ANTONIO LOPEZ FUENTES: A ESCOLHA DOS TOUREIROS

Um dos principais elementos da tourada é o traje. Habitualmente este é bastante colorido e é bordado com apliques, lantejoulas e ouro e prata reais através de um processo complexo. Em Espanha estas vestimentas são conhecidas como trajes de luces (“trajes de luzes”). O traje da tourada é uma variação da vestimenta tradicional dos majos, homens castelhanos do século XVIII que se distinguiam pelo seu estilo extravagante. De baixo para cima, um traje é composto por sapatos rasos, taleguilla [espécie de calções] ou calças justas, suspensórios, uma cinta, uma camisa, um colete, uma casaca e uma gravata ou um lenço de pescoço. E depois vem o mais importante: uma capa amarela e cor-de-rosa, utilizada para a “dança” e a muleta, uma capa vermelha bastante mais pequena, que é utilizada na fase final da luta para atrair o touro para a sua morte.
Em Espanha, actualmente não há mais do que meia-dúzia de alfaiates que se dedicam a vestir toureiros, sendo que a maioria aprendeu a sua arte na Sastrería Fermín, em Madrid. Isto torna este lugar numa espécie de faculdade do mundo tauromáquico. Antonio López Fuentes, o homem por detrás deste negócio, veste toureiros há 50 anos. A sua vida está tão marcada pela história e tradição da tourada, como a areia da arena fica marcada pelo sangue do touro após uma corrida.
Vice: Uma alfaiataria onde se pode fumar? Hoje em dia nem nos bares se pode fumar…
Antonio López Fuentes: Nesta loja, quem quiser fumar, fuma. O que é que acha que o Morante faz com aqueles charutos Farias enormes de que ele tanto gosta?
Para os nossos leitores que não são espanhóis: Morante de la Pubela é um toureiro famoso. Antonio, explica-nos então como é que os toureiros se vestem. Imagino que haja muita preparação… um pouco como uma noiva no dia do seu casamento.
Claro. Vestir o traje a um homem é relativamente fácil, mas leva algum tempo. Este processo tem até um vocabulário próprio. Por exemplo, o toureiro pode sentir-se bien apretado, o que significa que enquanto se está a vestir, deve sentir que as roupas estão bem justas. Há também alguns detalhes curiosos. Como a forma de amarrar os machos, por exemplo. Os machos, que são as franjas que caem das dragonas ou da taleguilla, e que o público arranca da casaca quando o matador é bem sucedido e retirado da arena em ombros, são presos com água ou saliva. Tudo isto faz parte dos bastidores; é o tipo de coisas que só podes ver quando tens uma grande amizade com um toureiro e vais ao hotel ajudá-lo a vestir-se. Isto é muito sério. É um ritual sagrado. O toureiro veste-se sempre em frente a um espelho e é aí que começa a ganhar a confiança, a motivação e a coragem de que vai precisar na arena. Enquanto se veste, o toureiro alcança a concentração necessária.

Mas há algo de feminino nos trajes…
É tudo muito feminino. É por isso que não lhe chamamos “fato”. Antigamente não havia escolas tauromáquicas: os toureiros aprendiam a arte no campo e não importava se eram filhos dos donos das terras ou simples trabalhadores das fazendas de então. Assim, aqueles rapazes morenos de 14, 15 anos toureavam em tronco nu. Os donos das terras costumavam estar longe, em negócios, mas as suas mulheres ficavam nas fazendas. E de vez em quando estas mulheres soltavam um bezerro só para verem os movimentos dos rapazes.
Ao fim e ao cabo, está tudo relacionado com o impulso erótico feminino…
Sem dúvida. Estas mulheres acabaram por fazer as peças de roupa que os toureiros vestiam. Actualmente, se lhe apetecer, um homem pode usar um traje cor-de-rosa, mas na altura, as cores com que estas mulheres vestiam os rapazes não eram normais. Elas vestiam-nos como mulheres, mas sem lhes tirar o seu aspecto masculino. No entanto, se hoje vires uma mulher com um traje de luces ela vai-te parecer muito masculina… por muito grande que o seu rabo seja.
Como é que alguém se torna num alfaiate de roupas de toureiro?
O normal era esta arte ser passada de pais para filhos, mas os jovens já não se interessam e os estrangeiros têm vindo a tomar o seu lugar. Actualmente, qualquer pessoa pode ser alfaiate de roupas de toureiro, desde que tenha a vontade necessária e esteja disposto a aprender esta arte. Porque é mesmo uma arte. Utilizamos muito poucas máquinas, e as que usamos são operadas manualmente. No meu caso, todas as mulheres da família da minha mãe eram hábeis bordadeiras que usavam o padrão básico da casaca do bolero e lhe acrescentavam ornamentos. Abrimos a nossa loja depois da Guerra Civil e foi o meu irmão Fermín quem a dirigiu e a tornou bem sucedida. Aos poucos as pessoas começaram a ouvir falar de nós, até que a nossa reputação chegou ao México e ao resto do mundo. E ainda cá estamos. Depois de entrares no mundo tauromáquico, já não consegues sair. É como um vício.
Em circunstâncias diferentes talvez pudesse ter sido um toureiro…
Não, não. Eu sou o homem que veste o toureiro. Se eu for ferido, somos todos feridos. Antes de assumir o comando da loja, gostava de fazer esqui, mas agora já não posso fazer isso. Não me posso expor a nenhuma actividade perigosa.
Se me acontecesse alguma coisa, os toureiros andariam nus!

