vietnamita ou mesmo um grupo de amigos onde se misturam. É difícil saber quem despreza quem, porque nenhum dos grupos parece dar atenção ao outro.
Os checos acreditam que a única fonte de rendimento dos vietnamitas provem das suas lojinhas, onde vendem roupas baratas, sapatos e legumes de alta qualidade – estes, aliás, parecem ter ganho grande respeito entre a maioria dos cidadãos checos. Os imigrantes, na verdade, nem tentam mudar a opinião pública sobre a sua fonte de rendimento. Eles são praticamente invisíveis na política, nos media e na vida nocturna do país.
Como os turistas são mais livres de fazer perguntas, nós continuámos a perguntar coisas estúpidas à Ly. Disse que o que mais gosta de Praga é o clima. E adora o SAPA, porque lá encontra tudo o que um membro da comunidade vietnamita precisa: médicos, advogados, uma creche e, o mais importante, vários salões de cabeleireiro – onde os moradores do bairro cortam o cabelo de formas criativas por preços muito baratos. Os cortes de cabelo dos vietnamitas são inspirados nas tendências populares vindas directamente da terra natal — ainda bem, porque se seguissem as tendências checas, todas as mulheres teriam madeixas toscas e os homens, cabeças rapadas. A maioria dos jovens locais preocupa-se bastante com a aparência, o que significa que, além dos lojistas suados, podemos cruzar-nos com pessoas que despertam a libido.

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Momentos depois de entrarmos no mercado, vimos os restos estorricados do que costumava ser um espaço para as barraquinhas. Ardeu tudo há dois anos num grande incêndio, comprovando que as roupas sintéticas são um óptimo combustível. O cheiro cobriu a cidade inteira e fez com que a maioria dos habitantes de Praga ouvisse falar do SAPA pela primeira vez. Também serviu como desculpa para a polícia fazer uma inspecção exaustiva ao mercado.
Parámos numa lojinha de móveis na zona que tinha ardido—por alguma razão, as chamas deixaram a loja completamente intacta. “Tivemos sorte”, disse a assistente de vendas quando perguntámos como é que não perderam tudo no fogo. Acabou por nos oferecer descontos em produtos que se destacariam até mesmo no escritório do burocrata hedonista Chan Feng.

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Corredores gigantes erguidos em aço surgiram no horizonte quando nos aproximámos do meio do mercado. Andando pelos minúsculos corredores, acaba-se rodeado de pilhas de roupas e outros produtos. O SAPA é oficialmente um mercado de venda a retalho, por isso alguns produtos são apenas vendidos em grandes quantidades, apesar de que se negociarem uma pechincha com os vendedores, podem acabar por comprar um item avulso por um preço ridiculamente barato. Perguntámos ao gajo de uma farmácia como é que ele podia vender os produtos por metade do preço que se pratica numa loja checa. Ele repetiu, “descontos de conveniência”. Tal como acontece com a grande maioria do pessoal da terceira idade daqui, não foi muito divertido conversar com ele. Obviamente ele enrola a língua com o checo, ou pelo menos finge que enrola.
Além dos viciados em roupa barata, o SAPA encanta muitos fãs de música pop exótica. Três vietnamitas jeitosas fizeram-nos comprar um CD da Mỹ Tâm. A Ly afirmou que essa cantora tem uma carreira de sucesso no Vietname. Depois de ouvirmos o CD tivemos a certeza que existe uma forte concorrência feminina ao David Hasselhoff a crescer em Hanoi.

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Quando o sol poente começou a ficar vermelho, o mercado fez-nos lembrar um sonho pós-apocalíptico. Nesse momento, todos os outros turistas rumaram aos restaurantes locais. Recomendaram-nos um dos tascos que serviam Pho. O paladar desta sopa deliciosa preencheu totalmente os nossos requisitos gustativos checos. Também experimentámos o Cha Lua de porco, que testou a nossa tolerância a comidas muito exóticas. Especialmente depois do nosso amigo comentar a semelhança incrível entre noodles de arroz e esperma cozido.

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TEXTO E FOTOGRAFIAS POR MICHAL DĚD E YVETTE DE BABRAQUE (Vice Républica Checa)


SUPER CASAIS

30/08/2010


FOTOGRAFIAS POR RICHARD KERN
Coordenador: Annette Lamothe-Ramos
Cabelos por Shane Tison
Maquilhagem por Erin Green

127Kathryn Garcia, artista
Sarvia Jasso, curadora
Juntas há 3 anos.

218Slava Mogutin, artista e escritor
Brian Kenny, artista e músico
Juntos há 6 anos.

312AA Bronson, artista
Mark Jan Krayenhoff van de Leur, arquitecto
Juntos há 13 anos.

412Cass Bird, fotógrafo, realizador e pai doméstico
Ali Bird, directora do The Wall Group
(com Leo Black Bird, 2 anos, e Mae Black Bird, 6 meses de idade)
Juntos há 6 anos.

512Susi Kenna, consultora de comunicações
Jenny Shimizu, modelo, actriz e mecânica
Juntas há 1 ano e 6 meses.

610Simon Doonan, director criativo da Barneys New York
Jonathan Adler, oleiro e designer
Juntos há 15 anos.

79 Jonathan Horowitz, artista
Rob Pruitt, artista
Juntos há 16 anos.

88Marlene McCarty, artista
Christine Vachon, produtora de cinema
Juntas há 16 anos.

97Steven Cox & Daniel Silver, designers da Duckie Brown
Juntos há 17 anos.

105iO Tillett Wright, artista
Kate Atherton, performer
Juntos há 2 anos.

1111Jeffrey Costello & Robert Tagliapietra, designers da Costello Tagliapietra
Juntos há 16 anos.

128Neil Young, estilista
Gio Black Peter, artista e músico
Juntos há 5 anos.

134Liz Armstrong, escritora
Shantell Martin, artista
Juntas há 9 meses.

145Eliza Douglas, música
Abby Walton, aderecista
Juntas há 2 anos.

154Eileen Myles, poetisa
Leopoldine Core, escritora
Juntas há 1 ano.

163Mel Ottenberg, estilista
Adam Selman, figurinista e director artístico
Juntos há 1 ano e 6 meses.


