VICELAND HOJE - 07/2010



MILHÕES DE FESTA: O RESCALDO

31/07/2010


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A perspectiva da Vice para cobrir este evento foi retirada da imagem de um polvo. Tentáculos que penetrassem no festival de diferentes formas, com diferentes intensidades. Tivemos vários repórteres, com estilos próprios, a sondar múltiplas profundidades, musicais e existenciais. No final, decidimos fazer um arroz com este polvo. O festival, após dias de reflexão e descanso, é digno deste banquete. São muitas palavras. E muitas fotografias. Quem dá início à nossa história é a Sara Costa.


Milhões. Palavra apropriada e já gasta de tanto uso. Nunca cansa. Nem a previsibilidade de todos os trocadilhos que ouvi e que continuam a ecoar: “curti milhões”, “milhões de espanhóis”, “milhões de judeus”, “milhões de música”, “milhões de mergulhos”, “milhões de mosh”, “milhões de galos”, “milhões de qualidade de vida”…

É de espantar que um primeiro festival a ser organizado pelo todo poderoso – agora mais – omnipotente Fua, tivesse corrido sem acidentes, sem grandes imprevistos, sem grandes máculas no tecido, já extenso, dos festivais de Verão portugueses. Já muito foi dito acerca da qualidade deste festival e pouco mais há a acrescentar. Com todos os factores a ajudar à festa, este foi com certeza um fim de semana que ficou e ficará na memória de muita gente. Pelo local, pelos amigos que encontrámos e pelos excelentes momentos que lá se viveram, musicais ou não.

Foi Miami à portuguesa. Foi All Tomorrow’s Parties à portuguesa. Foi com certeza um fim de semana como nunca antes se viu.
Ao Rei Fua – como alguém lhe chamou – e ao resto da sua corte, são mais que merecidos os parabéns. E ambicionados outros momentos como os que se sentiram em Barcelos. Ficamos à espera de 2011.

Sara, obrigado pela tua introdução e selecção musical romântica. Estamos certos que uma das nossas repórteres te ouviu abraçada a um cogumelo gigante. Aqui vai a Margarida Soares em palavras.

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Chegados a Barcelos, ao início da tarde de Sexta-feira, demos de caras com o Velociraptor de dois metros, a vigiar o pessoal – que se começava a apinhar na fila da bilheteira – com um ar de “vocês nem sabem onde se vieram meter”. A minha única questão é, quando é que a organização do Milhões visitou o Museu da Criação? E porque é que não trouxeram um T-Rex, que é bem mais imponente? Se calhar as mãozinhas do T-Rex não iam conseguir aguentar a grandiosidade do triângulo invertido do Milhões. É bem capaz de ser isso. Adiante.

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Todos os caminhos levavam à piscina. Só podia. A piscina foi o trunfo deste festival. Quem é que não quer passar três dias deitado ao sol, a beber mojitos e a olhar para um perverso cogumelo gigante a brotar água que sugestionava a mente de qualquer um?

Pelo menos a tua, Margarida. Como nem todos vêem os cogumelos da mesma forma, outra opinião é sempre aconselhável. O Nuno B. Vieira, nosso repórter, viu coisas ligeiramente diferentes.
A minha primeira tarde de piscina, foi passada a assistir aos concertos de Tren Go! Soundsystem e Bears. O primeiro percorreu várias sonoridades, nem sempre esperadas, os segundos primaram por melodias que contrastavam e relaxavam uma guitarra forte. Antes de sair – aconselhado por simpáticos seguranças – dancei as escolhas ecléticas dos Move The Crowd.

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Margarida.
Sentada à beira da piscina, a única coisa que me vinha à cabeça era a Sabrina Salermo a cantar Boys, boys, boys, quase desnuda, num ambiente semelhante àquele em que nos encontrávamos.

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Mas, em vez das formas curvilíneas da Sabrina, tínhamos o Rudolfo de colete reflector a berrar a música do Pokémon, ou os ritmos africanos dos Claiana.

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No recinto vingaram os sons do metal, com nomes como Electric Wizard, Valient Thorr e o portugueses Men Eater a trazerem a Barcelos muitos cabelos compridos, tatuagens, t-shirts pretas e botas de biqueira, ao Palco Milhões.

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Nuno.
Passei mais tempo a beber, a conversar, a ver gente, a partilhar um porco – que assava no meio do festival – com desconhecidos, etc. Fui captando várias opiniões e desejos. A minha ideia sobre alguns concertos, é sobretudo intuitiva. Enquanto bebia, deambulei pelos palcos Vice e Milhões entre Evols, Plus Ultra, Larkin, The Glockenwise, Sizo e Men Eater. Horas seguidas de rockalhada.

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Depois, veio o psicadelismo: o som dos Black Bombaim prendeu-me as orelhas. A excitação na noite de Sexta, à volta dos Valient Thorr e Electric Wizard, justificou-se.

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Os concertos sugaram todos para confraternizações mais violentas perto do palco. A potência do som encadeou, e por uns largos minutos, o festival susteve a respiração.

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A excursão que depois seguiu para o palco Vice, ia já com speed, pelo que as actuações foram sempre brindadas com entusiasmo e cerveja: Faca Monstro, Tony from Eustachian, Captain Ahab e Sickboy.

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Ok Nuno. Mas vamos deixar a Margarida continuar.
Reparti-me entre o palco Vice e o backstage, com cerveja a jorrar livremente, a não ser quando a máquina emperrava e as bocas sequiosas sofriam.

