HOJE NA VICELAND

HEADBANGIN’ BOLIVARIANO: CONHEÇAM O METALEIRO FAVORITO DE HUGO CHÁVEZ


Paul Gillman no Gillmanfest, um festival de metal que ele organiza anualmente.

Paul Gillman é, sem dúvida, o metaleiro mais famoso da Venezuela e uma instituição na cena heavy-metal da América Latina. Como qualquer outro adolescente que cresceu nos anos 70, inspirou-se na música dos Black Sabbath, Iron Maiden e Alice Cooper. Enquanto o Menudo se pavoneava em roupas de cabedal e enchia estádios pela América Latina, com total apoio dos média e de corporações patrocinadoras, a banda de Gillman — os Arkangel — rebentavam com espaços independentes, cantando letras com um forte pendor político (“Represión Latinoamericana”, “Desempleado”, “Los gusanos del poder”), denunciando os governos corruptos que geriam a Venezuela.

Mas quando o presidente esquerdista, Hugo Chávez, tomou posse em 1999, Paul, antes considerado o tormento do aparelho político, tornou-se um dos seus defensores mais ouvidos. Durante alguns anos até mudou o nome da banda para “Paul Gillman y su Banda Bolivariana”, um aceno à “revolução bolivariana” de Chávez.

A ideia de um músico do metal a apoiar abertamente o governo actual — mesmo sendo um governo de esquerda — pareceu-nos muito estranha, por isso contactámos o Paul na sua casa em Valencia, Venezuela, para conversar sobre a sua música, a situação política do país e a sua amizade com o Presidente Chávez.


VICE: O teu álbum de 2003, Despertando en la Historia, é como se os Metallica tivessem decidido gravar um disco de covers das músicas do Woody Guthrie.
Paul Gillman:
Para mim foi um sonho. O famoso cantor venezuelano Alí Primera tocava músicas tradicionais com a guitarra acústica e o cuatro, mas tinha os mesmos ideais que eu. Ele fazia o trabalho dele e eu fazia o meu, e nunca nos conhecemos. Por isso, anos após a sua morte, decidimos fazer um álbum de tributo, mantendo as letras mas acrescentando a explosividade do rock. Todos os temas são covers do Alí Primera, excepto um original chamado “Revolución”.

No vídeo da “Revolución”, a banda está toda vestida de t-shirts vermelhas com estrelas brancas, símbolos da revolução bolivariana. Imagino que tenha chateado muita gente.
Lançámos o álbum em 2003, num dos momentos mais popularizados da história da Venezuela. Estávamos na berlinda da guerra civil e tínhamos de tomar partidos. Claro está, escolhemos o lado progressivo, os revolucionários. Alí Primera disse uma vez: “Gostaria de ver a revolução com os meus olhos velhos.” Mas não teve essa oportunidade porque faleceu antes de isso acontecer. Que melhor maneira de lho dizer do que com uma canção? Decidimos então que tínhamos de incluir uma canção sobre a revolução, composta pela banda. Acreditamos também que, a seguir a Simón Bolivar, Alí Primera foi uma grande inspiração para Hugo Chávez. Primera foi o grande ideólogo musical desta revolução e é por isso que lhe dedicámos um álbum. E a canção “Revolución” ao povo venezuelano.

Hugo e Paul, duas gotas de água bolivariana no grande oceano revolucionário.

Com o lançamento deste álbum mudaste o nome da banda para Paul Gillman y su Banda Bolivariana. Em que medida é que o contexto venezuelano era diferente quando gravaram a “Levántate y Pelea” em 1984 e agora quando escreveste a “Revolución” em 2003?
Em 1989 deu-se a revolta Caracaço, onde as pessoas saíram às ruas para lutar pelo que era seu. E depois houve o golpe em 1992, quando apareceu um gajo novo na cena política, como que saído de um sonho — o nosso Che Guevara, a nossa reincarnação de Bolívar: Hugo Chávez.

Músicos do rock e políticos normalmente não se dão. E o Chávez, para todos os efeitos, ainda é um político em busca de poder. Alguma vez te sentiste céptico quanto às suas intenções?
Isso é que é realmente interessante nisto tudo. A primeira vez que falei com ele tinha alguma desconfiança, porque os políticos dizem “sim, vai ficar tudo bem”, mas depois de eleitos já nem sabem quem tu és. Era a isso que estávamos habituados. Após a tentativa de golpe, o Chávez continuou a sua luta, mas de forma democrática. Prometi-lhe que podia contar comigo se acabasse com o recrutamento militar. Ele disse-me que detestava o recrutamento e que era uma violação dos direitos humanos. Fez um discurso fantástico sobre o assunto e eu acreditei nele. Saí da casa dele e fiz uns panfletos a explicar a razão pela qual o movimento rock venezuelano devia apoiar o Hugo Chávez. Viajei pela Venezuela com estes panfletos, distribuindo-os de forma quase subversiva, levando a minha música e letras ao povo na esperança de que este homem ganhasse. E contra todas as probabilidades, o povo levantou-se. Quando isto aconteceu, a banda que tocava comigo — e que eu acreditava apoiarem-me, visto terem noção das minhas letras e posições políticas — fugiu aterrorizada. Estar do lado de Paul Gillman passou a ser uma coisa perigosa.