O SORRISO GIGANTE DE JULIUS

27/08/2010


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Julius von Bismarck construiu um emoticon gigante no topo do farol de Lindau, Alemanha, que mostra as emoções dos transeuntes. Uma câmara tira fotografias aleatoriamente aos pedestres e um computador distingue as emoções das pessoas em quatro categorias: feliz, triste, zangado ou surpreso – resultando numa montra emocional urbana. A questão passa por sabermos se as pessoas estão mais taciturnas em determinadas alturas do dia ou da semana (8 da manhã de Segunda-feira), ou se o emoticon consegue criar, por si só, um efeito placebo. Esta instalação faz parte da Provinz Exhibition, mas para a próxima queremos um emoticon que faça LOL ou ROFL… de preferência no topo do Empire State Building.

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Podem conhecer melhor o seu trabalho no The Creators Project


REQUIESCANT IN VESTITUS

27/08/2010


FOTOGRAFIAS POR ANGELA BOATWRIGHT
STYLING POR ANNETTE LAMOTHE-RAMOS
Assistentes ao styling: Elisabeth Amiel, Eleny Ramirez. Assistantes de fotografia: Patrick Buckley, Sarah Ritz, Dods Stevenson. Cabelos por Brooke Rodgers. Maquilhagem por Brandy McDonald
Tecnologia digital por Matt McGinley. Modelos: Abby, Aileen da Muse, CK da Rocket Garage, Karin da Models International, Liz Jelle e Gillian da Major. Obrigado especial a Provenzano Lanza Funeral Home

126Vestido Antonio Berardi, brincos vintage da Screaming Mimi’s

217Vestido Sonia Rykiel, brincos e broche Mango

311Vestido Rodarte for Target, terço no pescoço Guess, terço vintage nas mãos

411Casaco Geronimo, colete, calção e colar vintage da Screaming Mimi’s

511Vestido Thornton Bregazzi, colar vintage da Screaming Mimi’s

69Vestido Kate Moss da Topshop, pulseira Marc Jacobs, acessório de cabelo Bona Drag


VESTIDO PARA MATAR (OU MORRER)

26/08/2010

ANTONIO LOPEZ FUENTES: A ESCOLHA DOS TOUREIROS

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Um dos principais elementos da tourada é o traje. Habitualmente este é bastante colorido e é bordado com apliques, lantejoulas e ouro e prata reais através de um processo complexo. Em Espanha estas vestimentas são conhecidas como trajes de luces (“trajes de luzes”). O traje da tourada é uma variação da vestimenta tradicional dos majos, homens castelhanos do século XVIII que se distinguiam pelo seu estilo extravagante. De baixo para cima, um traje é composto por sapatos rasos, taleguilla [espécie de calções] ou calças justas, suspensórios, uma cinta, uma camisa, um colete, uma casaca e uma gravata ou um lenço de pescoço. E depois vem o mais importante: uma capa amarela e cor-de-rosa, utilizada para a “dança” e a muleta, uma capa vermelha bastante mais pequena, que é utilizada na fase final da luta para atrair o touro para a sua morte.

Em Espanha, actualmente não há mais do que meia-dúzia de alfaiates que se dedicam a vestir toureiros, sendo que a maioria aprendeu a sua arte na Sastrería Fermín, em Madrid. Isto torna este lugar numa espécie de faculdade do mundo tauromáquico. Antonio López Fuentes, o homem por detrás deste negócio, veste toureiros há 50 anos. A sua vida está tão marcada pela história e tradição da tourada, como a areia da arena fica marcada pelo sangue do touro após uma corrida.

Vice: Uma alfaiataria onde se pode fumar? Hoje em dia nem nos bares se pode fumar…
Antonio López Fuentes: Nesta loja, quem quiser fumar, fuma. O que é que acha que o Morante faz com aqueles charutos Farias enormes de que ele tanto gosta?

Para os nossos leitores que não são espanhóis: Morante de la Pubela é um toureiro famoso. Antonio, explica-nos então como é que os toureiros se vestem. Imagino que haja muita preparação… um pouco como uma noiva no dia do seu casamento.
Claro. Vestir o traje a um homem é relativamente fácil, mas leva algum tempo. Este processo tem até um vocabulário próprio. Por exemplo, o toureiro pode sentir-se bien apretado, o que significa que enquanto se está a vestir, deve sentir que as roupas estão bem justas. Há também alguns detalhes curiosos. Como a forma de amarrar os machos, por exemplo. Os machos, que são as franjas que caem das dragonas ou da taleguilla, e que o público arranca da casaca quando o matador é bem sucedido e retirado da arena em ombros, são presos com água ou saliva. Tudo isto faz parte dos bastidores; é o tipo de coisas que só podes ver quando tens uma grande amizade com um toureiro e vais ao hotel ajudá-lo a vestir-se. Isto é muito sério. É um ritual sagrado. O toureiro veste-se sempre em frente a um espelho e é aí que começa a ganhar a confiança, a motivação e a coragem de que vai precisar na arena. Enquanto se veste, o toureiro alcança a concentração necessária.

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Mas há algo de feminino nos trajes…
É tudo muito feminino. É por isso que não lhe chamamos “fato”. Antigamente não havia escolas tauromáquicas: os toureiros aprendiam a arte no campo e não importava se eram filhos dos donos das terras ou simples trabalhadores das fazendas de então. Assim, aqueles rapazes morenos de 14, 15 anos toureavam em tronco nu. Os donos das terras costumavam estar longe, em negócios, mas as suas mulheres ficavam nas fazendas. E de vez em quando estas mulheres soltavam um bezerro só para verem os movimentos dos rapazes.

Ao fim e ao cabo, está tudo relacionado com o impulso erótico feminino…
Sem dúvida. Estas mulheres acabaram por fazer as peças de roupa que os toureiros vestiam. Actualmente, se lhe apetecer, um homem pode usar um traje cor-de-rosa, mas na altura, as cores com que estas mulheres vestiam os rapazes não eram normais. Elas vestiam-nos como mulheres, mas sem lhes tirar o seu aspecto masculino. No entanto, se hoje vires uma mulher com um traje de luces ela vai-te parecer muito masculina… por muito grande que o seu rabo seja.

