Dica joia: deixe seu domingo mais deprimente visitando as antigas instalações do Dops, no centro de São Paulo. Não tô falando de fazer um piãozinho bucólico descendo na estação Luz de metrô e flanando na parte da agora chamada Estação Pinacoteca que tem umas exposições. Tô falando de desviar a pé dos zumbis do crack que abundam pelas ruas sujas e transar a parte dedicada à memória da repressão do Estado brasileiro. Glamour astral, saca só.
TEXTO POR ANDRÉ MALERONKA
FOTOS POR AUTUMN SONNICHSEN
No começo eu achei que todos esses registros fossem coisa da época que lá funcionou alguma polícia política (getulista ou militar, entre as décadas de 1930 e 1980) -- o que é bem deprê.
Mas não era. Eram de ex-presos, sim, mas que voltaram depois que abriu o Memorial e deixaram marcas da época em que foram hospedados lá -- o talvez seja mais deprê ainda.
Alguns botavam nomes de amigos já mortos ou desaparecidos. Todas essas paredes envolvem uma cela, que foi preservada.
Não sei se são os tênis fancy da Gringuete, mas esse banheiro até que tá bom.
Na real o Memorial da Resistência, como resolveram chamar depois que ex-presos reclamarem do antigo Memorial da Liberdade, não tem tanto de memórias.
São mais umas paredes marcadas, um clima bem zoado e umas fotos da época do lado de fora -- além de painéis e vídeos na entrada e uma cela cheia de fones de ouvido na qual dá pra ouvir depoimentos de ex-presos. Não tive a manha.
Mas também não é a Disneylândia.
Se você fosse suspeito de comunista ou subversivo ou saidinho naquela época, era aqui que você ia ficar.
Tenho (quase) certeza de que (quase) todas as pessoas que estão aí nesse livro são bem mais legais que as que o compilaram.
Óculos maneiros -- e nem eram de ditadores.
Isso foi lá fora. Cena típica do centro de SP: prédio ocupado por movimento social e um terrenão com tudo demolido ao lado.
Desviando dos crackeiros zumbis achamos essa colagem de punheteiro no chão. Deprê também (guardamos pra enquadrar).