
A perspectiva da Vice para cobrir este evento foi retirada da imagem de um polvo. Tentáculos que penetrassem no festival de diferentes formas, com diferentes intensidades. Tivemos vários repórteres, com estilos próprios, a sondar múltiplas profundidades, musicais e existenciais. No final, decidimos fazer um arroz com este polvo. O festival, após dias de reflexão e descanso, é digno deste banquete. São muitas palavras. E muitas fotografias. Quem dá início à nossa história é a Sara Costa.
Milhões. Palavra apropriada e já gasta de tanto uso. Nunca cansa. Nem a previsibilidade de todos os trocadilhos que ouvi e que continuam a ecoar: “curti milhões”, “milhões de espanhóis”, “milhões de judeus”, “milhões de música”, “milhões de mergulhos”, “milhões de mosh”, “milhões de galos”, “milhões de qualidade de vida”…
É de espantar que um primeiro festival a ser organizado pelo todo poderoso – agora mais – omnipotente Fua, tivesse corrido sem acidentes, sem grandes imprevistos, sem grandes máculas no tecido, já extenso, dos festivais de Verão portugueses. Já muito foi dito acerca da qualidade deste festival e pouco mais há a acrescentar. Com todos os factores a ajudar à festa, este foi com certeza um fim de semana que ficou e ficará na memória de muita gente. Pelo local, pelos amigos que encontrámos e pelos excelentes momentos que lá se viveram, musicais ou não.
Foi Miami à portuguesa. Foi All Tomorrow’s Parties à portuguesa. Foi com certeza um fim de semana como nunca antes se viu.
Ao Rei Fua – como alguém lhe chamou – e ao resto da sua corte, são mais que merecidos os parabéns. E ambicionados outros momentos como os que se sentiram em Barcelos. Ficamos à espera de 2011.
Sara, obrigado pela tua introdução e selecção musical romântica. Estamos certos que uma das nossas repórteres te ouviu abraçada a um cogumelo gigante. Aqui vai a Margarida Soares em palavras.

Chegados a Barcelos, ao início da tarde de Sexta-feira, demos de caras com o Velociraptor de dois metros, a vigiar o pessoal – que se começava a apinhar na fila da bilheteira – com um ar de “vocês nem sabem onde se vieram meter”. A minha única questão é, quando é que a organização do Milhões visitou o Museu da Criação? E porque é que não trouxeram um T-Rex, que é bem mais imponente? Se calhar as mãozinhas do T-Rex não iam conseguir aguentar a grandiosidade do triângulo invertido do Milhões. É bem capaz de ser isso. Adiante.

Todos os caminhos levavam à piscina. Só podia. A piscina foi o trunfo deste festival. Quem é que não quer passar três dias deitado ao sol, a beber mojitos e a olhar para um perverso cogumelo gigante a brotar água que sugestionava a mente de qualquer um?
Pelo menos a tua, Margarida. Como nem todos vêem os cogumelos da mesma forma, outra opinião é sempre aconselhável. O Nuno B. Vieira, nosso repórter, viu coisas ligeiramente diferentes.
A minha primeira tarde de piscina, foi passada a assistir aos concertos de Tren Go! Soundsystem e Bears. O primeiro percorreu várias sonoridades, nem sempre esperadas, os segundos primaram por melodias que contrastavam e relaxavam uma guitarra forte. Antes de sair – aconselhado por simpáticos seguranças – dancei as escolhas ecléticas dos Move The Crowd.

Margarida.
Sentada à beira da piscina, a única coisa que me vinha à cabeça era a Sabrina Salermo a cantar Boys, boys, boys, quase desnuda, num ambiente semelhante àquele em que nos encontrávamos.

Mas, em vez das formas curvilíneas da Sabrina, tínhamos o Rudolfo de colete reflector a berrar a música do Pokémon, ou os ritmos africanos dos Claiana.

No recinto vingaram os sons do metal, com nomes como Electric Wizard, Valient Thorr e o portugueses Men Eater a trazerem a Barcelos muitos cabelos compridos, tatuagens, t-shirts pretas e botas de biqueira, ao Palco Milhões.