Como é que alguém se torna num alfaiate de roupas de toureiro?
O normal era esta arte ser passada de pais para filhos, mas os jovens já não se interessam e os estrangeiros têm vindo a tomar o seu lugar. Actualmente, qualquer pessoa pode ser alfaiate de roupas de toureiro, desde que tenha a vontade necessária e esteja disposto a aprender esta arte. Porque é mesmo uma arte. Utilizamos muito poucas máquinas, e as que usamos são operadas manualmente. No meu caso, todas as mulheres da família da minha mãe eram hábeis bordadeiras que usavam o padrão básico da casaca do bolero e lhe acrescentavam ornamentos. Abrimos a nossa loja depois da Guerra Civil e foi o meu irmão Fermín quem a dirigiu e a tornou bem sucedida. Aos poucos as pessoas começaram a ouvir falar de nós, até que a nossa reputação chegou ao México e ao resto do mundo. E ainda cá estamos. Depois de entrares no mundo tauromáquico, já não consegues sair. É como um vício.

Em circunstâncias diferentes talvez pudesse ter sido um toureiro…
Não, não. Eu sou o homem que veste o toureiro. Se eu for ferido, somos todos feridos. Antes de assumir o comando da loja, gostava de fazer esqui, mas agora já não posso fazer isso. Não me posso expor a nenhuma actividade perigosa.

Se me acontecesse alguma coisa, os toureiros andariam nus!

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Como é que o traje evoluiu ao longo dos anos? Faço esta pergunta porque este é um mundo bastante tradicional.
O traje não pode e não deve ser modificado. Não é necessário. O único propósito deste negócio é servir a tradição de que falou, há uma espécie de classicismo. O animal que o toureiro defronta será sempre o mesmo. A cerimónia é sempre a mesma. E os factores físicos, como o conforto que o toureiro deve ter para “dançar” em frente do touro, já são tidos em conta há muito tempo. A única coisa que foi ligeiramente modificada foi o estilo do bordado, mas as casacas são exactamente iguais às do início do século XX. Foi nessa altura que os alfaiates começaram a utilizar fibras sintéticas; antes disso, era tudo feito de seda natural. O problema da seda é que mais cedo ou mais tarde enfraquece com a luz do sol e com o próprio peso do bordado acaba por rasgar.

Imagino que as cores do traje tenham muito a ver com a idade e superstições dos matadores.
Ambas são importantes, mas o mais habitual é associar-se uma determinada cor ao sucesso. O Dámaso González, por exemplo, acreditava que com o seu traje dourado estava destinado a salir por la puerta grande em Madrid [em Espanhol, "sair pela porta grande", tanto significa "ter sucesso" como, no mundo tauromáquico, "conseguir uma morte perfeita"]. Por isso, ele encomendava um traje novo todos os anos. Quando um matador tem sucesso com uma determinada cor, costuma mantê-la.

O bordado representa algum tipo de grau ou estatuto?
Não. Quer dizer, o dourado confere um determinado estatuto, porque o prateado é inferior. O dourado representa ouro, monarquia, nobreza; o bordado dos toureiros é dourado porque o toureiro é o rei do povo. O bordado também faz com que os toureiros mais rechonchudos tenham mais estilo.

E o tal fio de ouro verdadeiro de que toda a gente fala?
Pode ser cosido no traje, até porque a grande vantagem do ouro é a sua maleabilidade. Mas é só uma camada. E não nos podemos esquecer de que o traje comum, um que não tenha muitos bordados, pesa quase 5 quilos. E como o ouro é muito mais denso do que o cobre, o traje ficaria com quase mais um quilo. E, obviamente, muito mais caro.

Preocupa-te que os trajes fiquem manchados de sangue?
Sangue? O sangue lava-se com água. A água lava tudo. Água, água e mais água! Nunca se faz um traje a pensar no sangue. Se se fizesse, os trajes seriam todos vermelhos.

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Eu sei que isto é mórbido, mas às vezes pergunto-me até que ponto é que um traje é a roupa de um super-herói ou uma mortalha.
Nunca se pensa no traje como sendo uma mortalha. Nunca. O toureiro é um homem completamente diferente antes e depois da corrida. Basta falares com ele e consegues perceber a diferença – é incrível, nota-se mesmo. Podem acontecer muitas coisas em apenas alguns minutos. Às vezes, basta uma simples aragem que faça os machos da taleguilla mexer, para que o touro os veja e mude a trajectória da sua investida. E nesse momento pode acontecer o pior. Mas não, não vejo o traje como uma mortalha. Não quero vê-lo como tal. Embora isso te passe pela cabeça, não podes pensar que estás a vestir um cadáver.

Gosto da história de Belmonte, um toureiro legendário que atravessava o rio Guadalquivir sob a lua cheia para tourear nu.
Um toureiro é sempre um toureiro – mesmo que esteja nu. Consegues ver isso no preciso momento em que ele pega na capa. Consegues vê-lo na sua calma, na sua bravura, na forma como espeta o morlaco [touro grande] e como se esquiva da sua investida.

Qual é a tua posição acerca das incursões dos grandes estilistas no mundo tauromáquico? Ainda há pouco tempo a Armani fez um goyesco [traje de tourada] para o Cayetano Rivera Ordóñez. E também Picasso tinha feito um para o Luis Miguel Dominguín, o tio-avô do Caytano…
Todos os grandes estilistas têm vontade de entrar neste mundo porque é economicamente muito atractivo. Neste negócio não podes dormir à sombra da bananeira. Mas este não é o mundo da moda. Não tem nada a ver com a Gaultier ou a Chanel. Estas marcas não sabem como dar um tão bom aspecto ao peito como nós, e é-lhes impossível fazer os bordados correctamente. Os bordadores existem graças ao mundo tauromáquico, já que os militares deixaram de bordar os seus uniformes e as casulas dos padres são uma simples peça de tecido – na verdade, são pouco mais do que uma toalha de mesa. Alguns negócios tornaram-se obsoletos fora do mundo da tourada, pelo que é óbvio que as criações tauromáquicas destes grandes estilistas nunca tenham funcionado. É um mundo secreto. Para o entenderes, tens de viver nele.

Então quem dita as tendências de uma estação? São sempre os toureiros mais conhecidos?
São. E as primeiras corridas… E aqueles que vencem… Quando um toureiro obtém sucesso com uma determinada cor, os toureiros com menos estatuto ficam atentos. Neste mundo, ao contrário do que acontece no resto da sociedade, o pai – o mestre – é respeitado.

