OS LIMITES DO DESCONTROLO



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Aos 8 anos, Miguel Arsénio criou a sua zine de jogos de computador sob a orientação da tia Isabel e com a participação especial do amigo Mauro Mota, o seu actual fotógrafo de eleição. Desde 2004 é colaborador intensivo da webzine Bodyspace.net. Foi aí que viu muitos dos seus artigos serem ilustrados por Teresa Ribeiro, excepcional designer portuense. Foi colunista da C.A.V.E. e misturou-se com os metaleiros na extinta Underworld. Traduziu talk-shows femininos e filmes cipriotas que, felizmente, ninguém viu. Aprendeu tanto nas aulas da FCSH de Lisboa como nos seus corredores e esplanadas. Pelo meio ‘samplou’ Sufjan Stevens no EP de versões Come on feel Oeiras. Não é particularmente recordado pela dignidade das noites como DJ Piratinha e nem sequer pela congruência da playlist da Rádio Piratinha. Ultimamente, deixou-se apanhar por rabos, um assunto à medida da sua escrita OJ Simpson.


O rabo atraente como símbolo de desorientação no cinema, ou uma viagem à volta dos traseiros de Brigitte Bardot, Nicole Kidman, Jennifer Lopez ou Scarlett Johansson.


O valor de um rabo incrível no cinema nem sempre é devidamente reconhecido. Existem músicas dedicadas aos olhos de Bette Davis (quem não se recorda da rouquidão de Kim Carnes?) e até uma elegia gay em memória de Norma Jean (a senhora que o mundo haveria de reconhecer como Marilyn Monroe), composta por Elton John. O rabo, por sua vez, é obrigado a contentar-se com a preferência de Sir Mix-A-Lot, o rapper de “Baby Got Back”, e com algumas rimas do Rei R. Kelly.


Desta feita e para que haja justiça, é pretexto para uma digressão sobre o padrão que une os rabos vistosos das seguintes actrizes: Brigitte Bardot, em O Desprezo (1963), de Jean-Luc Godard; Nicole Kidman, no canto do cisne de Stanley Kubrick, De Olhos Bem Fechados (1999); o de Scarlett Johansson, em Lost In Translation — O Amor é um Lugar Estranho (2003), da filha de peixe Sofia Coppola; e o de Paz de La Huerta, no mais recente exercício de estilo filmado por Jim Jarmusch, Os Limites do Controlo (2008). Todas elas provocam desorientação numa personagem masculina que transita numa viagem (ou missão) de descoberta. Mas este é um assunto deveras complexo. À parte, e antes de incidirmos nos quatro escolhidos, importa reparar como um cu distinto pode correr o risco de ampliar o fracasso de um filme. Jennifer Lopez não é conhecida por salvar comédias românticas intelectualmente mortas, mas consegue passar relativamente impune, se nos lembrarmos nos danos provocados em Gigli (epítome da calamidade Bennifer) e Encontro em Manhattan (outra bela merda). O desastre de ambos parte não só de argumentos ridículos, como da incapacidade de retorno financeiro do orgulho latino de J-Lo. É por isso que a presença de Kate Hudson ou de Jennifer Aniston em filmes banais não acarreta a mesma gravidade. A cultura popular não tem expectativas próprias para esses cus.


Depois desta denúncia, retomemos ao padrão — esse que aproxima o rabo vintage de Bardot do arredondado sonho nerd de Paz de la Huerta. São ambos absolutamente magnéticos. A motivação dos dois realizadores terá sido, ainda assim, diferente, e as curvas de B. B., no papel de Camille Javal, surgem logo após o genérico inicial. Deitada sobre a cama, Camille pergunta ao marido, Paul, se este acha o seu cu giro e se a ama, ao que ele responde “total, terna e tragicamente”. É precisamente o rabo de Camille o trunfo que espoleta a tragédia de O Desprezo.


