
Não há problema em estar-se nas tintas para o Facebook. Não há problema em ter um perfil que deixamos ao abandono durante dois meses e que não serve para mais nada a não ser para publicar os vídeos do Adult Swim e para espiar os perfis de gajas com as quais adoraríamos trocar fluidos. Mas, na realidade, é uma ilusão de merda. Toda a gente faz de conta que está-se nas tintas. E toda a gente o sabe e, consequentemente, faz parte disso. À excepção de algumas tonas, que não compreendem que é obrigatório submeterem-se a algumas regras elementares para não se cruzarem com o tipo de gajos que fazemos de conta que não vemos num domingo à tarde ou que reencontramos na mórbida secção “sugestões”. Como estou farto de dar de caras com perfis de merda (por princípio, aceito todos os meus pedidos de amizade), decidi ajudar esses deficientes sociais da Internet.
NÃO TER UM PERFIL PRIVADO
De que serve estar inscrito numa rede social se é para ficarem no vosso cantinho e delirarem com os vossos amigos? De nada. Os vossos delírios também são nulos, assim como os vossos amigos e os vídeos de gatos deles. Deviam revelar ao mundo a vossa nulidade, não a temer, enfrentar o resto do mundo ao erguerem as vossas actualizações nada bizarras face aos outros utilizadores, como o Homem fez em frente a Deus quando O tentou matar. É o mesmo princípio do truque, é exactamente por este motivo que toda a gente tinha Myspace.
NÃO ALTERAR O ESTADO TODOS OS DIAS
Ou pior, a todas as horas. Não estamos no Twitter. Ninguém gosta do Twitter, isso é para os americanos cabeças-de-alho-chocho que têm os seus diplomas à custa de testes de escolha múltipla. Os franceses não gostam de “twitar” assim como também não gostam de hambúrgueres ou de ser entusiastas do sistema comunitário e do Obama. Em último caso, as raparigas têm o direito de alterar o seu estado frequentemente porque ninguém o lê. Um estado por semana é um bom compromisso se gostam de contar as novidades, e mais, isso prova que existem outras coisas na vida para as quais se estão a borrifar.
NÃO ACEDER AOS SEUS PRÓPRIOS LINKS
Para quê aceder aos próprios links senão para mostrar que colocámos algo super parvo ao qual ninguém vai reagir mas que temos que defender até ao fim? É como o gajo que repetem pela segunda vez uma piada seca para mostrarem que não têm vergonha. O que não é verdade, porque eles têm vergonha. E toda a gente o sabe. E toda a gente vai rir-se nas suas costas assim que se forem embora. A isso chama-se vida depois da adolescência.

NÃO PUBLICAR TRÊS VÍDEOS SEGUIDOS EM MENOS DE TRÊS DIAS
As pessoas têm o direito de publicar dois vídeos de seguida quando regressam a casa às 5 da manhã, porque estar bêbado provoca-lhes uma imunidade crítica total. Mas um terceiro? Quem pensas que és, Viriato? As pessoas evitam os gajos que publicam vídeos em excesso no mural, por serem quase sempre os mesmos que se interessam por coisas demasiado irritantes e ultra-especializadas, às quais não podes responder “é bem verdade”, durante os 20 minutos antes de deixar a peça, e jurar nunca mais ir ver os amigos dos teus amigos.
NÃO ALTERAR A CATEGORIA INTERESSES
O problema de quando somos jovens é que temos a tendência a apercebermo-nos (e com razão) de que fomos muito idiotas há dois anos atrás. E o problema dos jovens de hoje é aperceberem-se que há rastos dessa parvoíce um pouco por toda a Internet. E também no Facebook. Mas vocês têm de ripostar e criar algo com todas estas pistas de temas para potenciais piadas. Por isso, é importante não acrescentar ou retirar grupos, realizadores ou escritores para mostrar que “evoluíram”, porque a verdade é que vocês estão vermelhos de raiva por se terem apercebido que tudo o que vocês amavam há dois anos atrás era uma merda.
Nota: Se vocês fazem questão de esconder os vossos antigos gostos culturais, era melhor apagar tudo duma vez só e não acrescentar mais nada. É uma forma de dizer “não cometerei o mesmo erro” com um ar mais ou menos digno.
NÃO ACEITAR OS TESTES QUE VOS PROPÕEM
Que idade tinham quando jogaram a essas parvoíces pela última vez, 14 anos? É estúpido ter 14 anos, passas o teu tempo a esconder-te na casa de banho a masturbar o teu novo pénis de adulto e, no resto do tempo, estás a levar raspanetes. Os únicos que adoram verdadeiramente responder aos testes do Facebook são as raparigas, porque se riem por tudo e por nada, e os trintões porque são os adolescentes da idade adulta. Adoram organizar batalhas de iPod, deixar crescer a barba fraca de cabrão e dar beijinhos o máximo de tempo possível. São uns bebés crescidos de merda.
NÃO DIZER QUE ESTAMOS NUMA RELAÇÃO
Se decidiram exibir o conjunto da vossa vida numa página da Internet, porque não meter antes “chato” directamente no campo “sobre mim”? Porque é esse o efeito que provocam em anunciar a todos que partilham a vossa vida com um ser inútil. O Facebook é um imenso reservatório humano regido pela tensão sexual mais intensa do universo, e é por isso que vocês enchem o ambiente com as vossas histórias de amor que se vão caracterizar pelo tédio, e em seguida, pela indiferença. No Facebook, as pessoas estão lá para “pinar”, é como estar numa discoteca na noite da mulher, ou pior.

NÃO MARCAR OS OUTROS NAS FOTOS
O que pretendem mostrar ao marcar as pessoas nas fotos, que conhecem pessoas? Porque a realidade parece dizer que vocês não conhecem ninguém. A maioria das pessoas que marcam outras pessoas são os bons amigos que nós conhecemos mas com quem nunca estamos, com quem nos cruzamos imensas vezes mas do qual nos esquecemos do nome e que escondem na sua carapaça de blogger uma vida inteira de moderação assim-assim, tipo tou-me-a-cagar. São os deputados da sociabilidade.
NÃO REUNIR MAIS DE 15 “FULANO GOSTA DISTO” NAS ACTUALIZAÇÕES
Se Robespierre ainda fosse vivo, teria o direito de falar sobre os seus actos e de criar burburinho acerca dos pequenos tomates de Marat para reunir mil milhões de «like» e 280 mil comentários. Mas vocês? O único feito que alcançaram durante a vossa vida foi o de saberem o que foi o 11 de Setembro de 2001 e de viverem na mesma era que o Michael Jackson. Ninguém se vai lembrar de vocês daqui a 100 anos por isso não publiquem laços ambiciosos que envolvam outras pessoas para além dos vossos amigos mais próximos, ou ainda as coisas verdadeiramente geniais que fazem para ganhar a vida. Calem o bico e sejam humildes.
NÃO TER FILHOS
Ter um filho remete para o facto de estar “numa relação”, ao mesmo tempo que estás “estável financeiramente” e “velho”. Mas então, o que é que estão aqui a fazer? O Facebook serve para encontrar pessoas jovens, arranjar um emprego e, sobretudo, desenvolver de modo significativo a vossa libido. Esses conceitos não fazem parte das vossas ambições actuais, a vossa presença aqui faz lembrar a presença do avô estúpido no aniversário do benjamim que festejava os seus 12 anos com os melhores amigos. Toda a gente está-se nas tintas para os teus problemas amorosos e para o último álbum dos Soundgarden, acaba o secundário e desaparece.
KELLY SLAUGHTER
TRADUZIDO POR SUSANA SANTOS