Mas deve haver clientes que têm as suas próprias ideias…
Pois há. Mas quando falo com eles, vejo que estão apenas a sonhar. Eles pedem e eu ouço o que têm para me dizer. Depois explico-lhes que aquilo que imaginaram não serve para todos. No entanto, devo dizer que abomino o conceito de “uniformes”: este é um mundo muito colorido.
Às vezes enervo-me e rejeito as sugestões dos clientes e não há nada que me demova. Uma fita para o cabelo? Não, se não me parecer que fique bem. Um padrão no bordado que não me convence? Não faço. Zangamo-nos uns com os outros, mas um dia eles voltam e entendemo-nos.

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Qual é o toureiro mais elegante?
Teoricamente é aquele que gasta menos dinheiro. Mas na prática não funciona assim. Na sua época talvez tenha sido o José Ortega Cano. Actualmente é, sem dúvida, o Sebastián Castella. Por vários motivos. Em primeiro lugar, tem o corpo ideal. Talvez haja toureiros que gastam mais dinheiro, mas não se fazem omeletas sem ovos! Por outro lado, há alguns toureiros que não ficam particularmente bem num traje de luces, mas a sua garra e devoção faz com que se destaquem. Há alguns truques. Como saber medir os passos que se dão, ou ter cuidado com o que se diz. Os toureiros não costumam ser muito faladores. Ao fim e ao cabo, há homens que têm a arte dentro de si e outros que não. Nas touradas, como em qualquer outra área, há os maestros e os carregadores de piano.

E a Fermín vestiu-os a todos…
A todos. Não posso dizer quem encomendou esta ou aquela capa, porque às vezes as peças nem sequer são para profissionais, mas para alguém que as quer usar como panos para decoração da mobília. Mas estamos a falar de uma peça que pode levar um ano a ser feita! Uma vez veio cá um mexicano que trabalhava na equipa de segurança do Bill Clinton e encomendou-me uma capa; só há dois sítios onde se pode conhecer bem um homem: na cama ou num bar, e como obviamente eu não ia levar este tipo para a cama, levei-o a tomar uns copos de vinho. No bar, acabou por me confessar que tinha entrado ilegalmente nos EUA e que se lembrava das corridas em Tijuana a que o seu avô o costumava levar quando era criança. Já em Washington casou com uma americana que detestava touradas, mas isso não o impediu de encomendar uma capa com um bordado da Virgem de Guadalupe.

E quanto é que me custaria um traje? Algo simples, que eu pudesse vestir para ir comprar o pão.
Seria um pedaço de pão bem caro… A vestimenta básica custaria cerca de 3280 euros. Mas tal como com os carros, o custo aumenta à medida que se lhe adicionam os extras. Escolher entre um corte ou outro, pôr uns enfeites… caireles, que são pontos duplos feitos na seda…

É capaz de reconhecer uma das suas capas se a vir em acção? É que na verdade não são apenas pedaços de tecido – a forma como o peso é distribuído faz com que estejam mais próximas de uma peça de engenharia.
Sim, claro. Há alguns anos a capa era circular, como uma roda, e era por isso que antigamente o toureiro segurava na capa de lado. A dada altura os toureiros exigiram que se reduzisse o raio das capas. Quase nenhum dos toureiros actuais seria capaz de tourear com uma destas capas de seda de antigamente. Aquelas coisas levantavam-se sozinhas; era preciso muita paciência e um pulso forte para as utilizar. O estilo mudou depois de o Manolete ter começado a tourear na vertical, o que faz com que o touro passe muito mais perto do matador durante a investida. É o estilo que o José Tomás usa actualmente.

A primeira tourada que vi foi com o José Tomás e não fazia a mínima ideia de quem ele era. Isto aconteceu há dois anos, em Barcelona. Não conhecia ninguém que gostasse de tourada, nem mesmo na minha família; e para dizer a verdade, eu era completamente contra ela. Mas o que mais me irritava eram as pessoas que me tentavam impingir uma forma de pensar. Por isso, fui ver por mim mesmo. No princípio, quando o primeiro touro foi picado, foi um choque. Mas rapidamente lhe apanhei o gosto e agora estou completamente viciado. Mas é difícil admitir isto na Catalunha, onde o sentimento geral é de que “isto não é para nós”.
Mas acha que é mesmo assim? Não será porque para eles a tourada é sinónimo de “Espanha”? Tornou-se uma questão política.

Sim, em parte. Mas o argumento contra a tauromaquia insiste em afirmar que esta é uma tradição antiquada e primitiva.
Então porque é que não criticam as pirâmides do Egipto? Ou a Dama de Elche? As tradições antigas têm de ser preservadas – têm valor. As coisas não se constroem a partir do nada. É verdade que há muitas coisas arcaicas na tourada, mas para mim, isso é algo de positivo.

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Para mim foi quase uma epifania e gostava de poder partilhar isto com as pessoas, mas é impossível. Sempre que falo no assunto as pessoas ficam irritadas e recusam-se a ouvir-me.
É uma pena para Barcelona! Costumava ser uma das cidades tauromáquicas mais importantes em Espanha. Depois começou a enfraquecer. E ter toureiros de menor qualidade indica que o público não espera grande coisa… Mas não me parece que as campanhas parlamentares que querem banir as touradas venham a ter algum efeito prático.

Para informação dos nossos leitores não espanhóis, diga-se que várias colectividades sociais catalãs lançaram uma iniciativa legislativa que pretende banir as touradas no território Catalão. Espera-se que seja tomada uma decisão parlamentar definitiva entre Março e Abril. Mas sim, acho que a tourada é algo de “natural” e não pode morrer ou ser ilegalizada. A acontecer, terá o mesmo efeito que uma proibição do álcool.
Exactamente. Não me interessa se há touradas ou não. Mas parece-me perigoso chegar ao ponto de proibir hábitos e tradições. Se as corridas não devessem existir, desapareceriam por elas mesmas. A proibição não trará nada de benéfico. O problema da tauromaquia actual é que não existe nenhuma figura suficientemente carismática para mostrar o poder da “festa brava” ao grande público.

O José Tomás não poderia ser essa figura?
O José Tomás é especial por diversos motivos. Ele é muito chegado à sua cuadrilla [equipa], o que actualmente, é bastante invulgar. É muito generoso, mas ninguém o sabe porque ele não deixa que a comunicação social publique assuntos desse tipo. Na sua enorme dimensão humana, ele concentra tudo o que há de bom no mundo dos toros. A história da tourada não se faz apenas na arena.