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Assim terminou o primeiro dia, elevando bem alto a fasquia de qualidade deste festival. A opinião era unânime. Nem 24 horas tinham passado e já era: O MELHOR FESTIVAL DO ANO.

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Nuno, já podes voltar.
Os Mega Bass terminaram a noite a urrar com violência, e só um salto acrobático falhado – de um dos membros – contra as grades, fez o povo parar. Mas não muito.

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No segundo dia, a Margarida acordou com calor.

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Sábado chegou. Nem a ressaca falou mais alto, quando chegou a hora de vestir o biquíni, pegar na toalha de praia e rumar às piscinas municipais – transformadas durante três dias no oásis do Milhões. Os Throes trocaram-me as voltas e só cheguei a tempo de ver o Marco e o Igor completamente suados, sugerindo que algo de escaldante se tinha passado entre eles.

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O André Covas ainda chegou a tempo de ver os Throes.
Boa rifalhada e uma bateria cheia cuspiram rock instrumental barulhento durante cerca de 40 minutos. Os Throes entraram em cena com uma energia sem precedentes no segundo dia, até porque foram a primeira banda a tocar. Problemas técnicos aparte – uma tarola que se fodeu sem que houvesse uma outra prontinha a substituir – foi um belo início de tarde.

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O duo portuense roubou a abertura da tarde aos Lululemon, que devem ter adormecido, mas que acabaram por chegar. Trouxeram-nos o rock-blues-funk sujo e frenético do seu EP de estreia, Thee Ol’ Reliables, um bocado aldrabado na execução ao vivo, mas genuíno na vivacidade.

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De regresso à Margarida.
Os Feia Medronho partiram tudo e a aparição do homem de verde tornou-se num dos momentos mais memoráveis deste festival.

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André.
Após três longos anos de ausência, a dupla satânica de techno-chunga-hardcore, Feia Medronho, voltou a pisar terra e torturou-nos com um som demoníaco. Trouxeram com eles outros dois súbditos de Belzebu: um soprano, cujo nome me esqueci de apontar, e um bailarino de dança contemporânea, o homem verde – por estar de verde dos pés à cabeça. Ambos em esteróides e decididos a levar a audiência a espetar tudo o que lhes viesse às mãos, nos olhos e ouvidos, numa procura desesperada de alívio. Foi o melhor concerto do dia e, possivelmente, do festival.

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Depois do massacre, fomos brindados com o requinte e subtileza de Marçal dos Campos. Uma verdadeira lufada de ar fresco – com o seu pop-electrónico ultra melódico – que restaurou a serenidade entre as hostes. A companhia perfeita para uma tarde de mojitos e biquínis.

Margarida.
Marçal de Campos deixou toda a gente zen. A seguir, Fabulosa Marquise com Os Yeah!, por sua vez na companhia do Jorge Jesus e de Sartre, trouxeram ritmos tropicais que sugeriram o que se iria passar ao longo do festival.

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Nuno.
As escolhas da organização para o palco das piscinas, não podiam ter sido mais acertadas. Bandas, todas elas recentes, com diversas sonoridades e atitudes, e DJs alegres, românticos, com boa selecção musical. Esta tarde foi o mais próximo que estive de Miami. Dançar Sun, dos Caribou, rodeado por gente bonita, calor e muito suor, é caso para dizer: obrigado Barcelos.

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André.
Nada melhor para finalizar a tarde de piscina – e o quarto mojito – que uma sessão tropical da, sempre sensual, Fabulosa Marquise e dos frequentemente românticos Os Yeah!. E siga para o palco Vice.

Cheguei quase no final do concerto do trio pós-rockeiro psicadeleiro de Barcelos, Aspen, que me pareceu ter sido bem potente. Segui para o palco Milhões.

Margarida, de mojito na mão, boiava ainda nas águas quentes.
Do outro lado, os Long Way to Alaska começavam a fazer soar os primeiros acordes em jeito de chamamento ao pessoal que ainda estava na piscina.

André.
Num ambiente lírico de fim de tarde, com pessoal pacificamente distribuído pela relva, uns a mandar bolas de sabão e outros a mandar outras coisas que ainda os empurravam mais para as nuvens, chegaram os bracarenses Long Way To Alaska que embalaram a multidão com o seu EP de estreia Melodies To Greet Sunrise And Feed Sunset. O público reconheceu, cantou e dançou harmoniosamente, como que em câmara lenta, alimentando-se da banda e do sol que se punha.

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João Moreira, outro dos nossos repórteres, intervém com alguma acidez.
Os Long Way to Alaska tentaram mimar-nos com as suas melodias, mas os técnicos de som não cooperaram.

André.
Nos intervalos das músicas dos Alaskinhas, ouvia-se a voz grave e possante do Cavalheiro que se seguiria no palco Vice momentos depois. Pouco vi do concerto deste Cavalheiro, uma vez que me foi pedido que fosse ao backstage filmar a entrevista dos Alaskas. Acabei por ficar lá a beber cerveja e a filmá-los a dançar kuduro. Mexem-se bem.

João.
O Cavalheiro afirmou o seu estatuto de Conde Ferreira, ao tocar Cold Blooded Old Times, de Bill “Smog” Callahan.

André com azia.
Depois deste aperitivo, fui jantar e acabei por perder o concerto de Appaloosa e de Hype Williams – devem ter sido bons, mas não faço a menor ideia. O jantar foi uma merda. Mais valia ter ficado lá a comer uma baguete mista. Azar.