Como é que o traje evoluiu ao longo dos anos? Faço esta pergunta porque este é um mundo bastante tradicional.
O traje não pode e não deve ser modificado. Não é necessário. O único propósito deste negócio é servir a tradição de que falou, há uma espécie de classicismo. O animal que o toureiro defronta será sempre o mesmo. A cerimónia é sempre a mesma. E os factores físicos, como o conforto que o toureiro deve ter para “dançar” em frente do touro, já são tidos em conta há muito tempo. A única coisa que foi ligeiramente modificada foi o estilo do bordado, mas as casacas são exactamente iguais às do início do século XX. Foi nessa altura que os alfaiates começaram a utilizar fibras sintéticas; antes disso, era tudo feito de seda natural. O problema da seda é que mais cedo ou mais tarde enfraquece com a luz do sol e com o próprio peso do bordado acaba por rasgar.
Imagino que as cores do traje tenham muito a ver com a idade e superstições dos matadores.
Ambas são importantes, mas o mais habitual é associar-se uma determinada cor ao sucesso. O Dámaso González, por exemplo, acreditava que com o seu traje dourado estava destinado a salir por la puerta grande em Madrid [em Espanhol, "sair pela porta grande", tanto significa "ter sucesso" como, no mundo tauromáquico, "conseguir uma morte perfeita"]. Por isso, ele encomendava um traje novo todos os anos. Quando um matador tem sucesso com uma determinada cor, costuma mantê-la.
O bordado representa algum tipo de grau ou estatuto?
Não. Quer dizer, o dourado confere um determinado estatuto, porque o prateado é inferior. O dourado representa ouro, monarquia, nobreza; o bordado dos toureiros é dourado porque o toureiro é o rei do povo. O bordado também faz com que os toureiros mais rechonchudos tenham mais estilo.
E o tal fio de ouro verdadeiro de que toda a gente fala?
Pode ser cosido no traje, até porque a grande vantagem do ouro é a sua maleabilidade. Mas é só uma camada. E não nos podemos esquecer de que o traje comum, um que não tenha muitos bordados, pesa quase 5 quilos. E como o ouro é muito mais denso do que o cobre, o traje ficaria com quase mais um quilo. E, obviamente, muito mais caro.
Preocupa-te que os trajes fiquem manchados de sangue?
Sangue? O sangue lava-se com água. A água lava tudo. Água, água e mais água! Nunca se faz um traje a pensar no sangue. Se se fizesse, os trajes seriam todos vermelhos.