E ele não faz o sinal da cruz em frente ao touro. Ele está a conseguir novos adeptos para a “festa brava” pela sua arte, mas também pela sua atitude ateísta e antimonárquica. Ele cita Yukio Mishima e não a Virgem de Macarena. Parece-me que descarta os aspectos conservadores e pouco claros que afastam algumas camadas da sociedade. E ao eliminar os aspectos mais conservadores da tourada, está a desbravar o caminho pelo qual chegará um novo tipo de aficionado.
Não me parece que o José Tomás seja anti-o que quer que seja. Ele é apenas eclético. É um homem de princípios com um grande coração. É honesto e nunca “se curva” perante alguém que não sinta que o merece.

O argumento anti-tourada foca-se sempre nos direitos do touro e ignora as virtudes do toureiro. Qual é a sua opinião acerca da alternativa portuguesa, onde não se mata o touro? Para mim, isso não é uma corrida de touros.
E não é. Eu vi algumas corridas em Portugal e não são excitantes. Não têm nenhum tipo de emoção. Os toureiros portugueses não espetam mesmo o touro, eles usam bandarilhas [paus afiados e decorativos] com velcro ou algo do género! São obrigados por lei a fazê-lo assim, mas isso está a mudar a tradição.

Há alguma coisa que se compare à tourada? Há alguma coisa que seja tão mortalmente séria?
Não. Não há nada igual no mundo.

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ENTREVISTA POR RUBÉN LARDÍN
FOTOGRAFIAS POR LUÍS DÍAZ
MATADOR: JAVIER CORTÉS


CABEDAL SEBOSO

26/08/2010


TEXTO POR DICK SPITZ
FOTOGRAFIAS POR DANIEL PELISSIER
Assistido por Sean Orena e Marilis Cardinal
Casacos cortesia de X20 Rio

Os punks do crust são geralmente uns montes de esterco inúteis e irritantes. Mas isso não quer dizer que não tenhamos os nossos amigos crust ou que não sigamos as tendências crust. Temos sim. E gostamos de uma data de música crust. Mas isso são excepções. A maior parte dos punks do crust são um desperdício de carne humana.

Mas ainda assim, adoramos as roupas que vestem, e isso deu-nos uma ideia para um potencial propósito de vida para os crusts. E se os pudéssemos caçar e esfolar como se fossem animais exóticos? E se isso fosse uma actividade legal? Que tal vedar uns quantos quarteirões numa dessas cidades americanas sobre-urbanizadas e sobre-populadas, pegar num bando de putos iletrados de 17 anos vestidos com t-shirts dos Discharge e num bando de sem-abrigo de meia idade com a mania que sabem viver na rua cobertos de logótipos dos Nuclear Assault, soltá-los, dar-lhes um tempo de avanço e depois ir atrás deles com arcos e flechas. Parece divertido, não?

Depois podíamos passar as tardes sentados no nosso estúdio forrado a madeira de carvalho com as presas dos punks penduradas nas paredes, ao lado das cabeças de veados e do urso empalhado. O que é que estás para aí a dizer? É ilegal matar humanos? Ainda? Nem mesmo os punks do lixo? Merda.

Ok, talvez isto seja o melhor que consigamos por agora. Existe uma loja em Montreal que juntou uma colecção bastante interessante de casacos punk, por isso vamos fotografá-los e pedir ao nosso amigo punk Steve (poupámos-lhe a vida porque ele está a servir um propósito) que avalie cada uma das peças. O Steve já faz parte da cena punk há anos (tocou em bandas como os C.C.S.S., os Wisigoth e os Inepsy) e foi um dos primeiros punks que vendeu um casaco para a colecção desta loja.

E que mais… Ah, sim, uma vez a polícia de Montreal levou-o para um beco e chicoteou-o com o seu próprio casaco porque queria provar que as tachas e os picos faziam dele uma “arma perigosa”. Espectacular, não?

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“Uau, isto é um casaco enorme. Acho que a maneira como o casaco assenta é importante, pessoalmente gosto de roupa justa. Os punks que usam casacos de cabedal com ombros enormes parecem uns idiotas. Para além disso, tenho a certeza que o tipo deste casaco era um gajo novo porque tem patches dos Sex Pistols. Adoro os Sex Pistols, mas nunca poria o nome deles no meu casaco. Nunca foram punks a sério. O punho em malha de ferro dá-lhe aquele toque de medievalismo franco-canadiano piroso, muito popular por estes lados. Este casaco não está nada mal. Está um bocado usado e isso agrada-me.”

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“Oh não, o que é aquela parte com a pele de leopardo? Dá cabo disto tudo. A frente parece um casaco de miúda que se pode encontrar em qualquer loja. Tem demasiados tipos de tachas diferentes. A maneira como tentaram fazer contrastar as mangas é muito má. E o que é aquilo nas costas? Faz-me lembrar a capa do álbum Butchered at Birth dos Cannibal Corpse. Não sou grande fã deste casaco. Não o usava.”

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“No início dos anos 90 houve uma moda em que se pintava as mangas com uma cor, e cada cor tinha um significado diferente, como o antigo código dos atacadores das botas. As mangas vermelhas significam anarquia. Já não me lembro o que é que significam as mangas verdes. A manga deste casaco tem um patch dos Banlieue Rouge. Eram uma banda punk do Quebeque que fingia ser francesa – mesmo de França. Eu sou francófono e nem mesmo eu gosto de ouvir música punk em francês. É gay. Mas o casaco é porreiro, parece algo que um punk da rua usou durante muito tempo. O gajo não era nenhum menino da mamã.”

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“Oh! Este casaco era de um amigo meu. Partilhámos um quarto há dois anos atrás. Estava com ele quando fez aquele ‘Destruction’ no braço direito. O logótipo dos Crude SS quase não se vê mas ainda lá está. Depois o gajo caiu nas drogas, precisou de dinheiro e vendou o casaco. Era um gajo porreiro; investiu muito tempo nisto. Provavelmente não recebeu nada em troca. Ainda hoje se arrepende de o ter vendido.”