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Margarida.
Os Appaloosa e o seu amor por cavalos, reflectido na indumentária da vocalista, preencheram a pradaria. Os PAUS mais uma vez confirmaram o porquê do hype à volta deles, desta vez com direito a invasão de palco pelo Miguel e pelo Paulo dos Men Eater.

João.
Os PAUS descarregaram toda a sua fúria “Steve Reichiana sem merdas”. Para acabar a noite – pois o cansaço de uma noite mal dormida assim o ditou.

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André.
Ao aproximar-me do recinto, já se ouvia a percussão vertiginosa dos PAUS, que mais soava a uma noite complicada em Bagdad. Mas que pau do caralho que estes lisboetas têm! Todos já com uma escolinha invejável, souberam animar as hostes, que saltaram e suaram ao som da bateria siamesa – se não sabem o que é, procurem no Google – tocada por Quim Albergaria e Hélio Morais. É uma Água é o EP de estreia dos lisboetas e o concerto foi comparável a um grande chapão de barriga, principalmente em Mudo e Surdo, o single de apresentação da banda, autêntico soco no estômago para quem esteve lá.

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Sem grandes demoras, entram em cena os Alto!, banda parcialmente renascida das cinzas de Green Machine. Concerto do caraças, que só podia ter sido melhor, se o chato do baixista fechasse a matraca e parasse de agradecer a pessoal que só ele conhecia.

Antes da última música, Joca, o vocalista, aconselhou o pessoal a ir ver “a melhor banda de sempre” que iria tocar a seguir no palco principal, The Fall.

João.
Os The Fall vieram dar uma coça de rock contínuo, demonstrando que não estavam ali para conversas.

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Se aqui o João nos parece bastante convicto, a Margarida abstém-se. Este concerto foi interpretado de várias maneiras.
O legendário Mark E. Smith tocou para um maralhal de gente, arrisco a dizer, vinda a Barcelos especialmente pelo imponente nome que são os The Fall.

Nuno, levezinho.
Mark Smith apenas elevou os seus passos trôpegos até ao palco.

André, Hulk.
The Fall deu um dos piores concertos do festival. Chegou a ser cómico. Todos esperávamos que Mark Smith fizesse qualquer coisa engraçada em palco, devido à bebedeira ou à velhice. Mas desafinar, cambalear e esquecer as letras não satisfizeram a sede de destruição do inglês. Tinha que foder também a prestação dos restantes elementos da banda, estragando o som dos amplificadores, alterando os settings do sintetizador e retirando microfones de captação das colunas. É claro que o fim do concerto também foi digno de uma diva decadente do pós-punk. Depois de uns 7 ou 8 temas tocados, Mark desaparece para o backstage e deixa a banda a tocar sozinha. Fixe.

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Ainda apanhei 20 minutos do André Granada no palco Vice, que nos 40 minutos anteriores esteve a passar música para dois seguranças, um técnico de som e três empregados de bar – também pudera, estava um avô alcoólico a dançar no palco ao lado. Mas foi pena, porque o Granada faz a festa.

Depois do bracarense, chegou a vez do DJ-Produtor americano, Gold Panda que nos presenteou com electrónica bem eclética e super detalhada e produzida. Pensei que não fosse funcionar ao vivo, mas o tipo soube conduzir as cadências e manteve o público preso e a abanar-se. Uma das surpresas da noite.

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João.
El Guincho enfiou-nos uma dose de indie tropical que acabou em apoteose com a festiva Antillas.

André.
À uma e meia da manhã entraram os espanhóis El Guincho, que deram o concerto mais animado e “boa-onda” – expressão lamechas, mas não encontrei outra melhor – da noite. Ouviram-se vários temas do debut Alegranza, que provocaram um comboínho do amor no meio da multidão, dois do novíssimo Pop Negro, Bombay, já bastante familiar ao público, e Muerte Midi, que aparentemente ninguém conhecia. Bela forma de fechar o palco Milhões.

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Margarida.
Os El Guincho puseram todos a levantar poeira na zona Ribeirinha e a fazer comboios intermináveis, qual romaria popular.

André.
O resto da festa decorreu no palco Vice. Hounds of Hate tocaram exactamente ao mesmo tempo que El Guincho, pelo que não faço puto ideia do que se passou por lá.

Últimas horas de Sábado à noite. Nuno.
Foram os Crisis que anunciaram o meu estado ébrio. Tive alguma dificuldade em acompanhar o ritmo, mas não caí.

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André.
Mas nada melhor que Crisis para me tirar o sorriso chapado na cara que tinha trazido do concerto de El Guincho. Foda-se, a gaja berra que nem um animal e tem uma presença inversamente proporcional à altura! É incrível!
Só tenho um coisa a apontar ao concerto: um dos membros estava a usar como instrumento uma bola de cristal daquelas que deitam raios quando lhes tocas. Sim, eles tinham isso. Eu sei que é fixe um gajo fazer experiências em casa e não deve ter sido fácil transformar aquela merda num controlador de voltagem, ou controlador midi, ou oscilador, ou lá que merda era aquela. Já não via uma banda tão fixe com um adereço tão azeiteiro, desde o documentário dos Spinal Tap. Usem um sintetizador convencional. Ou não usem nada e deixem a miúda berrar e saltar à vontade.

Depois do concerto do trio tripeiro, difícil de superar em intensidade, chegam os Concorrência com o melhor set que vi deles desde sempre. Ninguém ficou indiferente à intensidade das batidas que debitaram e pelas quatro da manhã ainda eram muitos os que dançavam ao som dos quatro portuenses.