Envolvido numa disputa de soberania centrada numa adaptação cinematográfica, Paul Javal (interpretado por Michel Piccoli) desafia o impossível: conjugar a pressão de ser um argumentista trucidado pelos poderes da indústria (o realizador e os produtores) com uma esposa volátil e de alta manutenção, ao ponto de aproveitar a impotência criativa do desgraçado para se entregar às mãos do produtor (o muito mais másculo Jack Palance).
Ao contrário do que canta o patrão Jay-Z, em 99 Problems, “Paul Javal’s got 99 problems and the bitch is one”. Poucas protagonistas no cinema da Nouvelle Vague chegarão aos calcanhares de Camille Javal como perfeita bitch, quase tão desviante como uma sereia homérica (é a Odisseia a obra objecto de adaptação em O Desprezo). O incomparável rabo de Bardot marca, desde cedo, o compasso da espiral que leva o argumentista (note-se como persegue verticalmente Camille, quando estão em Capri) a perder o filme e a mulher.


Os que perderam a paciência para as alegorias e referências espalhadas por Os Limites do Controlo, o mais pessoal e indecifrável objecto de Jim Jarmusch, não podem, contudo, negar o poder da peida de Paz de La Huerta, que representa um teste à convicção do protagonista solitário, que tanto aprecia arte quanto engolir papéis. Habituado a conjugar cinema e música, Jim Jarmusch pode, desta vez, ter procurado fazer um filme pós-rock, pelo modo como aproveita desse subgénero (e de bandas como Slint e Mogwai) uma forma que acumula circularmente o mesmo murmúrio até atingir o clímax lógico num riff de guitarra. Depois de estar bem instalado o código narrativo de Os Limites do Controlo, os atributos de Paz de la Huerta ameaçam a contenção zen do protagonista e o próprio cerne do filme, com um rabo-riff.


O caso de Scarlett Johansson, na encarnação da deslocada Charlotte, em Lost In Translation — O Amor é Um Lugar Estranho, é ligeiramente diferente, pois trata-se do único que não surge nu, embora seja revelado, de rompante, pela transparência suficiente de umas cuecas coloridas por um rosa cândido. Nesse primeiro plano, Sofia Coppola transforma o rabo num ícone e, à semelhança de Godard, define, logo desde o início, o enquadramento para uma relação condicionada. A partir daí, Charlotte e Bob Harris (um excepcional Bill Murray) refugiam-se num doce flirt, sem que esse alguma vez seja gráfico em vez de sugestivo como a “transparência” das cuecas. Aquele rabo é representação evidente de tudo o que nunca chega a acontecer.
Além disso, Bob Harris é um homem de meia-idade que procura convencer o Japão a beber uísque Suntory, mas falha na comunicação com a família e na adaptação a Tóquio. A todas essas dificuldades, acresce a que separa Bob Harris de um contacto mais animal com a bufa de Charlotte. O segredo, partilhado no final, fica aberto a palpites, mas não estranharíamos se fosse parecido com: “Como-te essa bilha quando te apanhar lá na América.”


Finalmente, dissecar o desempenho de Nicole Kidman no onírico De Olhos Bem Fechados podia ser tema para uma tese de doutoramento em psicologia (defendida por uma das muitas alunas ousadas do ISPA de Lisboa). As interpretações diferem em função do espectador. Mesmo assim, registem-se dois factos: Alice Harford representa um dos mais “fodíveis” disfarces da carreira de Kidman, e aquele cu deveria ser pertença exclusiva da Maçonaria. Stanley Kubrick soube destacar o requinte e a perdição deste rabo, quando o filma como o mais elevado valor num matrimónio da alta-roda. Com isso, o terror psicológico sentido pelo marido (Bill), que receia tê-lo perdido para um oficial da Marinha, torna-se maior, sempre que o rosto de Tom Cruise empalidece com a entrada do sinistro piano de Dominic Harlan. Cego pela incógnita (saber se foi ou não encornado), Bill fica naturalmente desorientado: sujeita-se a pagar por sexo não consumado com uma linda prostituta e a ouvir cânticos romenos invertidos numa orgia em que todos fodem, menos ele. A tentativa de cometer adultério pode ser uma aventura do caralho.

MIGUEL ARSÉNIO
ILUSTRAÇÃO POR CÉLIA ESTEVES



17/03/2010 at 15:27




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