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“Meu, odeio casacos pintados com spray. Prefiro o estilo feito-à-mão. O que é que é aquilo? Beherit? Nem sequer sei o que é que isso quer dizer. Tanto quanto sei, pode ser uma editora de livros. Este gajo era claramente um nerd e um bocado perdido das ideias. Quer dizer, quem é que andava na rua com esta merda vestida? O gajo usava o cabelo preto e comprido, de certeza. Mas ainda há esperança, pode-se pintar o casaco todo de preto e voltar a pôr-lhe tachas.”

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“A cena punk em Montreal está muito centrada à volta do consumo de drogas. Este gajo provavelmente mandava um monte de drogas e ouvia de tudo. Está ali Nausea — uma banda de crust nova iorquina, muito política — Sepultura e depois Slayer e Megadeth. O patch de Cradle of Filth dá cabo de todo. É a banda mais estúpida do mundo inteiro. Não acho que o tipo seja um poser, acho que simplesmente se está nas tintas.”

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“Meu deus! Ok, por onde é que começo? O mais óbvio é o logótipo de Lagwagon. Essa banda é uma merda. Porque é que o gajo deu cabo do casaco com aquilo? Quer dizer, está bem, toda a gente ouve música merdosa de vez em quando, mas não se diz a ninguém. É uma coisa que se mantém segredo. E o mesmo vai para os Screeching Weasel. Eu até gosto dessa merda pop-punk, mas nunca os poria no meu casaco. E os Rancid? Nem sequer são uma banda de punk. São uma banda que arruinou o punk. Não estou a falar em termos de música, já ouvi algumas cenas boas deles. Mas são uns idiotas das modinhas da MTV.”

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“Isto sim, é um casaco a sério. Gosto das tachas, gosto das bandas; Oxymoron, Exploited… mas, espera… Casualties? Já deu cabo de tudo. Odeio essa banda. Espero que o vocalista leia isto, porque ele sabe que eu não gosto dele. Uma vez gravei um álbum contra a banda dele; a capa era um gajo a atirar o logótipo da banda para o lixo. Começaram por ser punks mas depois só se importavam com fazer dinheiro e serem estrelas do rock. Tens cinco miúdas para te arranjarem o cabelo? Meu, arranja o cabelo sozinho.”

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“Olhem para este casaco: um monte de tachas de um lado e do outro lado um logótipo foleiro dos Dead Kennedys – não é perfeito. Tapou o rasgão do ombro com um pedaço de metal. Este gajo era o autêntico punk do caos da rua. Estava-se a cagar para tudo. Os desenhos dele são horríveis. Mas isto é um casaco punk a sério. De cada vez que se estragava, o gajo remendava-o. Há muito amor nisto. É um casaco que tem história, tem uma vida.”

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“Este gajo tem demasiadas bandas. Minor Threat, SNFU, Conflict, Crass, Black Flag, Dayglo Abortions. Parece que estava a tentar cobrir todas as bases, do género, ‘se eu usar isto, talvez os punks não me dêem uma coça. Pode ser que os miúdos do hardcore me curtam e os tipos do metal me respeitem.’ Para além disso, odeio aquele azul. E os tons de azul até são diferentes. É horrível. Mas pelo menos tem os Subhumans atrás. Ninguém pode dizer mal desses gajos.”

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“Novamente, odeio os Casualties. Se não fosse isso na manga, até gostava deste casaco. A costura vermelha é um bocado feminina. Se calhar é um casaco de miúda. Mudei-me para Montreal no início dos anos 90 para fugir aos Nazis skinheads que andavam por Ottawa. Passei cinco anos a dormir em cabines de multibanco com vagabundos que se mijavam e vomitavam todos. Nessa altura havia miúdas bem duras, com casacos à séria, que andavam à porrada e merdas assim.”

Vice Canadá


URSOS VS VIKINGS

25/08/2010


FOTOGRAFIAS POR TERRY RICHARDSON
Figurinos e Styling por Wendy Wright da New York Costumes
Assistente fotografia: David Swanson
Modelos: Bill, Carmine, Eric, Gregg, Jim, Liam, Robert, Ryan, Stephen
Styling extra e ajuda essencial por Marcelo Sebá


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TOURADA À PORTUGUESA

23/08/2010


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Tinha acabado de chegar ao Algarve, pronto para umas férias de calor, praia e alguma destruição biológica, quando recebi um telefonema da Vice: “Noel, precisamos que vás a uma corrida de touros em Albufeira. Faço-me entender?”, ao que respondi, “yes, sir!”. Troquei então a toalha e os calções de banho pela máquina fotográfica e um pacote de mortalhas – as férias tinham que esperar. Fiz-me à estrada, de cabeça erguida, pronto para uma missão que iria pôr à prova a minha capacidade de ver enormes quantidades de sangue e não desmaiar.

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Fatos amaricados, cavaleiros relativamente imponentes e sangue, muito sangue. Uma grande tourada, é o que é. Eram dez e um quarto quando os trompetes se fizeram soar na praça de touros de Albufeira e, lá em baixo, na arena, deparei-me com um cenário no mínimo bizarro. Forcados, campinos e peões de brega, todos vestidos a rigor, a abrirem caminho para as mais aclamadas vedetas da tauromaquia – os cavaleiros – que iam presenteando o público com saudações e elegantes trotes. Eram eles: Rui Salvador, Moura Caetano e imagine-se… Sónia Matias, que entrou para este culto com apenas 13 anos. Ao que parece, esta coisa das touradas não é só para homens, o que me surpreendeu, porque pensava que um dos requisitos para este ofício fosse ter um enorme par de cojones.

tourada_031Sónia Matias de costas.

Vice: Nunca foste discriminada? Isto não é cena para homens?
Sónia Matias: Inicialmente foi bastante complicado. Não só pelo facto de não ter ninguém na família que me pudesse dar essas bases iniciais, mas também com a acrescente de ser mulher, e por sua vez tornei-me a primeira mulher profissional. Comemoro este ano dez anos de alternativa. Por isso foi um bocado complicado de início, mas tudo se ultrapassou. Demonstrei que tinha força de vontade, a mesma dedicação e a mesma paixão que qualquer homem, e era digna de vestir a casaca e me tornar profissional.

Mas não é qualquer um que chega a cavaleiro…
Não, claro que não! Como em qualquer área tem que haver muito trabalho, muita dedicação, tive de ter uma aprendizagem desde raiz. Tentando não só ver os meus colegas, mas também aprender com eles, pois não tinha mais ninguém que me desse indicações. Mas tudo se consegue quando queremos. Vamos aprendendo e aperfeiçoando e vamos atingindo os nossos objectivos.