Nuno.
Os Concorrência foram competentes e depois Bandido$ e Xinobi, já com a luz do dia a incomodar, deram-nos boa música. A velocidade com que vi passar o Sábado é um sinal de que foi muito bom.

André.
Pelo que me dizem, ainda tocaram mais dois tipos: Bandido$ e Xinobi. Infelizmente o álcool acumulado desde as três da tarde impediu-me de lembrar do que quer que seja, mas lembro-me que a noite durou até de dia e que a ressaca foi duradoura.

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O terceiro dia. Nuno.
O calor abusador, partilhado em particular na piscina do recinto, fazia de nós, todos os dias, um grupo de amigos. Uma espécie de associação secreta, que entre sorrisos, olhares e mergulhos, foi ganhando força. Se no Sábado as aulas de dança sincronizada eram atabalhoadas, no Domingo já havia um coordenador destacado. Se as meninas do bar (Carminho, Carla e Ágata) iniciavam a tarde um pouco mais tímidas – a ressaca não era só minha – o fim da tarde já era de abraços atrás do balcão.

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Margarida.
Oh não, o paraíso está a acabar! Nota-se que o pessoal chega ainda mais cedo à piscina, cismando em fazer valer cada segundo deste último dia. O sol é ainda mais intenso e ninguém se aguenta fora de água. Os Dreams, os Sunflare, os Tigre Deficiente, os The Shine e por fim os Andamento DJs marcaram o ritmo dos mergulhos, das bombas e das lutas de água no palco de batalha da piscina. Ninguém queria arrastar pé dali, e muitos só cederam quando os nadadores-salvadores e seguranças começaram a fazer cara feia.

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João.
Cheguei à conclusão que, destes três dias de festival, a minha banda preferida foi a piscina.

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Nuno.
Repararam que não nos afogaram em publicidade no festival? Actividades radicais idiotas?

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Tudo o que é desnecessário, com o decorrer do tempo torna-se feio. Esta frase, do mundo da arquitectura, faz todo o sentido ser usada aqui. O festival foi bonito. Não exagerou, não trouxe nada que fosse desnecessário. Havia espaço, físico e mental, e foi pensado para nós. Isso é genuíno e inusual nos festivais. Por isso, a festa foi em crescendo até ao terceiro dia. Um Domingo já em família. Depois dos tradicionais banhos de amor na piscina, a noite esperava ansiosamente, ali ao lado, pelos próximos concertos. De calções molhados e um bocado amuado, fui de passo apressado para o recinto principal, onde tocavam os Riding Pânico, uma banda que com um pouco mais de tino, pode ser um interessante caso de rock. No palco Vice, os Extraperlo sempre alegres, puseram todos a dançar. Num registo totalmente diferente, e de volta ao palco principal, os The Ghost of a Thousand premiaram-nos com um bom rock, cheio de riffs. Os Year Long Disaster mais valia terem ficado a aquecer para o concerto dos Karma to Burn.

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Os japoneses, Bo Ningen, a fazer lembrar personagens de Tim Burton, atraíram o público com uma potência sonora perto dos limites permitidos pelos meus ouvidos. Karma to Burn deram um concerto pujante, com músicos experientes a injectarem a sua potência em todos os presentes.

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João.
E como não há bela sem senão, o fim aproximava-se (oohhh), trazendo-nos os Monotonix (yeahhh).

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Nuno.
Com Monotonix iniciou-se uma orgia! O concerto destes senhores fez de todos nós o palco de uma noite memorável. Instrumentos espalhados pelo público, saltos de muros altos, crowd surf, tudo valeu para nos esmagarem com a sua atitude.

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Margarida.
No recinto, mais uma noite de grandes nomes, com Monotonix no palco Vice a vencer o prémio de concerto mais alucinante do festival. Os israelitas tocaram em todo o lado menos no palco. Era ver o guitarrista no crowd surf a tocar como se ensaiasse aquilo todos os dias. Um concerto suado, onde não deu para fugir ao mosh.

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João.
Os Toro y Moi foram brutalmente afectados pela incapacidade da equipa de som em compreender a sua sonoridade. Za!, duo infernal e competente, trouxeram-me à memória os Boredoms.

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Margarida.
Toro y Moi foi um dos grandes nomes prejudicados pela qualidade do som. Depois chegaram os Delorean – não sei se vindos do futuro ou não – que puseram toda a gente a dançar e mostraram, tal como os El Guincho, que no país aqui ao lado se faz muito boa música. Mas que nem sempre chega aos nossos ouvidos.

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João.
Os Delorean acabaram em monumental dancetaria.

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Nuno.
O fecho dançável do palco Milhões, com os Delorean, foi um doce para as nossas bocas. É diferente, curioso e bonito. De volta à pista Vice, os Crystal Fighters e depois os South Rakkas Crew eram o pano de fundo de uma multidão que ria e que gozava cada momento até à última gota de cerveja. Aerobica Team, música sim, música não – confusos com tanta excitação – foram roubando as últimas gotas de suor a um público já desidratado.

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Margarida.
A noite acabou com toda a gente a suar e a gastar os últimos cartuchos a dançar ao ritmo de South Rakkas Crew, uma jukebox ambulante que nos bombardeou sem descanso com uma mixórdia bem engendrada de estilos musicais. A crew da Aerobica não se esqueceu da aula marcada e terminou este festival em grande, que só pecou por ter durado três dias e não duas semanas.