Eu sei que isto é mórbido, mas às vezes pergunto-me até que ponto é que um traje é a roupa de um super-herói ou uma mortalha.
Nunca se pensa no traje como sendo uma mortalha. Nunca. O toureiro é um homem completamente diferente antes e depois da corrida. Basta falares com ele e consegues perceber a diferença – é incrível, nota-se mesmo. Podem acontecer muitas coisas em apenas alguns minutos. Às vezes, basta uma simples aragem que faça os machos da taleguilla mexer, para que o touro os veja e mude a trajectória da sua investida. E nesse momento pode acontecer o pior. Mas não, não vejo o traje como uma mortalha. Não quero vê-lo como tal. Embora isso te passe pela cabeça, não podes pensar que estás a vestir um cadáver.
Gosto da história de Belmonte, um toureiro legendário que atravessava o rio Guadalquivir sob a lua cheia para tourear nu.
Um toureiro é sempre um toureiro – mesmo que esteja nu. Consegues ver isso no preciso momento em que ele pega na capa. Consegues vê-lo na sua calma, na sua bravura, na forma como espeta o morlaco [touro grande] e como se esquiva da sua investida.
Qual é a tua posição acerca das incursões dos grandes estilistas no mundo tauromáquico? Ainda há pouco tempo a Armani fez um goyesco [traje de tourada] para o Cayetano Rivera Ordóñez. E também Picasso tinha feito um para o Luis Miguel Dominguín, o tio-avô do Caytano…
Todos os grandes estilistas têm vontade de entrar neste mundo porque é economicamente muito atractivo. Neste negócio não podes dormir à sombra da bananeira. Mas este não é o mundo da moda. Não tem nada a ver com a Gaultier ou a Chanel. Estas marcas não sabem como dar um tão bom aspecto ao peito como nós, e é-lhes impossível fazer os bordados correctamente. Os bordadores existem graças ao mundo tauromáquico, já que os militares deixaram de bordar os seus uniformes e as casulas dos padres são uma simples peça de tecido – na verdade, são pouco mais do que uma toalha de mesa. Alguns negócios tornaram-se obsoletos fora do mundo da tourada, pelo que é óbvio que as criações tauromáquicas destes grandes estilistas nunca tenham funcionado. É um mundo secreto. Para o entenderes, tens de viver nele.
Então quem dita as tendências de uma estação? São sempre os toureiros mais conhecidos?
São. E as primeiras corridas… E aqueles que vencem… Quando um toureiro obtém sucesso com uma determinada cor, os toureiros com menos estatuto ficam atentos. Neste mundo, ao contrário do que acontece no resto da sociedade, o pai – o mestre – é respeitado.
Mas deve haver clientes que têm as suas próprias ideias…
Pois há. Mas quando falo com eles, vejo que estão apenas a sonhar. Eles pedem e eu ouço o que têm para me dizer. Depois explico-lhes que aquilo que imaginaram não serve para todos. No entanto, devo dizer que abomino o conceito de “uniformes”: este é um mundo muito colorido.
Às vezes enervo-me e rejeito as sugestões dos clientes e não há nada que me demova. Uma fita para o cabelo? Não, se não me parecer que fique bem. Um padrão no bordado que não me convence? Não faço. Zangamo-nos uns com os outros, mas um dia eles voltam e entendemo-nos.

Qual é o toureiro mais elegante?
Teoricamente é aquele que gasta menos dinheiro. Mas na prática não funciona assim. Na sua época talvez tenha sido o José Ortega Cano. Actualmente é, sem dúvida, o Sebastián Castella. Por vários motivos. Em primeiro lugar, tem o corpo ideal. Talvez haja toureiros que gastam mais dinheiro, mas não se fazem omeletas sem ovos! Por outro lado, há alguns toureiros que não ficam particularmente bem num traje de luces, mas a sua garra e devoção faz com que se destaquem. Há alguns truques. Como saber medir os passos que se dão, ou ter cuidado com o que se diz. Os toureiros não costumam ser muito faladores. Ao fim e ao cabo, há homens que têm a arte dentro de si e outros que não. Nas touradas, como em qualquer outra área, há os maestros e os carregadores de piano.
E a Fermín vestiu-os a todos…
A todos. Não posso dizer quem encomendou esta ou aquela capa, porque às vezes as peças nem sequer são para profissionais, mas para alguém que as quer usar como panos para decoração da mobília. Mas estamos a falar de uma peça que pode levar um ano a ser feita! Uma vez veio cá um mexicano que trabalhava na equipa de segurança do Bill Clinton e encomendou-me uma capa; só há dois sítios onde se pode conhecer bem um homem: na cama ou num bar, e como obviamente eu não ia levar este tipo para a cama, levei-o a tomar uns copos de vinho. No bar, acabou por me confessar que tinha entrado ilegalmente nos EUA e que se lembrava das corridas em Tijuana a que o seu avô o costumava levar quando era criança. Já em Washington casou com uma americana que detestava touradas, mas isso não o impediu de encomendar uma capa com um bordado da Virgem de Guadalupe.
E quanto é que me custaria um traje? Algo simples, que eu pudesse vestir para ir comprar o pão.
Seria um pedaço de pão bem caro… A vestimenta básica custaria cerca de 3280 euros. Mas tal como com os carros, o custo aumenta à medida que se lhe adicionam os extras. Escolher entre um corte ou outro, pôr uns enfeites… caireles, que são pontos duplos feitos na seda…
É capaz de reconhecer uma das suas capas se a vir em acção? É que na verdade não são apenas pedaços de tecido – a forma como o peso é distribuído faz com que estejam mais próximas de uma peça de engenharia.
Sim, claro. Há alguns anos a capa era circular, como uma roda, e era por isso que antigamente o toureiro segurava na capa de lado. A dada altura os toureiros exigiram que se reduzisse o raio das capas. Quase nenhum dos toureiros actuais seria capaz de tourear com uma destas capas de seda de antigamente. Aquelas coisas levantavam-se sozinhas; era preciso muita paciência e um pulso forte para as utilizar. O estilo mudou depois de o Manolete ter começado a tourear na vertical, o que faz com que o touro passe muito mais perto do matador durante a investida. É o estilo que o José Tomás usa actualmente.
A primeira tourada que vi foi com o José Tomás e não fazia a mínima ideia de quem ele era. Isto aconteceu há dois anos, em Barcelona. Não conhecia ninguém que gostasse de tourada, nem mesmo na minha família; e para dizer a verdade, eu era completamente contra ela. Mas o que mais me irritava eram as pessoas que me tentavam impingir uma forma de pensar. Por isso, fui ver por mim mesmo. No princípio, quando o primeiro touro foi picado, foi um choque. Mas rapidamente lhe apanhei o gosto e agora estou completamente viciado. Mas é difícil admitir isto na Catalunha, onde o sentimento geral é de que “isto não é para nós”.
Mas acha que é mesmo assim? Não será porque para eles a tourada é sinónimo de “Espanha”? Tornou-se uma questão política.
Sim, em parte. Mas o argumento contra a tauromaquia insiste em afirmar que esta é uma tradição antiquada e primitiva.
Então porque é que não criticam as pirâmides do Egipto? Ou a Dama de Elche? As tradições antigas têm de ser preservadas – têm valor. As coisas não se constroem a partir do nada. É verdade que há muitas coisas arcaicas na tourada, mas para mim, isso é algo de positivo.