Nuno.
Passei mais tempo a beber, a conversar, a ver gente, a partilhar um porco – que assava no meio do festival – com desconhecidos, etc. Fui captando várias opiniões e desejos. A minha ideia sobre alguns concertos, é sobretudo intuitiva. Enquanto bebia, deambulei pelos palcos Vice e Milhões entre Evols, Plus Ultra, Larkin, The Glockenwise, Sizo e Men Eater. Horas seguidas de rockalhada.

Depois, veio o psicadelismo: o som dos Black Bombaim prendeu-me as orelhas. A excitação na noite de Sexta, à volta dos Valient Thorr e Electric Wizard, justificou-se.

Os concertos sugaram todos para confraternizações mais violentas perto do palco. A potência do som encadeou, e por uns largos minutos, o festival susteve a respiração.

A excursão que depois seguiu para o palco Vice, ia já com speed, pelo que as actuações foram sempre brindadas com entusiasmo e cerveja: Faca Monstro, Tony from Eustachian, Captain Ahab e Sickboy.

Ok Nuno. Mas vamos deixar a Margarida continuar.
Reparti-me entre o palco Vice e o backstage, com cerveja a jorrar livremente, a não ser quando a máquina emperrava e as bocas sequiosas sofriam.

Assim terminou o primeiro dia, elevando bem alto a fasquia de qualidade deste festival. A opinião era unânime. Nem 24 horas tinham passado e já era: O MELHOR FESTIVAL DO ANO.

Nuno, já podes voltar.
Os Mega Bass terminaram a noite a urrar com violência, e só um salto acrobático falhado – de um dos membros – contra as grades, fez o povo parar. Mas não muito.

No segundo dia, a Margarida acordou com calor.

Sábado chegou. Nem a ressaca falou mais alto, quando chegou a hora de vestir o biquíni, pegar na toalha de praia e rumar às piscinas municipais – transformadas durante três dias no oásis do Milhões. Os Throes trocaram-me as voltas e só cheguei a tempo de ver o Marco e o Igor completamente suados, sugerindo que algo de escaldante se tinha passado entre eles.

O André Covas ainda chegou a tempo de ver os Throes.
Boa rifalhada e uma bateria cheia cuspiram rock instrumental barulhento durante cerca de 40 minutos. Os Throes entraram em cena com uma energia sem precedentes no segundo dia, até porque foram a primeira banda a tocar. Problemas técnicos aparte – uma tarola que se fodeu sem que houvesse uma outra prontinha a substituir – foi um belo início de tarde.

O duo portuense roubou a abertura da tarde aos Lululemon, que devem ter adormecido, mas que acabaram por chegar. Trouxeram-nos o rock-blues-funk sujo e frenético do seu EP de estreia, Thee Ol’ Reliables, um bocado aldrabado na execução ao vivo, mas genuíno na vivacidade.

De regresso à Margarida.
Os Feia Medronho partiram tudo e a aparição do homem de verde tornou-se num dos momentos mais memoráveis deste festival.

André.
Após três longos anos de ausência, a dupla satânica de techno-chunga-hardcore, Feia Medronho, voltou a pisar terra e torturou-nos com um som demoníaco. Trouxeram com eles outros dois súbditos de Belzebu: um soprano, cujo nome me esqueci de apontar, e um bailarino de dança contemporânea, o homem verde – por estar de verde dos pés à cabeça. Ambos em esteróides e decididos a levar a audiência a espetar tudo o que lhes viesse às mãos, nos olhos e ouvidos, numa procura desesperada de alívio. Foi o melhor concerto do dia e, possivelmente, do festival.

Depois do massacre, fomos brindados com o requinte e subtileza de Marçal dos Campos. Uma verdadeira lufada de ar fresco – com o seu pop-electrónico ultra melódico – que restaurou a serenidade entre as hostes. A companhia perfeita para uma tarde de mojitos e biquínis.
Margarida.
Marçal de Campos deixou toda a gente zen. A seguir, Fabulosa Marquise com Os Yeah!, por sua vez na companhia do Jorge Jesus e de Sartre, trouxeram ritmos tropicais que sugeriram o que se iria passar ao longo do festival.