Isso não parece muito “metal” da parte deles.
Fiquei sem músicos. E foi aí que nasceu a Banda Bolivariana. Exigi que se eles tocassem comigo, teriam de apoiar o governo. Disse-lhes logo: “Eu concordo com esta revolução. E vocês?” Demos mais concertos do que em qualquer outro momento da minha carreira. Por acaso, até tocámos na Argentina quando o presidente lá foi numa visita oficial. Foi a primeira vez que Chávez transmitiu o seu famoso programa televisivo Aló Presidente fora do seu país. Ele queria uma banda de rock a tocar no seu programa e mandou-me à Argentina procurar uma. Imagina, um governo militar a querer uma banda rock. Escolhemos uma banda chamada Tren Loco por causa do seu activismo social. Durante a transmissão em directo, o presidente chamou por mim e pelo ministro da cultura para organizar um festival internacional de rock, e assim nasceu o Festival de Música Urbana. Mas também foi uma única vez. Mais tarde criámos o Gillmanfest como evento anual gratuito para apresentar bandas venezuelanas.

A capa dos álbuns Inevitable (à esquerda) e Cuauhtemoc (à direita). O design é do Derek Riggs, o tipo que criou o Eddie dos Iron Maiden.

Alguma vez estiveste em sarilhos pelo teu apoio ao Chávez?
Desde a primeira vez que visitei a sua casa, antes de ser presidente. Ele disse: “Olha, irmão, tu vieste à minha casa. Eu não te pedi que viesses, e agora estás em sarilhos. A partir de agora, a polícia secreta vai andar atrás de ti. Vão tornar a tua vida impossível.” A segunda vez que o visitei, eu estava em casa de uma tia e recebi uma chamada ameaçadora a dizer que se eles me voltassem a ver com o comandante Chávez, colocariam droga no meu carro para que eu fosse preso. Liguei ao comandante e contei-lhe o sucedido. Ele disse: “Façamos como o Bolívar: atira os teus medos para trás das costas e andemos para a frente com a revolução. A decisão é tua se queres continuar.” Eu respondi: “Sim, Comandante, vou em frente.” E, desde então, os inimigos de Chávez já nos fizeram de tudo. Já nos cuspiram no supermercado, chamaram assassinos aos nossos filhos, estragaram os nossos carros e gritaram-nos: “Ide para Cuba!”

Ainda assim, há muito a fazer a nível de segurança na Venezuela, não é?
Sim. Quer dizer, a violência e a falta de segurança pública são fenómenos que ocorrem por toda a América Latina. Acho que é algo que não conseguimos evitar. Na Colômbia e no México — e em todo o mundo — a violência é muito comum. Os nossos próprios média fazem-nos parecer maus ao mundo exterior.

Existem bandas de rock na Venezuela que levantam a voz contra o governo de Chávez?
Sim, mas acho que é uma questão de moda. Infelizmente, ainda temos uma mentalidade colonialista, na qual tudo o que vem de fora é melhor. Infelizmente, entre estudantes da classe média e classe média alta, não é fixe ser Chavista. Está mais na moda ser escuálido [anti-Chavista]. Existem bandas de rock comercial formadas por hijos de papá — filhos de gente com dinheiro. Mas as bandas que surgem dos barrios, essas identificam-se com os verdadeiros ideais do rock’n’roll.

No geral, os músicos de rock de todo o mundo sempre foram contra a instituição. Consideram-te um pária?
Acredito que deva ser o único músico pró-governo da história do rock. Mas deixa-me dizer-te uma coisa: sou uma pessoa crítica. E já critiquei o governo. Já critiquei os funcionários públicos. Por exemplo, o meu próximo álbum terá uma música chamada “Malo, el funcionario que no funciona”, que é uma paródia àqueles burocratas que fazem um péssimo serviço. Estou feliz e penso que conseguimos já muitas coisas, mas ainda não conseguimos tudo. Se amanhã (Deus proíba) esta revolução trair o povo, estarei do lado do povo. Estarei sempre do lado do povo, podes ter a certeza disso.

É verdade que fazes a voz de Patrick Star na versão espanhola de SpongeBob SquarePants?
Sim, fiz algum trabalho de dobragem nos últimos cinco anos. Fiz a voz de Patrick em SpongeBob SquarePants, Cyclops nos filmes dos X-Men e uma personagem em Batman Beyond. Também já fiz dobragem de inúmeros documentários — coisas para o Canal História e para o Discovery — sobre todo o tipo de assuntos. Mas o pagamento é mau. E, no final, o rock’n’roll é o que realmente importa para mim.


ENTREVISTA POR BERNARDO LOYOLA


NOISEY: O TIPO DA ROUGH TRADE WEST OUVE LANA DEL REY E FUCKED UP




O Sean trabalha na Rough Trade West, em Londres, e considera que tem o melhor emprego do mundo: recebe pouco e não tem grandes esperanças no futuro, ou seja, condições perfeitas para o seu estilo de vida que consiste em não chegar a lado nenhum. Mais importante que isso: o Sean, um verdadeiro especialista da indústria discográfica, aceitou fazer esta espécie de rubrica em que faz breves críticas aos melhores e piores álbuns da semana.

Mais vendido:
Born To Die (Lana del Rey)
Há muita gente que descurte esta miúda, mas o Sean adora-a e tem por hábito pôr esta bolacha a rodar em casa para descansar depois de um dia de trabalho a ser desagradável com os clientes da Rough Trade. Há apenas 30 libras a separar-vos de levar este disco para casa — que coisa boa é que hoje em dia custa apenas 30 libras?! NADA.