O nosso repórter, André Granada, a queimar os últimos cartuchos.
Depois de uma tentativa de DJs ensemble em cima do palco durante uns 10 minutos – desculpem pessoal, mas os gajos não deixaram passar nem mais um segundo – fiquei para trás com o Fua e a crew de Barcelona: El Guincho, Delorean, Crystal Fighters, ZA! e Extraperlo.

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Estava tudo tão mamado e divertido, que no backstage se fez de tudo: música improvisada entre todos, goladas numa bebida merdosa que para lá andava, fumaram-se os últimos e rimo-nos largo. Os malhos na terra, os gajos nus, as piadas e gozar com o Pau, dos Extraperlo – ficou a saber o que também podia querer dizer o nome dele em português – foram as últimas consequências dos copos, antes de nos lembrarmos que também somos todos jogadores.
Um deles teve a feliz ideia da bola de futebol. Ficou tudo ainda mais maluco e uns toques no backstage, rapidamente passaram a corridas, fintas e entradas duras, por todo o recinto. Realmente, os espanhóis daquela geração parecem ter jeito para a coisa.

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O Pau foi o melhor jogador espanhol e Jorge Naper o melhor português.
Foi um fim épico para um festival que teve o melhor ambiente de sempre e um espírito de festa filho da puta.



João.
Apenas tenho uma crítica a fazer às tardes na piscina do Milhões: uma série de bandas de avacalhanço produziram ruído sem me fazer rir, tendo ficado com a impressão, que mais valia ter estado alguém a fazer stand-up comedy do que ter assistido à javardice adolescente. A grande ressalva musical vai para as outras bandas – Lululemon, no segundo dia, Sunflare e The Shine, no terceiro, entre outras – que se esforçaram por nos dar música. E para DJs, como Marçal dos Campos, que entenderam bem as necessidades de música solarenga do público veraneante – “fat props” para a Fabulosa Marquise e Os Yeah!.

Nuno.
Asfixiado num pequeno cenário fluvial, o Milhões foi, acima de tudo, uma festa popular. À boa maneira minhota: música, bebida, comida e boa disposição. E soube deixar saudades entre nós: memórias comparsas do ambiente que ali se viveu.

Ora se as tardes me beijaram os lábios, o que esperar das noites? Muito. Tendo como ponto de partida e retorno a máquina de cerveja do backstage, estrategicamente colocada entre os dois palcos, as noites foram passadas junto do público, de palco para palco, num vaivém que obedeceu à sábia intercalação dos shows. Não vi todos, mas quase.

João.
Muitos elogios podem ser tecidos acerca do festival, mas o maior, na minha opinião, é pedir que para o ano haja mais!

Nuno.
Fomos todos expostos, sem censura, a um acontecimento ímpar em originalidade e bom gosto. Uma fusão que nos tornou a todos um pouco mais revolucionários.

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Granada.
Obrigado Fua e longa vida ao Milhões!


TEXTOS POR SARA COSTA, ANDRÉ COVAS, ANDRÉ GRANADA, JOÃO MOREIRA, MARGARIDA SOARES E NUNO B. VIEIRA

FOTOGRAFIAS POR HUGO CALÇADA, ALEXANDRE INÁCIO, LEANDRO PINTO, LUISA QUINTELA, ELISABETE SANTOS ROSA E BRUNO VAN ZSÁ

VÍDEO POR LUISA QUINTELA


MILHÕES DE GUINCHOS

30/07/2010


Vejam o vídeo da segunda noite do festival.




EQUIPA VICE


NAZARDO, O DUQUE

29/07/2010


Para além de ter um nome fabuloso, Frankie Nazardo tira excelentes fotografias. Nas que nos enviou: um pai observa a filha no roço com um gajo no banco de trás do carro; alguns aviões e uma espectacular t-shirt do Michael Jackson com o cabelo liso.

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FOTOGRAFIAS POR FRANKIE NAZARDO


GASPAR NOÉ REINVENTA O CINEMA (OUTRA VEZ)

29/07/2010


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Quando vi o filme de Gaspar Noé, Irreversível, fiquei bastante impressionado. Depois de passar uma hora e meia numa cave escura, a ver violações e pessoas com as cabeças esmagadas por extintores de incêndio, eu e o meu amigo Alan Capper saímos da sala de cinema em estado de choque. O contraste entre o inferno parisiense de Noé e o sol da tarde do Soho era desorientador, e falámos sobre o efeito que o filme tinha tido em nós. Foi enérgico. Irreversível é uma injecção de adrenalina de noventa minutos, que explora ao máximo o poder do cinema, apesar de ter sido concebido, produzido e realizado em poucas semanas. Enter the void, por exemplo, uma história que Noé queria contar desde os anos 90, demorou cinco anos para ser acabado. Está cheio de efeitos e tem coisas que nunca tinha visto. É com certeza a experiência cinematográfica mais visceral que já tive.