Nuno.
As escolhas da organização para o palco das piscinas, não podiam ter sido mais acertadas. Bandas, todas elas recentes, com diversas sonoridades e atitudes, e DJs alegres, românticos, com boa selecção musical. Esta tarde foi o mais próximo que estive de Miami. Dançar Sun, dos Caribou, rodeado por gente bonita, calor e muito suor, é caso para dizer: obrigado Barcelos.

André.
Nada melhor para finalizar a tarde de piscina – e o quarto mojito – que uma sessão tropical da, sempre sensual, Fabulosa Marquise e dos frequentemente românticos Os Yeah!. E siga para o palco Vice.
Cheguei quase no final do concerto do trio pós-rockeiro psicadeleiro de Barcelos, Aspen, que me pareceu ter sido bem potente. Segui para o palco Milhões.
Margarida, de mojito na mão, boiava ainda nas águas quentes.
Do outro lado, os Long Way to Alaska começavam a fazer soar os primeiros acordes em jeito de chamamento ao pessoal que ainda estava na piscina.
André.
Num ambiente lírico de fim de tarde, com pessoal pacificamente distribuído pela relva, uns a mandar bolas de sabão e outros a mandar outras coisas que ainda os empurravam mais para as nuvens, chegaram os bracarenses Long Way To Alaska que embalaram a multidão com o seu EP de estreia Melodies To Greet Sunrise And Feed Sunset. O público reconheceu, cantou e dançou harmoniosamente, como que em câmara lenta, alimentando-se da banda e do sol que se punha.

João Moreira, outro dos nossos repórteres, intervém com alguma acidez.
Os Long Way to Alaska tentaram mimar-nos com as suas melodias, mas os técnicos de som não cooperaram.
André.
Nos intervalos das músicas dos Alaskinhas, ouvia-se a voz grave e possante do Cavalheiro que se seguiria no palco Vice momentos depois. Pouco vi do concerto deste Cavalheiro, uma vez que me foi pedido que fosse ao backstage filmar a entrevista dos Alaskas. Acabei por ficar lá a beber cerveja e a filmá-los a dançar kuduro. Mexem-se bem.
João.
O Cavalheiro afirmou o seu estatuto de Conde Ferreira, ao tocar Cold Blooded Old Times, de Bill “Smog” Callahan.
André com azia.
Depois deste aperitivo, fui jantar e acabei por perder o concerto de Appaloosa e de Hype Williams – devem ter sido bons, mas não faço a menor ideia. O jantar foi uma merda. Mais valia ter ficado lá a comer uma baguete mista. Azar.

Margarida.
Os Appaloosa e o seu amor por cavalos, reflectido na indumentária da vocalista, preencheram a pradaria. Os PAUS mais uma vez confirmaram o porquê do hype à volta deles, desta vez com direito a invasão de palco pelo Miguel e pelo Paulo dos Men Eater.
João.
Os PAUS descarregaram toda a sua fúria “Steve Reichiana sem merdas”. Para acabar a noite – pois o cansaço de uma noite mal dormida assim o ditou.

André.
Ao aproximar-me do recinto, já se ouvia a percussão vertiginosa dos PAUS, que mais soava a uma noite complicada em Bagdad. Mas que pau do caralho que estes lisboetas têm! Todos já com uma escolinha invejável, souberam animar as hostes, que saltaram e suaram ao som da bateria siamesa – se não sabem o que é, procurem no Google – tocada por Quim Albergaria e Hélio Morais. É uma Água é o EP de estreia dos lisboetas e o concerto foi comparável a um grande chapão de barriga, principalmente em Mudo e Surdo, o single de apresentação da banda, autêntico soco no estômago para quem esteve lá.

Sem grandes demoras, entram em cena os Alto!, banda parcialmente renascida das cinzas de Green Machine. Concerto do caraças, que só podia ter sido melhor, se o chato do baixista fechasse a matraca e parasse de agradecer a pessoal que só ele conhecia.
Antes da última música, Joca, o vocalista, aconselhou o pessoal a ir ver “a melhor banda de sempre” que iria tocar a seguir no palco principal, The Fall.
João.
Os The Fall vieram dar uma coça de rock contínuo, demonstrando que não estavam ali para conversas.