Mais seca:
Year Of The Tiger (Fucked Up)
Os gordos não deviam tocar em bandas.

Dica do Sean:
Voguing And The House Ballroom Scene of NYC 1989-92 (VA)
É o passatempo preferido do Sean. Basta olhar para ele: vogue on, my friends!


NOISEY


OCARINA OF TIME 3D: O MELHOR JOGO DE SEMPRE AGORA PARA A PORTÁTIL DA NINTENDO


THE LEGEND OF ZELDA: OCARINA OF TIME 3D
Plataforma: Nintendo 3DS
Editora: Nintendo

Vou-vos falar de um veterano dos videojogos. Joguei-o ainda na Nintendo 64, quando saiu originalmente em 1998. O pessoal curtiu tanto que foi reeditado, em 2003, para a Game Cube. Agora chega à 3DS para a geração dos “altos gráficos” e do 3D.

Para quem quer saber um pouco do Ocarina of Time — ou porque até curtia o Fifa 95 na Mega Drive e depois esteve a viver debaixo de uma pedra durante estes anos todos (acho que nunca ninguém esteve a viver mais do que 15 dias nessas condições, depois é salvo ou morre) ou, simplesmente, porque nunca ligou puto a este tipo de entretenimento — o Ocarina of Time conta-nos a história de um tipo chamado Link que faz lembrar aquele amigo loiro do Senhor dos Anéis e que tem de encontrar as várias partes de um tal Tri-Force, percorrendo um vasto mundo com castelos e aldeiazinhas medievais. Fica bué amigo de uma princesa chamada Zelda, arranja um cavalo e, como não se chega ao topo sem fazer inimigos, também se chateia com um gajo chamado Ganondorf.

Inovador e com a jogabilidade afinada que a Nintendo confere aos seus títulos in-house foi, na altura do seu primeiro lançamento, elogiado pela crítica, chegando mesmo a ser considerado o melhor jogo de sempre, numa época em que todos os meses saíam melhores jogos de sempre. Graças ao selo Nintendo, continua ainda a figurar no top 10 de muito boa gente (alguns até com livros editados). Esta versão torna o jogo portátil, para que possa ser jogado no metro (se nenhum mitra gamar a 3DS), no Parque da Cidade, no Cais do Sodré ou no Milhões de Festa. O único senão é o save remeter a um ponto fixo no jogo, ao invés do local em que o jogador se encontrava. Ninguém na Nintendo anda de metro?? Então e se eu só tiver que andar uma estação e quiser jogar cinco minutos?!

O grafismo do jogo sofreu um revamp: menos polígonos, mais “altos gráficos”. A jogabilidade altamente continua lá, graças ao thumbstick e ao acelerómetro da 3DS. Para a malta saudosista que, como eu, jogou isto nos tempos da N64 e procura uma oferta de valor acrescentado, é incluído o Master Quest, infelizmente apenas disponível depois de terminar uma vez o jogo. Tarefa que durará bem mais que um mero par de horas. Podia terminar com o típico “comprem, senão não esgota”, mas se já têm uma 3DS, o mais provável é que tenham também este jogo.




TEXTO POR FRANCISCO ABRUNHOSA


ANTÓNIO DA SILVA, UM ETNÓGRAFO DO SEXO CASUAL



A primeira vez que assisti a um porno gay foi quando peguei num CD-R do meu irmão, a pensar que era de música, e o meti no computador. Afinal era um vídeo com três marinheiros a fazerem coisas que o meu cérebro heterossexual acabou por recalcar nos confins da minha mente.

A segunda vez que vi um porno gay foi há uns dias, quando me mostraram o trailer do Mates. Estou a falar da curta-metragem sensação de António da Silva. Pelo menos, desta vez já não fui ao engano. O António apareceu na redacção para uma conversa e apercebi-me que havia malta da casa que já o conhecia. Nenhum de nós adivinhou que este gajo, que anda a dar umas na internet, já tinha cruzado conversa connosco há uns tempos num restaurante clandestino. Pelo filme também não dá para perceber quem é ele — só se vêem corpos e meias caras, ainda por cima todos parecidos. Falámos da sua incursão no mundo do sexo casual e do peso da identidade sexual numa sociedade que só pensa em foder. E esse peso ainda é muito. Não é por nada que o António só disse à mãe uma semana antes desta entrevista: “Sou gay.”


VICE: António da Silva não é o teu nome verdadeiro. Porquê esse nome?
António da Silva:
António porque, tendo em conta o trabalho que é, acaba por ser um pouco irónico, porque tem uma conotação bastante religiosa. Mas o factor principal é o facto de ser o meu segundo nome. Normalmente temos quatro nomes e António e Silva são os meus nomes intermédios. Como se trata de um projecto muito pessoal, achei piada jogar com isso.

As pessoas que entram no filme são teus amigos?
A maior parte é malta que conheci de propósito para o projecto, mas alguns eram amigos.

E como é que foi dar umas em frente à câmara?
Hmm, não era essa a intenção, à partida. O objectivo começou por ser registar situações íntimas entre pessoas através da câmara, mas o feitiço virou-se contra o feiticeiro e, de repente, dei por mim a entrar nas cenas. Aí percebi que o potencial era muito maior. Ao início foi estranho. Questionei-me e tal, mas depois tornou-se normal e a coisa acabou por ficar muito mais interessante.