Para mim foi quase uma epifania e gostava de poder partilhar isto com as pessoas, mas é impossível. Sempre que falo no assunto as pessoas ficam irritadas e recusam-se a ouvir-me.
É uma pena para Barcelona! Costumava ser uma das cidades tauromáquicas mais importantes em Espanha. Depois começou a enfraquecer. E ter toureiros de menor qualidade indica que o público não espera grande coisa… Mas não me parece que as campanhas parlamentares que querem banir as touradas venham a ter algum efeito prático.
Para informação dos nossos leitores não espanhóis, diga-se que várias colectividades sociais catalãs lançaram uma iniciativa legislativa que pretende banir as touradas no território Catalão. Espera-se que seja tomada uma decisão parlamentar definitiva entre Março e Abril. Mas sim, acho que a tourada é algo de “natural” e não pode morrer ou ser ilegalizada. A acontecer, terá o mesmo efeito que uma proibição do álcool.
Exactamente. Não me interessa se há touradas ou não. Mas parece-me perigoso chegar ao ponto de proibir hábitos e tradições. Se as corridas não devessem existir, desapareceriam por elas mesmas. A proibição não trará nada de benéfico. O problema da tauromaquia actual é que não existe nenhuma figura suficientemente carismática para mostrar o poder da “festa brava” ao grande público.
O José Tomás não poderia ser essa figura?
O José Tomás é especial por diversos motivos. Ele é muito chegado à sua cuadrilla [equipa], o que actualmente, é bastante invulgar. É muito generoso, mas ninguém o sabe porque ele não deixa que a comunicação social publique assuntos desse tipo. Na sua enorme dimensão humana, ele concentra tudo o que há de bom no mundo dos toros. A história da tourada não se faz apenas na arena.
E ele não faz o sinal da cruz em frente ao touro. Ele está a conseguir novos adeptos para a “festa brava” pela sua arte, mas também pela sua atitude ateísta e antimonárquica. Ele cita Yukio Mishima e não a Virgem de Macarena. Parece-me que descarta os aspectos conservadores e pouco claros que afastam algumas camadas da sociedade. E ao eliminar os aspectos mais conservadores da tourada, está a desbravar o caminho pelo qual chegará um novo tipo de aficionado.
Não me parece que o José Tomás seja anti-o que quer que seja. Ele é apenas eclético. É um homem de princípios com um grande coração. É honesto e nunca “se curva” perante alguém que não sinta que o merece.
O argumento anti-tourada foca-se sempre nos direitos do touro e ignora as virtudes do toureiro. Qual é a sua opinião acerca da alternativa portuguesa, onde não se mata o touro? Para mim, isso não é uma corrida de touros.
E não é. Eu vi algumas corridas em Portugal e não são excitantes. Não têm nenhum tipo de emoção. Os toureiros portugueses não espetam mesmo o touro, eles usam bandarilhas [paus afiados e decorativos] com velcro ou algo do género! São obrigados por lei a fazê-lo assim, mas isso está a mudar a tradição.
Há alguma coisa que se compare à tourada? Há alguma coisa que seja tão mortalmente séria?
Não. Não há nada igual no mundo.



ENTREVISTA POR RUBÉN LARDÍN
FOTOGRAFIAS POR LUÍS DÍAZ
MATADOR: JAVIER CORTÉS