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Não quero ser injusto com ninguém, mas por amor de Deus, quem é o macho que vai literalmente para a praça pública de collants e cintura apertada por uma tira vermelha sexy fazer frente a um bicho cornudo de 400 ou 500 quilos? No meio disto tudo só posso concluir que, ou são de facto muito corajosos e têm “uma auto-estima maior que as outras pessoas”, como diz Amorim – cabo do grupo de forcados de Coruche – ou então, não têm grande amor à vida e vêem no masoquismo a libertação dos seus demónios.

tourada_05Grupo de forcados com collants panilas.

tourada_06A virilidade dos bandarilheiros ou peões de brega em todo o seu esplendor.

Vice: Se me quiser tornar forcado, o que é que tenho de fazer?
Cabo Amorim: Tens de ir para um grupo e começar os treinos. Mas, um grupo de forcados é, acima de tudo, um grupo de amigos. São vários amigos que, a pouco e pouco, vão-se juntando ao grupo, treinando e mostrando as suas qualidades. Alguns ficam e outros, apesar de gostarem, não têm capacidades para ficar.

Mas quais são os requisitos?
Acima de tudo ser aficionado e gostar muito da festa de touros!

O barrete que vocês enfiam até aos olhos é para ser mais fácil enfrentar o touro?
Não, o barrete serve para nos proteger das bandeirinhas. É mais por causa disso e também porque o maior símbolo do forcado é o barrete.

Nunca gostei que me enfiassem o barrete, por isso também não o ia fazer deliberadamente. Mito ou não, andar trajado tem sido ao longo dos tempos uma vantagem social para atrair mulheres que não abdicam de uma queca fardada. Para destruir os preconceitos na minha cabeça, decidi apurar – numa réstia de esperança – se andar em touradas é, ou não, uma forma de chegar às bernardas – uma espécie muito limpinha. Para isso, estive à conversa com António Carrie, forcado de 18 anos, que após uma corajosa pega – que segundo ele correu bem – ficou com a cara lavada em sangue.

Vice: É verdade que um gajo trajado atrai fêmeas mais facilmente?
António Carrie: Não faço ideia.

Não tens sentido isso?
Não tenho.

Onde é que podia dar uma escapadinha aqui na praça de touros?
É a primeira vez que cá venho…

tourada_07Depois de uma pega bem-sucedida.

Talvez daqui a uns anos a história seja diferente para Ricardo. Mesmo assim, depois do seu testemunho a única certeza com que fiquei foi que não fui feito para ser forcado. Gosto muito da minha vidinha e para cornos já basta aqueles a que nenhum homem tem a certeza de se poder ver livre. Mas não convencido da ineficiência dos trajes no universo da tauromaquia, decidi dar o benefício da dúvida a este nicho tão peculiar e procurei, junto dos mais velhos, averiguar se valeria a pena tentar a minha sorte como peão de brega. Comigo à conversa, esteve Ricardo Pedro, 31 anos, bandarilheiro – que é o gajo que anda a abanar aquele lençol cor-de-rosa na arena e que supostamente auxilia o cavaleiro nas suas lides. Como se um tipo que anda a cavalo com uma farpa na mão precisasse de guarda-costas…

tourada_08“Ena pá! Que granda picanha que vai sair dali.”

Vice: Onde é que vocês desencantam essas fardas?
Ricardo Pedro: São todas feitas em Madrid.

Não costumam ser gozados por causa das missangas?
Não, não!

Sentem-se confortáveis com essas roupas?
Mais ou menos.

Não são muito justas?
É assim, também se ficassem largas não ficavam esteticamente bonitas. Por isso usamos os fatos assim justos, mas quando são bem feitos e ficam bem no corpo não incomodam.

Mas o fato precisa de ter muito espaço para as vossas bolas. É que elas têm mesmo de ser grandes para vocês entrarem na arena, não?
É uma profissão como outra qualquer. Todas as profissões têm os seus riscos, umas mais outras menos. Isto são coisas que já nascem connosco e, ao longo dos anos, vamos aperfeiçoando a técnica e superando o medo.

É certo que não nasci com a vocação necessária para andar com os tomatinhos apertados a pavonear um lenço cor-de-rosa perante multidões sedentas de sangue. Mas a esposa de Ricardo Pedro não podia estar mais feliz. “É aficionada! Já antes de começarmos a namorar era aficionada e sempre assistiu a corridas de touros.” A minha teoria estava certa. Ainda há mulheres que se deixam fascinar por uma farda justa cravada de missangas – esse adereço tão viril.

Hugo Silva, bandarilheiro há catorze anos, é religioso, e como todos os que pisam a arena, faz questão de se benzer antes da corrida. “Penso que todos os toureiros antes de pisarem uma arena pedem ajuda a Deus, nosso Senhor”. Fiquei atónito. Será que eles pedem ajuda para fazer sofrer os touros?

Hugo Silva: A gente pede ajuda para, como artistas que somos, fazer divertir o público e tudo correr bem. Não é para fazer sofrer ninguém!

Vice: E não tens pena dos touros?
Não. O touro é um bicho que foi feito para isto e está preparado para este tipo de eventos. Se não fosse isto, o touro bravo já estaria extinto.

O que é que te leva a crer que o touro foi feito para as touradas?
A reacção que o touro bravo tem em campo. Penso que é um animal que ao longo dos anos se foi preparando para este tipo de espectáculo.

tourada_09Hugo Silva, o bandarilheiro religioso.

O Sr. Jorge, responsável pelas portas dos cavaleiros e dos curros – acesso por onde entram os touros – também teve boas lições para dar a um jovem repórter à procura da sua sorte no mundo das touradas.

Vice: Qual é o melhor sítio para se fazer o amor numa praça de touros?
Sr. Jorge: Na cavalaria. Lá tem palha.

É confortável?
É, é!

Já teve alguma aventura numa praça de touros?
Não, não. Aqui não.

Devo admitir que fiquei um pouco confuso, mas ainda assim aliviado. Se por um lado, ninguém admitia ter trocado fluidos num espaço tão propenso a emoções fortes, por outro já não podia pôr em questão a virilidade destes homens.