O teu filme está a dar que falar.
Sim, todos os dias tenho mensagens de pessoas que querem ver o filme completo. Nos últimos dias, a minha conta do Vimeo explodiu: cerca de três mil pessoas acederam ao vídeo. Também há o interesse da imprensa, como vocês. Esta reacção foi uma surpresa para mim. Acho que ajudou muito o facto da estreia do filme ter sido na altura em que a Butt o mencionou. Foi uma questão de sorte, acho. De repente a coisa está a multiplicar-se de uma forma surpreendente. Espero que isto seja bom. Tem havido imensas críticas e consigo, finalmente, encará-lo com mais distância, porque vejo pessoas a comentar o filme.


E quando não estás a fazer isto, o que é que fazes?
Trabalho como realizador, faço curtas-metragens, só que o tema é diferente.

O que é que os teus amigos, que não entram no filme, acham deste trabalho?
Sabes que ainda não partilhei com muita gente, mostrei a poucos amigos. Ao início houve muita rejeição, muita crítica, e eu próprio perguntava-me: “Porque é que estou a fazer isto? Tanta gente já fez coisas sobre este assunto, o que é que eu posso acrescentar ao tema?” Mas, a partir do momento em que encontrei o caminho e achei que tinha algo que valia a pena contar, comecei a mostrar o filme de uma forma mais finalizada e a reacção começou a ser bastante positiva.

Tentar identificar-te no filme é como tentar encontrar o Wally.
Foi curioso ver essa questão da identificação. Há no filme um tipo de corpo, um género, que, basicamente, é o que eu prefiro. Por isso, os corpos são muito parecidos e as pessoas que me conhecem e frequentam o meu círculo de amigos pensam que me estão a reconhecer ou a outras pessoas, mas muitas vezes não estão. No fundo, nós somos todos muito semelhantes.

Não achas que se estão a misturar muito as águas entre a cena artística e a pornografia?
Sim. Quer dizer, a borderline é a fórmula de hoje em dia. As coisas agora ficam no limbo entre a pornografia, arte, cinema e artes performativas — porque não deixam de ser performances que acontecem. Nesse sentido, sim, o filme está nesse cruzamento e é isso que me interessa. A minha intenção era não tornar a coisa muito “arty”, mas também não muito pop comercial. Interessava-me que fosse uma coisa fácil, para muita gente perceber, fácil de ver e entertaining, mas com substância. Apesar de a história ser muito simples, o que pode ser lido por trás disso é muito mais complexo.

Foi a primeira vez que usaste sexo explícito num trabalho?
Sim, a nível pessoal foi o primeiro trabalho, mas já tinha feito alguma experimentação anterior nesse campo. Há um ano trabalhei numa companhia de porno, em Londres. Trabalhava como realizador. Foi o meu primeiro contacto com o meio, mas aí trabalhei com actores profissionais, estrelas do porno, mesmo. Neste caso não teve nada a ver com isso, apesar de o tema também ser sobre sexo.

Só vi o trailer. Podes falar mais sobre o Mates?
São encontros imediatos. Nunca tive daqueles perfis online de engate nem nada disso, mas depois de ter acabado uma relação longa foi tipo “bem, deixa lá ver o que é isto”. Então comecei a usar o Grindr, que é uma aplicação GPS para smartphone, em que tu detectas pessoas online e a distância a que estão de ti. Podes ter um vizinho que está online, tens uma foto, e em cinco minutos podes estar dentro da casa dele ou ele na tua. E assim conhecerem-se de uma forma super íntima. Além disso, da mesma forma que apareceste muito rápido também desapareces num abrir e fechar de olhos. No Mates acontece exactamente isso: começa com um chat, “hi mate, how are you? I’m horny. What are you up to?” e trocamos fotos. A história é de quecas, com várias pessoas, e retrata o chegar ao sítio, despir, conceber o acto, ejacular, respirar um bocadinho e ir embora. Isto para mim era novo, mas é uma cena muito praticada. Fiz isto durante três meses e levava sempre a minha câmara.


Achas que o pessoal gay é mais desinibido nesse aspecto de interagir nas redes sociais?
O gay tem a mentalidade do homem, somos muito físicos. Acho que os heterossexuais fazem exactamente o mesmo, mas com uma diferença: pagam. O que é uma estupidez quando há tanta coisa gratuita hoje em dia. Se fossem honestos era tudo muito mais fácil. E então pagam pelo que merecem: pagam por não serem frontais. Se o fossem nunca pagariam para ter sexo. Além disso, somos, possivelmente, menos pudicos.

E a seguir ao Mates vem o quê?
Tenho imensa coisa planeada. Mas tenho de ser cuidadoso com este personagem, o António da Silva. Tenho que o definir melhor. Existem várias possibilidades, vários caminhos para ele. Ainda é muito cedo para entrar em detalhes, mas já filmei uma série de situações para dar continuidade ao personagem criado, num outro projecto completamente diferente. Segundo o feedback que tenho tido, o Mates consegue seguir um caminho algo diferente, que não se vê muito por aí. Ou seja, dentro do que nós entendemos por porno, tem algo que não é bem porno e pode ser outra coisa qualquer. O meu interesse também é esse: mudar a percepção do que hoje podemos considerar pornográfico. Não sei qual será o próximo trabalho, mas será nesse sentido.

Ia perguntar-te isso a seguir. O teu objectivo com isto é mudar a percepção do porno, então?
É mudar o que entendemos por sexo. Este filme não deixa de ser um trabalho antropológico. É um trabalho sobre actos reais e que pode ter até uma componente científica. Acho que a nossa sociedade gira em torno do sexo, dá-se muita importância a isso, e enquanto tal acontecer não vamos andar para a frente e evoluir no sentido em que devíamos.