Se aqui o João nos parece bastante convicto, a Margarida abstém-se. Este concerto foi interpretado de várias maneiras.
O legendário Mark E. Smith tocou para um maralhal de gente, arrisco a dizer, vinda a Barcelos especialmente pelo imponente nome que são os The Fall.
Nuno, levezinho.
Mark Smith apenas elevou os seus passos trôpegos até ao palco.
André, Hulk.
The Fall deu um dos piores concertos do festival. Chegou a ser cómico. Todos esperávamos que Mark Smith fizesse qualquer coisa engraçada em palco, devido à bebedeira ou à velhice. Mas desafinar, cambalear e esquecer as letras não satisfizeram a sede de destruição do inglês. Tinha que foder também a prestação dos restantes elementos da banda, estragando o som dos amplificadores, alterando os settings do sintetizador e retirando microfones de captação das colunas. É claro que o fim do concerto também foi digno de uma diva decadente do pós-punk. Depois de uns 7 ou 8 temas tocados, Mark desaparece para o backstage e deixa a banda a tocar sozinha. Fixe.

Ainda apanhei 20 minutos do André Granada no palco Vice, que nos 40 minutos anteriores esteve a passar música para dois seguranças, um técnico de som e três empregados de bar – também pudera, estava um avô alcoólico a dançar no palco ao lado. Mas foi pena, porque o Granada faz a festa.
Depois do bracarense, chegou a vez do DJ-Produtor americano, Gold Panda que nos presenteou com electrónica bem eclética e super detalhada e produzida. Pensei que não fosse funcionar ao vivo, mas o tipo soube conduzir as cadências e manteve o público preso e a abanar-se. Uma das surpresas da noite.

João.
El Guincho enfiou-nos uma dose de indie tropical que acabou em apoteose com a festiva Antillas.
André.
À uma e meia da manhã entraram os espanhóis El Guincho, que deram o concerto mais animado e “boa-onda” – expressão lamechas, mas não encontrei outra melhor – da noite. Ouviram-se vários temas do debut Alegranza, que provocaram um comboínho do amor no meio da multidão, dois do novíssimo Pop Negro, Bombay, já bastante familiar ao público, e Muerte Midi, que aparentemente ninguém conhecia. Bela forma de fechar o palco Milhões.

Margarida.
Os El Guincho puseram todos a levantar poeira na zona Ribeirinha e a fazer comboios intermináveis, qual romaria popular.
André.
O resto da festa decorreu no palco Vice. Hounds of Hate tocaram exactamente ao mesmo tempo que El Guincho, pelo que não faço puto ideia do que se passou por lá.
Últimas horas de Sábado à noite. Nuno.
Foram os Crisis que anunciaram o meu estado ébrio. Tive alguma dificuldade em acompanhar o ritmo, mas não caí.

André.
Mas nada melhor que Crisis para me tirar o sorriso chapado na cara que tinha trazido do concerto de El Guincho. Foda-se, a gaja berra que nem um animal e tem uma presença inversamente proporcional à altura! É incrível!
Só tenho um coisa a apontar ao concerto: um dos membros estava a usar como instrumento uma bola de cristal daquelas que deitam raios quando lhes tocas. Sim, eles tinham isso. Eu sei que é fixe um gajo fazer experiências em casa e não deve ter sido fácil transformar aquela merda num controlador de voltagem, ou controlador midi, ou oscilador, ou lá que merda era aquela. Já não via uma banda tão fixe com um adereço tão azeiteiro, desde o documentário dos Spinal Tap. Usem um sintetizador convencional. Ou não usem nada e deixem a miúda berrar e saltar à vontade.
Depois do concerto do trio tripeiro, difícil de superar em intensidade, chegam os Concorrência com o melhor set que vi deles desde sempre. Ninguém ficou indiferente à intensidade das batidas que debitaram e pelas quatro da manhã ainda eram muitos os que dançavam ao som dos quatro portuenses.
Nuno.
Os Concorrência foram competentes e depois Bandido$ e Xinobi, já com a luz do dia a incomodar, deram-nos boa música. A velocidade com que vi passar o Sábado é um sinal de que foi muito bom.
André.
Pelo que me dizem, ainda tocaram mais dois tipos: Bandido$ e Xinobi. Infelizmente o álcool acumulado desde as três da tarde impediu-me de lembrar do que quer que seja, mas lembro-me que a noite durou até de dia e que a ressaca foi duradoura.