Como a pecuária nunca foi a minha pesca, não tive grandes dificuldades em perceber que ser campino também não seria uma opção para um puto da minha envergadura. Andar a correr com uma vara atrás das vacas, que por sua vez correm atrás de um touro para o expulsar da arena, pareceu-me uma cena para pessoal com muito andamento. Por isso, sem perder tempo, tentei perceber se tinha alguma hipótese como cavaleiro, o mais vangloriado ofício da tauromaquia. Afinal de contas, na hora de receber os ramos de flores, até pode ser o forcado todo ensanguentado e com uma costela partida a apanhá-los, mas salvo muito raras excepções, acabam por ir parar às mãos do cavaleiro.

tourada_10Sónia Matias de frente.

Vice: Como é que é um dia de um cavaleiro?
Sónia Matias: É levantar cedo, montar os cavalos, uma ou duas vezes consoante a necessidade de cada montada, estendendo-se até à noite. É um dia debruçado com os nossos companheiros de trabalho, os cavalos.

Portanto é um dia todo a montar…
Um dia todo a andar a cavalo, que é o que eu gosto de fazer!

Finalmente parecia identificar-me com alguma coisa. Tal como Sónia Matias, também gosto muito de participar em cavalgadas. Contudo, havia um senão…

A nível financeiro… imagino que seja preciso um grande suporte, não?
Tive a sorte de ter uma família que felizmente me pôde ajudar inicialmente. É um investimento que se pode dizer elevado, a nível de cavalos e de tudo o que está envolvido, desde as selas às instalações, ao camião para as deslocações, aos empregados… Acarreta despesas acrescidas. Se não tivesse uma família que me pudesse apoiar financeiramente seria completamente impossível.

Para ser cavaleiro é preciso ser rico? Ou é fácil conseguir patrocínios?
Não é muito fácil conseguir patrocínios. Como é óbvio há sempre pessoas boas e pessoas que se disponibilizam para nos ajudar, mas infelizmente é uma profissão que é necessário pelo menos algum dinheiro de base para se começar e, aos poucos, ir adquirindo o seu mealheiro para poder fazer novos investimentos em cavalos.

Ora bolas! A minha última esperança tinha ido por água abaixo. Não sou filho de pais ricos, nem conheço nenhum bom samaritano.

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Desalentado, deixei a trincheira e fui para as bancadas tentar perceber o que ia na cabeça da assistência. Foi então que conheci o irlandês Owen, e o seu filho Aiden que, apesar de ter apenas dez anos de idade, já é apreciador de touradas, mas segundo ele só para ver os touros.

Vice: Na Irlanda também há touradas?
Owen: Não, de forma alguma! [Risos]

Como é que vês isto?
É uma boa experiência. Na Irlanda não seria aceitável o tratamento que aqui se dá aos touros.

Achas muito violento?
Não é boa cena. É interessante, mas não é boa cena.

Achas que as corridas de touros deveriam ser proibidas?
Não necessariamente. É uma propriedade cultural. Na Irlanda não seria aceitável, mas se aqui é permitido…

Se forem proibidas, achas que vai ser uma grande perda cultural?
Penso que sim. É importante que os diferentes países tenham a sua própria identidade cultural. Na Irlanda também fazemos coisas que não seriam aceites noutros países da Europa. É importante dar continuidade às coisas que nos caracterizam.

É certo que o tratamento que por cá se dá aos touros seria inaceitável noutros países. Quererá isto dizer alguma coisa sobre a nossa sociedade e da forma como pensa? Continuarão os lobbies do negócio da tourada a falar mais alto que a Declaração Universal dos Direitos dos Animais? Ou por outro lado, a continuidade da tradição e da identidade cultural, bem como a sobrevivência de alguns milhares de pessoas ligadas a esta forma de arte justificam o sofrimento infligido aos animais?

Vice: À noite costumas ter pesadelos com touros?
Sónia Matias: Não, nunca tive pesadelos com touros. Tenho sempre sonhos bons! Grandes lides, grandes triunfos! Sempre coisas boas! Os touros trazem-me momentos de grande felicidade. Vivo na arena os minutos mais felizes da minha vida e tento também, quando durmo, sonhar coisas boas referentes aos touros.

Ultimamente tem havido muitas manifestações para acabar com as corridas de touros. O que vais fazer se acabarem?
Não acredito que as corridas de touros vão acabar, pelo menos enquanto exercer esta profissão. Pode haver muitas manifestações, mas também se pode provar – e hoje aqui dá para ver nesta moldura humana – que cada vez vem mais gente aos touros, que há mais público jovem. Significa que estão a reforçar a festa e que não vai acabar. Acho que acima de tudo tem de haver respeito mútuo. Eu sei respeitar quem não gosta. Fiz, por exemplo, um curso de Gestão de Ambiente onde “n” colegas meus eram contra a festa brava, mas sempre os ouvi, aceitei, respeitei. É isso que espero que façam aos apaixonados por esta festa.

tourada_12O público desconfiado.

Vice: Queres deixar alguma mensagem para o Movimento Português Anti-Touradas?
Hugo Silva: Que se informem e que aprofundem mais o que é este espectáculo antes de fazer manifestações. E que não tirem conclusões precipitadas.

Mas consegues perceber o ponto de vista deles?
Hoje, cada um é livre de dizer o que quiser. Há pessoas que gostam de futebol, outras que gostam de teatro. Nós gostamos de touradas. Deixem-nos gostar que a gente também não se mete na vida deles. Eles também gostam de outro tipo de coisas que sabemos quais são e a gente também não se manifesta.

tourada_13O nervosismo do cavalo antes da arena.

Terminado o espectáculo, estava na hora de abandonar o recinto. Percebi que não fui feito para estas touradas. Que a praça de touros é um verdadeiro espaço de culto. Tal como na religião ou no futebol, praticantes e adeptos são pessoas devotas: à arte, a ideais, à tradição prorrogada por gerações ou, simplesmente, às emoções que estas lhes podem proporcionar. Mas, como qualquer aficionado, também os fãs da tourada ficam muitas vezes obtusos com raciocínios exauridos de sentido. Quanto a mim, a participação em touradas vai resumir-se àquelas dentro de quatro paredes ou de um qualquer espaço público que seja propício para o efeito.


TEXTO E FOTOGRAFIAS POR NOEL VIEIRA