Disseste que tinhas acabado de sair de uma relação. Isto surgiu como maneira de conhecer pessoas? Estavas com vontade de experimentar coisas novas?
Tenho desenvolvido trabalhos a partir de residências artísticas. Se quero fazer um trabalho sobre uma cidade vou para um local e investigo sobre o tema para experienciar a questão. Neste caso o que me interessava não era um espaço, nem os outros, era eu mesmo. Conhecer-me através dos outros. Foi um período em que decidi deixar a minha casa, deixar tudo, e passei a não ter casa. Um mês vivia num sítio, outra semana vivia noutro, às vezes com amigos, outras vezes arrendava quartos. Isso foi um bom método para ter várias experiências num curto espaço de tempo. Além disso, tinha o espaço das outras pessoas. Estando no tal online flirting, um dia ia a casa de uma pessoa, noutro dia ia a casa de outra e isso interessava-me muito mais do que trazê-los até onde eu estava, apesar de ser muito mais fácil filmar dessa forma.

Mas procuravas ter prazer com isso ou foi só mesmo pela antropologia da cena?
Foi tudo. Naquela altura misturou-se tudo. Era prazer, mas também era muita frustração. Não sabia o que fazer da minha vida. Como disse há pouco, tinha acabado de sair de uma relação longa, sentia-me sozinho e, ainda por cima, estava sem trabalho. Fazia-o também para compensar o ego. Foi a maneira mais estúpida que encontrei para levantar a moral. Fazer novos amigos também, criar novas relações.

Por falar nisso, ficaste com alguma relação ou manténs contacto com alguém que tenhas conhecido durante o projecto?
Sim, agora sim. Houve um período em que tive mesmo de parar e não ter contacto com ninguém. No início começou por ser uma cena pessoal, depois passou para pessoal/profissional e chegou a um ponto em que era só profissional. Então decidi desligar-me das pessoas com quem tinha tido contacto e tentei isolar-me de tudo para poder editar o filme. Agora, aos poucos, começo a retomar o contacto com algumas das pessoas.


Más experiências, tiveste?
Boa questão, não tinha pensado nisso [risos]. Más experiências não tive. Se houve má experiência, para mim, foi olhar para o trabalho e ver a coisa como um período em que não estava bem. A experiência em si, no total, nunca é assim tão boa porque é preciso ter cuidado mesmo em questões de saúde. Tipo, cheguei a um ponto em que comecei a entrar em pânico a pensar: “Depois deste tempo todo, será que está tudo bem comigo? Tenho que fazer análises. E até que ponto é que eu também não me terei perturbado mentalmente?” Afinal de contas, isto é uma cena fria: conheces uma pessoa, vives o momento intensamente (a maior parte foram boas experiências), mas o desligar, parecendo que não, é bruto. É um bocado esquizofrénico. Em termos psicológicos é preciso saber lidar com isso. De certa maneira, foi uma má experiência que se tornou numa boa experiência.

Sexualmente experimentaste coisas diferentes das que estavas habituado?
Não, nisso sei o que quero. Só aconteceu ser confrontado com linguagens que não fazia ideia do que queriam dizer. Pessoas a perguntarem-me se eu gostava de GS — golden shower —, coisas desse género. Às vezes era eu que atiçava: queria ver até onde é que as pessoas iam, mas nunca cheguei a ser gato escaldado. Sei mais ou menos o que quero e também o tipo de corpo que procuro, muito idêntico ao meu.

Aconteceu-te chegar ao sítio e a “mercadoria” ser completamente diferente?
Sim, mas não muito, porque chegas a um ponto em que percebes o mecanismo. Por exemplo, quando vês fotografias de uma pessoa que está sempre de chapéu ou corta sempre a foto sem mostrar a parte de cima da cabeça, já sabes que é careca. Os homens fazem muito isso e torna-se óbvio de que estão a esconder algo. Depois também há muitos perfis falsos, com fotos de outras pessoas. Nesses casos nem chegas a encontrar-te com ninguém, porque não é esse o objectivo da pessoa. Provavelmente só quer usar o perfil para te ver nu online.

Essa questão da identidade sexual é talvez um dos assuntos centrais deste trabalho, não?
Pá, sim. Na semana passada cheguei à beira da minha mãe e disse-lhe: “Sou gay.” Não vale a pena esconder essas coisas no tempo em que vivemos. É um bocado como o gajo que esconde a careca nas fotos: não podia ser mais óbvio. Não é saudável. Depois vês pessoas que tentam reprimir a sua sexualidade. Vês, por exemplo, gays a transformarem-se em padres porque é a única maneira de serem aceites socialmente sem assumirem a sua orientação sexual. Isso não é honesto nem saudável.


ENTREVISTA POR DAVID PINHEIRO SILVA
FOTOGRAFIA POR NUNO MIRANDA
Imagens da curta-metragem Mates cedidas por António da Silva


MÚSICA: FRANK TURNER

The Second Three Years
Xtra Miles/Epitaph
Classificação: 0/10

Fala-se muito de como o Frank Turner (colega do príncipe Harry no Eton College e neto do presidente da BHS, Sir Mark Turner) antes estava nos Million Dead, uma banda razoavelmente fixe. Mas razoável não é fixe suficiente no punk. Os Million Dead não eram nenhuns Iceburn. Nenhuns CRASS, Minor Threat, NOMEANSNO. Mas iá, o pessoal achava que eles até eram fixes e agora vejam no que isso deu. Não se desculpem agora, seu cabrões da merda. Não há nada que possam fazer em relação a esta atrocidade musical mais as suas covers de Dire Straits, Avril Lavigne e Chumbawamba ou a residência na Wembley Arena. Se querem ajudar, tentem lá parar os Madina Lake antes que isto volte tudo a acontecer.