Quatro horas depois de ver o filme, a minha cabeça pulsava com as imagens fosforescentes, as luzes estroboscópicas e os zumbidos. Ouvi dizer que Noé queria retratar uma experiência extra-corporal, e quando falei com ele em Janeiro, contou-me que tinha gostado muito do Avatar em 3D. Não duvido que ele esteja decidido a levar o cinema ao limite. Sobre Irreversível, e algumas partes de Enter the void, ele disse que “têm a intenção de recriar uma espécie de sensibilidade ou estado de consciência alterado, por meio de armas cinematográficas – som, imagem, edição, o que for preciso.”
Para nossa surpresa, resultou. Ele tem uma pequena obsessão pelo filme 2001, do Kubrick – o cartaz desse filme, que ele qualifica como “a maior de todas as viagens”, aparece em Irreversível, no apartamento de Vincent Cassel e Monica Belucci, mas hoje esse título deveria ser o de Enter the void. É uma viagem de 135 minutos, cuja estrutura é inspirada no Livro Tibetano dos Mortos, e cuja concepção estética é inspirada, não apenas na sequência da viagem pelo hiperespaço em 2001, mas também em Tron, Blade Runner e Altered States. Os trabalhos de Noé inspiram-no para os seus próprios filmes. Disse que, Irreversível, com os seus movimentos de câmara e planos longos, foi de certa forma um laboratório para Enter the void. É fácil perceber as diferenças. Durante a maior parte do filme voamos pela cidade – uma Tóquio repleta de neons, que parece ter sido vomitada pela avenida central de Las Vegas – através do espírito do junkie Oscar, desencarnado, drogado e morto.

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Logo nos créditos iniciais, que praticamente saltam da tela para nos esmurrar a cara, fica claro que se trata de mais do que uma simples história – que é, neste caso, um melodrama familiar. Noé quer que o espectador se submeta ao filme e se perca nele, sentindo-o. Cenas alucinógenas com imagens psicadélicas aparecem em tempo real. As imagens de violência são profundamente chocantes. As de sexo são gráficas e intensificadas por efeitos especiais. Estou ansioso para vê-lo novamente.

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Pessoas incríveis ajudaram a dar vida a esta história. Marc Caro, co-director de Delicatessen e City of the Lost Children, é o supervisor artístico do filme. Os efeitos são da autoria de Pierre Buffin e da sua empresa, Buf, que trabalhou no Fight Club, na trilogia Matrix, em Avatar, e a banda sonora hipnótica é de Thomas Bangalter dos Daft Punk. Mas acima de tudo, é um filme com a marca de Noé.
Charlie Kaufman disse que o cinema, como forma de expressão artística, é algo morto – ao contrário do teatro. É fechado, acabado, e o espectador não pode interagir com a obra. Mas ele ainda não viu este filme. Enter the void é muito, muito vivo, e em termos de pura experiência cinematográfica, é revolucionário. Estreia em Setembro, e recomendo que o vejam numa sala de cinema. Teremos mais coisas sobre Noé antes disso, incluindo uma entrevista inédita e um documentário que fizemos sobre Enter the void no Guia Vice para o Cinema.


ALEX GODFREY (Vice UK)


CONCURSO WeSC / VICE

28/07/2010

A WeSC esteve no Milhões de Festa com a Vice. Por isso, vamos oferecer um par de headphones WeSC a quem nos enviar a melhor fotografia do Milhões. Aceitamos todo o tipo de formatos digitais. Enviem-nos fotografias loucas! Não se esqueçam de as identificar: nome do autor, nº B.I., etc. Até Sexta-feira: nuno@vicept.com. A fotografia vencedora será publicada no nosso blogue. E, talvez, na próxima revista.

wescEsta foto é um bom exemplo do que não queremos receber.


EQUIPA VICE


HACKNEY EXPLOSIVA

28/07/2010




Rocky, o viking irlandês que se senta ao meu lado aqui na Vice, enviou-me este vídeo que a prima da namorada dele fez. Quando vi o vídeo até ao fim (e têm que o ver até ao fim) pensei, “merda, Belfast está outra vez fodida”. Mas depois ele disse-me que tinha sido filmado no Victoria Park em Hackney (Londres) no Sábado. É estranho, não é? Até as pessoas que estavam no festival alemão no fim de semana devem ter ficado assustadas. O High Voltage também foi bastante intenso, por isso culpo os putos metaleiros suecos.

Já agora, a rapariga que filmou isto tem um blogue.


Vice UK


MILHÕES DE MERGULHOS

26/07/2010

Vejam o que continuaram a perder!



EQUIPA VICE


BARCELOS: O AMOR ANDA NO AR

25/07/2010


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O segundo dia do festival fica marcado por uma enorme reunião de amigos. Tal e qual. O que aconteceu ontem na piscina do recinto, com uma selecção musical de babar corações – quer de Marçal dos Campos, quer da Fabulosa Marquise e o duo maravilha Os Yeah! – esteve muito além do que costumam ser os festivais. Não sei se a organização distribuiu ecstasy, ou outro tipo de substâncias (eu não fui contemplado), mas os sorrisos que dançaram ontem por toda a zona da piscina foram incrivelmente belos. Havia uma felicidade cúmplice no ar. Às tantas já se fazia dança sincronizada na água.
Os Long Way to Alaska e os Appaloosa juntaram-se ao pôr do sol, no palco Milhões e prepararam a noite. Foi tudo mais ou menos discreto até os ALTO!, André Granada e Gold Panda, já noite dentro, quebrarem com a calma, no palco Vice. Se estes nomes animaram, os Paus puseram tudo aos saltos no palco principal.
Enquanto os The Fall não subiam, fui até ao backstage. Consegui garantir uma entrevista com Mark Smith, e assisti, a poucos metros de distância, ao show irreverente que o homem continua a dar: alterar os volumes dos instrumentos da banda sem que os músicos saibam. Momentos depois, estávamos a beber cerveja no seu camarim, sem conseguir perceber grande parte do que Mark disse. Retenho: “Never be a teacher”.