O terceiro dia. Nuno.
O calor abusador, partilhado em particular na piscina do recinto, fazia de nós, todos os dias, um grupo de amigos. Uma espécie de associação secreta, que entre sorrisos, olhares e mergulhos, foi ganhando força. Se no Sábado as aulas de dança sincronizada eram atabalhoadas, no Domingo já havia um coordenador destacado. Se as meninas do bar (Carminho, Carla e Ágata) iniciavam a tarde um pouco mais tímidas – a ressaca não era só minha – o fim da tarde já era de abraços atrás do balcão.

Margarida.
Oh não, o paraíso está a acabar! Nota-se que o pessoal chega ainda mais cedo à piscina, cismando em fazer valer cada segundo deste último dia. O sol é ainda mais intenso e ninguém se aguenta fora de água. Os Dreams, os Sunflare, os Tigre Deficiente, os The Shine e por fim os Andamento DJs marcaram o ritmo dos mergulhos, das bombas e das lutas de água no palco de batalha da piscina. Ninguém queria arrastar pé dali, e muitos só cederam quando os nadadores-salvadores e seguranças começaram a fazer cara feia.

João.
Cheguei à conclusão que, destes três dias de festival, a minha banda preferida foi a piscina.

Nuno.
Repararam que não nos afogaram em publicidade no festival? Actividades radicais idiotas?

Tudo o que é desnecessário, com o decorrer do tempo torna-se feio. Esta frase, do mundo da arquitectura, faz todo o sentido ser usada aqui. O festival foi bonito. Não exagerou, não trouxe nada que fosse desnecessário. Havia espaço, físico e mental, e foi pensado para nós. Isso é genuíno e inusual nos festivais. Por isso, a festa foi em crescendo até ao terceiro dia. Um Domingo já em família. Depois dos tradicionais banhos de amor na piscina, a noite esperava ansiosamente, ali ao lado, pelos próximos concertos. De calções molhados e um bocado amuado, fui de passo apressado para o recinto principal, onde tocavam os Riding Pânico, uma banda que com um pouco mais de tino, pode ser um interessante caso de rock. No palco Vice, os Extraperlo sempre alegres, puseram todos a dançar. Num registo totalmente diferente, e de volta ao palco principal, os The Ghost of a Thousand premiaram-nos com um bom rock, cheio de riffs. Os Year Long Disaster mais valia terem ficado a aquecer para o concerto dos Karma to Burn.

Os japoneses, Bo Ningen, a fazer lembrar personagens de Tim Burton, atraíram o público com uma potência sonora perto dos limites permitidos pelos meus ouvidos. Karma to Burn deram um concerto pujante, com músicos experientes a injectarem a sua potência em todos os presentes.

João.
E como não há bela sem senão, o fim aproximava-se (oohhh), trazendo-nos os Monotonix (yeahhh).

Nuno.
Com Monotonix iniciou-se uma orgia! O concerto destes senhores fez de todos nós o palco de uma noite memorável. Instrumentos espalhados pelo público, saltos de muros altos, crowd surf, tudo valeu para nos esmagarem com a sua atitude.

Margarida.
No recinto, mais uma noite de grandes nomes, com Monotonix no palco Vice a vencer o prémio de concerto mais alucinante do festival. Os israelitas tocaram em todo o lado menos no palco. Era ver o guitarrista no crowd surf a tocar como se ensaiasse aquilo todos os dias. Um concerto suado, onde não deu para fugir ao mosh.

João.
Os Toro y Moi foram brutalmente afectados pela incapacidade da equipa de som em compreender a sua sonoridade. Za!, duo infernal e competente, trouxeram-me à memória os Boredoms.

Margarida.
Toro y Moi foi um dos grandes nomes prejudicados pela qualidade do som. Depois chegaram os Delorean – não sei se vindos do futuro ou não – que puseram toda a gente a dançar e mostraram, tal como os El Guincho, que no país aqui ao lado se faz muito boa música. Mas que nem sempre chega aos nossos ouvidos.

João.
Os Delorean acabaram em monumental dancetaria.