EATING TRIFLE


UM EDITORIAL DE MODA QUE SÓ FUNCIONA ONLINE


Os gifs passaram de publicidade irritante em sites porno a forma de expressão para criativos com túnel carpal. Adoramos gifs e perguntámo-nos: como é que a indústria da moda ainda não se rendeu a estes loops infinitos? Vai daí, o VICE Style juntou-se ao fotógrafo Josh Greet para uma sessão que provasse que imagens animadas de forma repetitiva combinam com street fashion. As provas seguem depois dos créditos.


GIFS POR JOSH GREET
STYLING POR SAM VOULTERS
CABELOS POR YOSHITAKA MIYAZAKI
MAQUILHAGEM POR XABIER CELAYA
ASSISTÊNCIA POR ALI CARMAN E MAEVE O’BRIEN


T-shirt e calções Eastie, boné Stüssy, sapatilhas Gourmet, relógio casio, meias Primark.

Casaco Stüssy, calças Juel Larsen, sapatilhas Vans, boné American Apparel; fato de banho e casaco de peles vintage; casaco Nike, calças American Apparel, sapatilhas adidas, meias Primark.

Casaco Cassette Playa, camisa Element, t-shirt Kush Skateboards, calças Cottweiler, boné Nasir Mazhar.

Casaco Cassette Playa, vestido vintage, gorro Etnies, meias American Apparel.

Casaco BAPE, sapatilhas Converse, meias American Apparel.

Camisa Alife.

Top vintage, calções Cottweiler, botas Dr. Martens, sutiã Victoria’s Secret; top Nike, calções Cassette Playa, botas Dr. Martens, meias Cat.


MINHA, SOSSEGA A PASSARINHA

UM GUIA FEMININO SOBRE MASTURBAÇÃO FEMININA (PARA RAPARIGAS)


Os rapazes gostam de pensar que nós, raparigas, podemos ter relações sexuais sempre que queremos. VERDADE. Mas é também um grande FALSO porque o “podemos” presume que queremos fazer sexo, com toda a treta do rapaz-vir-até-ao-teu-apartamento-vir-se-nos-teus-lençóis-e-infectar-te-com-sentimentos-e-com-azar-também-chatos que uma relação sexual envolve. Concluindo: sim, podemos, mas não queremos. Muitas vezes, quando a fome aperta, as raparigas fazem-no sozinhas das mais variadas formas solitárias, se é que percebem. Isto requer explicação porque os mesmos tipos que se esquecem da sua Asian Fever — ou o que quer que seja (zzzz) — no banco de trás ficam tipo “o quê!?” quando se diz que as raparigas também se masturbam. Aos montes, filho!

Sossegar a passarinha é, basicamente, a única parte da sexualidade feminina que mantém a estética do nobre desabrochar que nos disseram para manter desde que estávamos no cu dos franceses. Acrescentas um rapaz ou outra rapariga à masturbação e as caras e os sons tornam-se mais estranhos, o que é melhor, mas sozinha é do género: ahhh. Simples. Sabes como mimicamos “bater uma” quando um idiota diz asneiras? Vou começar a fazer um movimento de carícia sempre que quiser sugerir algo fixe. “Vou para o parque ler revistas [movimento de carícia].”

A masturbação feminina é especialmente boa quando a comparamos com a masturbação masculina. Por muito útil que seja ver um tipo a tratar de si para que possas tomar notas sobre como ele gosta que lhe toquem no dito cujo, a masturbação como conceito fica para sempre manchada pela inerente imagem de um círculo de punheteiros na floresta, lenços de papel amontoados no chão e, pior do que tudo, a mítica meia. A pior pornografia da qual apenas viste metade, e com nojo de ti própria, é mais agradável do que o raio da velha meia de desporto com os encaixes dos dedos cheios de esperma. Ugughggh. Os rapazes são altamente, mas a sua tecnologia de masturbação nem por isso.

ALMOFADA/URSO DE PELUCHE/COBERTOR
É assim que as raparigas aprendem a fazê-lo, normalmente montando sem querer uma destas coisas e, eventualmente, apercebendo-se de que o sentimento caloroso que produz é replicável e, num dia ao estilo Fantasia, leva a uma sensação/catarse tipo Peta-Zetas-a-derreter-no-oceano que, com nojo (sim, é uma palavra nojenta), irão chamar de “orgasmo”. Pronto, está bem: esqueci-me de que muitas raparigas nunca passam por isto, e nunca atingem o orgasmo com sucesso, seja na adolescência ou mais tarde. Hmm. Desta questão já não percebo nada. Desculpem lá.