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Bebi a mais da conta e perdi alguns concertos. Azar, não se pode ter tudo. Mas os que vi valeram por todos.
El Guincho é vibração latina que sai de cabeças inteligentes. Estávamos todos aos abraços e em fila a apitar um comboio, que andava esquizofrenicamente aos círculos entre o público.
Mais à noitinha, levei um soco no estômago. Os Crisis são perigosos. A rapariga corre que se farta – às vezes também cai – e berra ainda mais. A energia que levei deste concerto, deu-me para aguentar o resto da noite. Foi festarola garantida.
A uma dada altura já não sabia bem quem era quem, mas foram-se seguindo ritmos e sons que me tornaram um dos mais hábeis bailarinos. Aos Concorrência parabéns, aos BMX – Bandido$ e Xinobi, obrigado.
O sol expulsou-nos do recinto perto das sete da manhã. E o pesadelo de mais uma noite mal dormida, acompanhou-me pelo parque de campismo até fechar os olhos. Agora já com eles abertos, continua. Haja sopa. E boa música.


TEXTO POR NUNO B. VIEIRA
FOTOGRAFIAS POR HUGO CALÇADA


MILHÕES DE VÍDEO

25/07/2010

Vejam o que estão a perder!



VICE PORTUGAL


A RAPARIGA DOS THE FALL

25/07/2010

BRIX SMITH ILUMINOU INGLATERRA

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Nos anos 80, a Brix Smith era mais conhecida como guitarrista dos The Fall e esposa do líder da banda, Mark E. Smith, do qual mais tarde se divorciou. Na altura em que o indie britânico era realmente forte, Brix era uma das poucas mulheres da cena. Ela trouxe estilo e glamour à melancólica cena pós-punk, e ajudou a transformar os The Fall – que muitas vezes eram confundidos com uma experiência pós-pop polémica – numa banda decente. Talvez a Brix apenas se vestisse como todas as raparigas que se preocupam em vestir bem hoje em dia. Basicamente, ela sempre esteve à frente do tempo. Brix nasceu em Los Angeles, o pai era um psicanalista de Beverly Hills e a mãe, uma ex-modelo e produtora de TV. Divorciaram-se quando ela tinha um ano. As únicas lembranças da primeira infância de Brix Smith são do seu gato preto e do seu peixe. Nem sequer se lembra da cor do peixinho. Conversámos com ela sobre os The Fall, Mark E. Smith e sobre como levar a vibração da Costa Oeste norte-americana para um dos lugares menos-Costa-Oeste-do-mundo.

Vice: Lembraste da primeira coisa que disse ao Mark E. Smith?
Brix Smith: Eu disse: “Gostei muito do concerto, mas não entendo merda nenhuma do que dizes”. Também me lembro de olhar para ele no palco e pensar que ele tinha uma péssima aparência. Ele não se enquadrava no visual da maioria dos cantores. Dava para ver que ele era muito inteligente. Acho que ele gostou de mim, sentou-se ao meu lado e convidou-me para ir a uma festa em Chicago naquela mesma noite. Eu disse, “Óptimo, tenho um carro, eu conduzo”, depois fomos no meu carro, um Ford Futura azul-claro com assentos de vinil cinza. Pus a tocar uma cassete da minha banda da época para ele ouvir. Ele perguntou, “Quem escreveu essas letras?” e eu respondi “Eu!”, e ele disse “És um génio!”. Achei que ele só me queria comer e que estava a brincar. Mas não estava. Ele refez a agenda da tour para passar por Chicago na vinda, e naquela altura convenceu-me para vir para Inglaterra com ele.

Há quanto tempo é que vocês se conheciam quando te mudaste para Inglaterra?
Há seis semanas. Mudar para Prestwich foi um choque cultural completo. Corri esse risco. Peguei em todo o dinheiro que tinha na minha conta, 700 dólares. Lembro-me do Mark dizer, “Eu não sou rico, só tenho umas 1.000 libras”. “Não me interessa”, disse eu. Morávamos numa paróquia antiga com dez gatos.

Como é que Prestwich reagiu a uma rapariga punk-rock new-wave vinda de Chicago?
A família dele ficou fascinada. Mesmo depois de eu já morar lá há cinco anos e ter a minha própria casa, as pessoas ainda me perguntavam todos os dias se eu estava lá de férias, simplesmente não conseguiam entender.

Como foram os teus primeiros meses nos The Fall?
No início fui bombardeada pelos media. Acharam que era nepotismo. Às vezes o Mark ajudava-me a escrever letras para as minhas próprias coisas, eu dava-lhe as minhas folhas com as minhas letras, ele dava uma olhadela e devolvia-mas todas rabiscadas. Por isso, quando eu as lia, achava brilhante. Estar nos The Fall era como um sonho daqueles em que uma pessoa inspira a outra, que inspira outra. Era muito fácil—escrevíamos umas cinco músicas por noite.

Como é uma relação amorosa criativa?
É mágica. Sentes-te sexy, a tua pele fica sensível, sabes que é algo muito especial. De certa maneira tenho isso com o meu marido actual, mas de uma forma muito mais voltada para os negócios. Aquilo foi muito espiritual. Foi intenso. Agora é muito mais frio.

O que é que o teu marido acha disso?
Temos uma relação saudável que vai durar. Com o Mark era completamente diferente, era um drama, uma montanha russa. Durou até não dar mais. Por mais maravilhoso que tenha sido, houve coisas horríveis. Divorciei-me dele porque ele me traía continuamente. Ele fugiu com a filha adolescente do seu melhor amigo e deixou-me. Depois disso, uma lata inteira de merda foi aberta. Isto tudo acontecia nas minhas costas. Sou feliz pelo que tivemos e sou feliz pelo que não temos agora.