Nuno.
O fecho dançável do palco Milhões, com os Delorean, foi um doce para as nossas bocas. É diferente, curioso e bonito. De volta à pista Vice, os Crystal Fighters e depois os South Rakkas Crew eram o pano de fundo de uma multidão que ria e que gozava cada momento até à última gota de cerveja. Aerobica Team, música sim, música não – confusos com tanta excitação – foram roubando as últimas gotas de suor a um público já desidratado.

Margarida.
A noite acabou com toda a gente a suar e a gastar os últimos cartuchos a dançar ao ritmo de South Rakkas Crew, uma jukebox ambulante que nos bombardeou sem descanso com uma mixórdia bem engendrada de estilos musicais. A crew da Aerobica não se esqueceu da aula marcada e terminou este festival em grande, que só pecou por ter durado três dias e não duas semanas.
O nosso repórter, André Granada, a queimar os últimos cartuchos.
Depois de uma tentativa de DJs ensemble em cima do palco durante uns 10 minutos – desculpem pessoal, mas os gajos não deixaram passar nem mais um segundo – fiquei para trás com o Fua e a crew de Barcelona: El Guincho, Delorean, Crystal Fighters, ZA! e Extraperlo.

Estava tudo tão mamado e divertido, que no backstage se fez de tudo: música improvisada entre todos, goladas numa bebida merdosa que para lá andava, fumaram-se os últimos e rimo-nos largo. Os malhos na terra, os gajos nus, as piadas e gozar com o Pau, dos Extraperlo – ficou a saber o que também podia querer dizer o nome dele em português – foram as últimas consequências dos copos, antes de nos lembrarmos que também somos todos jogadores.
Um deles teve a feliz ideia da bola de futebol. Ficou tudo ainda mais maluco e uns toques no backstage, rapidamente passaram a corridas, fintas e entradas duras, por todo o recinto. Realmente, os espanhóis daquela geração parecem ter jeito para a coisa.

O Pau foi o melhor jogador espanhol e Jorge Naper o melhor português.
Foi um fim épico para um festival que teve o melhor ambiente de sempre e um espírito de festa filho da puta.
João.
Apenas tenho uma crítica a fazer às tardes na piscina do Milhões: uma série de bandas de avacalhanço produziram ruído sem me fazer rir, tendo ficado com a impressão, que mais valia ter estado alguém a fazer stand-up comedy do que ter assistido à javardice adolescente. A grande ressalva musical vai para as outras bandas – Lululemon, no segundo dia, Sunflare e The Shine, no terceiro, entre outras – que se esforçaram por nos dar música. E para DJs, como Marçal dos Campos, que entenderam bem as necessidades de música solarenga do público veraneante – “fat props” para a Fabulosa Marquise e Os Yeah!.
Nuno.
Asfixiado num pequeno cenário fluvial, o Milhões foi, acima de tudo, uma festa popular. À boa maneira minhota: música, bebida, comida e boa disposição. E soube deixar saudades entre nós: memórias comparsas do ambiente que ali se viveu.
Ora se as tardes me beijaram os lábios, o que esperar das noites? Muito. Tendo como ponto de partida e retorno a máquina de cerveja do backstage, estrategicamente colocada entre os dois palcos, as noites foram passadas junto do público, de palco para palco, num vaivém que obedeceu à sábia intercalação dos shows. Não vi todos, mas quase.
João.
Muitos elogios podem ser tecidos acerca do festival, mas o maior, na minha opinião, é pedir que para o ano haja mais!
Nuno.
Fomos todos expostos, sem censura, a um acontecimento ímpar em originalidade e bom gosto. Uma fusão que nos tornou a todos um pouco mais revolucionários.

Granada.
Obrigado Fua e longa vida ao Milhões!
TEXTOS POR SARA COSTA, ANDRÉ COVAS, ANDRÉ GRANADA, JOÃO MOREIRA, MARGARIDA SOARES E NUNO B. VIEIRA
FOTOGRAFIAS POR HUGO CALÇADA, ALEXANDRE INÁCIO, LEANDRO PINTO, LUISA QUINTELA, ELISABETE SANTOS ROSA E BRUNO VAN ZSÁ
VÍDEO POR LUISA QUINTELA
























Esta foto é um bom exemplo do que não queremos receber.