CHUVEIRO/TORNEIRA
Um dia o teu vibrador irá avariar e estarás demasiado falida para o substituir imediatamente e as tuas mãos não serão nada atractivas como instrumentos sexuais porque gastas todo o teu tempo a escrever na internet e aí, aí! Aí lembras-te de que uma torneira ou um chuveiro estão algures pousados à espera de serem utilizados, como um vibrador gratuito. (Vibrador também é uma palavra nojenta? Não gosto da forma como é usada por pessoas da TV para criar enredos, por exemplo: “Encontrar o vibrador da Jenny, ewwwww!” Cresçam. Os brinquedos sexuais não estão particularmente outré, são apenas coisas da vida adulta como as classificações de crédito ou a invasora sensação de futilidade. E se achas que um vibrador é estranho, ainda tens muito que aprender, amiga.) O chuveiro tem uma força de pressão estável e segura resultante de um material genitalmente seguro, que é um bocado lououououco quando estás habituada a menos estimulação. Uma coisa: não deixes a água subir lá para dentro. Já sabes que não deves fazer sexo em banheiras de hidromassagem, certo?


ENCOSTADA À PORTA DO WC PARA DEFICIENTES
Não me lembro se nos outros países têm WC para deficientes obrigatórios por lei. Em todo o caso, nós temos no Canadá, e é lá que vais querer ir quando tiveres que sossegar a passarinha em (semi)público. Raramente estão ocupadas (obviamente terás de sair se aparecer alguém que realmente necessite de um WC para deficientes) e estão sempre ao fundo da casa de banho, por isso terás menos probabilidades de ouvir o xixi de alguém enquanto contornas o cognitus interruptus da tua fantasia masturbatória com o Friday Night Lights (Smash! Não, aquele do cabelo! Não, o treinador Taylor! DICA: Escolhe sempre o Saracen). Também tem espaço para poderes esticar as pernas; depois de te vires vais precisar de restabelecer a relação com o teu corpo, porque vires-te em público é sempre um bocado real demais. Bónus triplo se o fizeres no emprego e se trabalhares num sítio estúpido onde é necessário “usar fato”, porque a tensão extra dos collants na mão que usas é !!!.

MÃOS LIVRES
Esta é a melhor. Se te sentares da forma certa no comboio a caminho do trabalho e conseguires sacar um orgasmo pelo modo como sentes os teus jeans, já és Nível 6.

TERCEIRO DEDO, MÃO DOMINANTE
Provavelmente a melhor maneira das raparigas se masturbarem é fumarem um charro e tomar Xanax, vestir algo escorregadio, passarem uma ou duas horas alternando entre porno e um filme sexy (e por filme sexy acho que apenas falo do Bad Boys II), brincarem com o cabelo, sentirem lentamente toda a área, mamas e o que quer que gostem de sentir com as mãos e com outras coisas que tenham comprado numa sex shop, porque isso é: a) como se trata uma senhora, b) educativo e bom treino para sexo a sério e c) útil para ter orgasmos menos óbvios, aqueles que são mais um “oh, OK!?” do que um “yeah!”. Era isto que a Britney estava a fazer quando “escreveu” o épico masturbatório “Touch of My Hand”. (Boa música!)
Mas depois há a realidade, que é o dedo do meio (deve ler-se: mais forte) da mão dominante a fazer a masturbação razoável e eficiente, aterrando directamente no clitóris e indo directo ao assunto, sem qualquer preâmbulo. É ainda pior quando estás cansada e usas o orgasmo para ajudar a adormecer e o fazes de lado, em posição fetal, para que te possas vir e adormecer imediatamente. E tu és o quê, um animal? (Sim.)


TERCEIRO DEDO, MÃO NÃO DOMINANTE
Para quando a mão habitual está cansada. Oh, vamos acrescentar “sentares-te na tua mão até que adormeça” e “utilizar a mão não dominante na ‘m’ para que dure mais tempo” às coisas que os rapazes fazem e que nós não entendemos.

DILDOS
As mulheres não se vêm a tentar replicar a experiência peniana, excepto na pornografia. Juntamente com dedos ou assim, tudo bem. Mas sozinho não serve de muito. Além disso, a masturbação lembra às heterossexuais que o lesbianismo é a escolha certa: estamos apenas demasiado pilamatizadas para ir em frente. O momento do dildo é quando o teu namorado quer fazer dupla penetração e o pénis dele é a escolha anal mais apelativa. (Eu nunca fiz nada disso, mesmo, mas já ouvi falar.) De qualquer maneira, os dildos são meio retardados. Acho que é melhor sentir falta de uma pila do que fazê-lo com um dildo. Assim, da próxima vez que fizeres sexo vai doer daquela maneira posi-dorida que te permite dizer legitimamente: “Isso dói, continua.”

HITACHI MAGIC WAND
Sinto-me obrigada a incluir isto porque é o vibrador que toda a rapariga compra e se apaixona e substitui vezes sem conta (avariam constantemente). No entanto, não estou convencida. A masturbação deveria ser sexy e uma máquina eléctrica desajeitada que faz VROOOOOOOM não o é. Além de que a cabeça da Magic Wand é branca e tem textura, o que significa que não a podes usar durante a menstruação, que é quando deverias masturbar-te mais. Muito mais, mesmo.


POCKET ROCKET
O Pocket Rocket é uma merdice defeituosa que vem provavelmente do Japão e que eu comprei já quatro ou cinco vezes. É silencioso, não tem uma “aparência” exagerada nem demasiado fofa (nada é pior do que um vibrador constrangedor) e é pequenino. E gosto da viagem suave e calma que proporciona.
Esta — um pequeno vibrador bebé — é a escolha certa quando queres mesmo sexo a sério, mas não vais ter. É tão bom que consegues esquecer que estás a usar um vibrador para te vires. Basta colocá-lo na posição certa e equilibrares o teu clitóris nele (de barriga para baixo com as pernas bem abertas por causa da pila fantasma dentro de ti).