Então, basicamente, ele era um filha da mãe?
Um filho da mãe sarnento. Éramos jovens. Acordei uma manhã e ele estava a chorar na cama. Ele perguntou, “Onde é que vais?” e eu respondi, “Vou-te deixar”. Depois veio tudo à tona e ele foi para Edimburgo. Eu não podia aguentar mais por isso fiz as malas.

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Sobre aquela música Bill is Dead, as pessoas especulam que seja sobre a vossa separação.
Eu morava em Holland Park e tinha um apartamento muito simpático. Comecei a sair e a fazer coisas com a minha outra banda, Adult Net. Tinha 25 anos, era uma pop star e divertia-me muito, mas caí numa depressão horrível. Eu estava um caos. Depois, em 94, o Mark disse, “Vamos pagar os teus bilhetes de ida e volta quando quiseres. Precisamos de ti de volta”.

Ele queria-te de volta à banda?
Não sei. Algumas pessoas dizem que tudo o que ele fazia era ficar sentado em casa a olhar fixamente para fotos minhas. A mulher actual dele não o deixa chegar sequer perto de mim. Por isso talvez seja verdade. Amo o que tivemos e estou agradecida pelo que criámos. Mas ele é complicado. É horrível quando amas alguém e vês a pessoa a destruir-se.

As pessoas dizem que trouxeste estilo a uma banda que não o tinha na altura.
Acho que o Mark tinha um estilo incrível. Sabes quem copiou muito o estilo dele? O Jarvis Cocker. Aquelas camisas de poliéster, calças baratas e sapatos de couro preto, ao estilo do sapateado inglês. Não sei como definir a onda dele.

Ele vestia-se como as pessoas que te entrevistam em agências de emprego. O look dele dizia: “Estou aqui em negócios. Não estou para brincadeiras. Não preciso de um cabelo cor-de-rosa ou de uma pulseira punk”.
Tens toda a razão. Quando o Mark vestia esse tipo de roupa, esta não estava na moda. Era fixe porque não tinha nada a ver. Mas ele não se esforçava para parecer fixe.

Não mudaste nada no estilo dele?
Éramos muito próximos do bailarino Michael Clark, e por causa disso convivíamos com o Leigh Bowery e pessoas como Stevie Stewart do Bodymap e com toda aquela moda dos anos 80. Por isso, conseguíamos roupas e, sim, eu dizia-lhe: “Veste isto, veste aquilo”. Ele não vestia roupas que não gostava. Se ele se sentisse ridículo diria, “estou ridículo”. Eu achava que ele tinha que ter um bom fato a sério, para que não parecesse apenas inteligente, mas mais… Não com a aparência do Bryan Ferry ou, sei lá. Havia uma loja em Manchester que se chamava Woodhouse, que era do Philip Start. Eu não conhecia o Philip, mas poupei algum dinheiro. Levei o Mark lá e comprei-lhe um fato. Um Armani cinza de 700 libras.

Como é que conheceste o Phil?
Eu voltei a gravar dois discos com os The Fall nos anos 90. Os discos eram OK, mas não eram tão bons como os outros. Naquela altura o Mark tinha-se destruído em todos os campos, física e mentalmente. Ele não estava bem e simplesmente não ia funcionar. E depois, quando eu já estava cansada daquilo, saí de um restaurante numa noite e vi várias pessoas a entrar na Harvey Nichols. Pensei que fosse uma festa e fui até lá. Entrei no elevador e o Philip e dois amigos disseram, “vais subir?”. Ele pagou-me uma bebida, e eu descobri que ele era dono da Woodhouse e disse que tinha comprado o fato do meu ex-marido lá. Tivemos uma conversa agradável. No dia seguinte, a secretária do empresário do meu ex-namorado liga-me para casa e diz, “um senhor chamado Philip Start ligou aqui para o escritório”. Fiquei a imaginar como é que ele tinha conseguido encontrar-me. Liguei-lhe: “O que é que posso fazer por ti?” e convidou-me para sair. Depois o Philip vendeu a Woodhouse. Eu saí dos The Fall. Tentei assinar com uma editora mas ninguém me queria. Ficava o dia todo no sofá a ver a Oprah. O Phil também estava a passar por uma reviravolta — a venda da loja que foi dele durante 30 anos. E ele tinha acabado de se divorciar. Acabámos por nos mudar para Shoreditch em 99. Um dia acordei e disse, “querido, não há aqui nenhum sítio para fazer compras”, e ele disse, “bom, vamos construir um”, e criámos a nossa rede de lojas de moda, a Start. E vê só, tenho 3 programas de televisão e temos quatro lojas. Nunca fui tão feliz na minha vida.

Lembras-te com que roupa estavas vestida na primeira vez que viste o Mark?
Estava com um vestido branco de plástico. Era curto. Na altura, eu oscilava entre rockabilly e go-go girl, por isso imagino que estava a usar botas bicudas pretas, estilo rockabilly de Chelsea. O meu cabelo era muito parecido com o de agora. Quanto à maquilhagem, só sombra escura nos olhos. Os meus lábios são muito carnudos, e se os pinto com uma cor forte eles acabam por dominar o meu rosto.


ENTREVISTA POR ANDY CAPPER
FOTOGRAFIA POR BEN RAYNER, ARQUIVO DE FOTOS POR SUMISHTA BRAHM