AQUELA COISA ASSUSTADORA CHAMADA SYBIAN
Nem consigo. Deveria ser desinventada.


TEXTO POR KATE CARRAWAY
ILUSTRAÇÕES POR HELLEN JO


A VIDA DEPOIS DA MORTE É PARA OS ESTÚPIDOS



O mundo do esoterismo está completamente esquecido e não se percebe porquê. Toda a gente ganhou uma atitude materialista ou racional ou científica. O que é uma seca. O que é feito dos livros de São Cipriano, das histórias do pessoal que estava morto e aparecia numa estrada qualquer ou daquele tio que uma vez viu um exorcismo? Ninguém quer saber. Ninguém a não ser eu.

A minha reflexão sobre o assunto o mundo dos espíritos é profundamente sagaz. Andámos todos estes anos a bater na pergunta “haverá vida depois da morte?” e a resposta é “sim!”, mas a pergunta que deveria ser feita é: “Haverá inteligência depois da morte?” Pessoal, meditei mesmo muito nisto. Analisei dados, investiguei, falei com uns gajos que vendem cristais e trabalham no Accuweather e a conclusão que cheguei é: não. Não existe inteligência após a morte. Os espíritos têm o QI mais baixo do que a auto-estima. Minha gente, o que se passa é o seguinte. Pelos vistos, no estado de frescura que é a morte há um componente da mente, ainda por identificar, que se perde. Esse componente é o responsável por manter a sanidade mental e a inteligência nas pobres almas. Não me perguntem porquê. A forma como descobri isto foi através da análise de possessões, assombrações, etc.


Se os espíritos que regressam ao mundo terreno fossem espertos e tivessem a capacidade de raciocinar com clareza, não fariam as merdas como fazem. Vejamos: entram no corpo de uma miúda, ela roda a cabeça 360º, vomita-se toda, fala aramaico. E vai ser o quê, escorbuto?! Aparecem a meio da noite com o corpo todo roxo, a fazer ruídos com a garganta e a empurrar o pessoal contra as paredes. E é o quê, Salmonela?! Gritam, desligam a luz, arrastam cadeiras e abrem gavetas? Por favor, é óbvio que é o demo a possuir e a tentar dar cabo da vida ao pessoal. Os tipos não são discretos. Acusam-se desta forma. Nós chamamos um padre velhote, meia dúzia de rezas e água benta e está feito. Kaput! Ora, se estes tipos fossem realmente espertos não fariam jogadas tão óbvias.

Em vez disso, poderiam arruinar mesmo a vida a alguém. Apagavam a lista de contactos do telemóvel de quem estivessem a possuir, por exemplo. Mandavam mensagens pelo Facebook ao ex-namorado da actual namorada de um infeliz qualquer. Pediam créditos à Cofidis e investiam numa pequena empresa de segurança e higiene da Costa do Marfim. Tiravam fotos à filha do chefe e colocavam-nas no desktop dos empregados. Publicavam tweets a dizer que adoravam o Glee. E etc. Isto sim, é arruinar a vida a alguém sem qualquer suspeita. Ou acham que alguém com este tipo de problemas iria recorrer a um exorcista? Nem pensar.

Pois é gente, a morte é complicada. Não só enfrentamos duras questões quando chegamos lá em cima, como não temos sequer a inteligência para lhes responder, por isso sugiro que se corrija a frase “bem aventurados os pobres de espírito pois deles será o Reino dos Céus”. Deveria ser: “Bem aventurados os pobres de espírito, porque… Hmm, pá. Não me lembro, meu”.


TEXTO POR FILIPE MOREIRA
IMAGENS POR MIGUELC


O SÍTIO ONDE OS JPEGS VÃO PARA MORRER #5



Estávamos a ficar com os telemóveis cheios, por isso aqui ficam as imagens que apagámos para libertar espaço em disco. A mais fixe é esta aqui em cima: droga de grife.































POR EQUIPA VICE


PELOS JAZIGOS DE PORTUGAL


Conhecemos a Diva quando ela apareceu na redacção para nos mostrar umas fotos. Era uma sexta-feira de sol e não havia muito que fazer, por isso tivemos que dizer que sim. Não nos interpretem mal: adoramos visitas e fotografia, de maneira que não havia nada a perder. Eram umas fotos a preto e branco, militantemente repetitivas, de jazigos da cidade do Porto. Uma rapariga desconhecida, toda vestida em tons escuros, com fotografias tiradas em cemitérios? Há gente que sabe como nos agradar. Não sabemos se parece sempre o mesmo jazigo porque todas as fotos foram batidas do mesmo ângulo ou se há uma espécie de jazigo-modelo predominante que sai mais barato às famílias enlutadas, tipo tatuagem de catálogo.

Os jazigos são coisas engraçadas na medida em que servem de vala comum a uma família, apenas em modo opulento e planeado. Toda a gente consegue morrer e ser enfiada num caixão debaixo de terra, mas um jazigo não é isso — é uma espécie de pirâmide egípcia adaptada à burguesia ocidental. A pedra deve falar pelos mortos. E as fotos da Diva falam pela pedra. E foi por isso que lhe sugerimos continuar este projecto em cemitérios por toda a Europa e resto do mundo, ao estilo Bernd e Hilla Becher. Curtam a amostra.




















FOTOGRAFIA POR DIVA BRANDÃO